terça-feira, 28 de outubro de 2025

Ó alma

Ó alma, nunca serás boa, simples, única, nua e mais evidente do que o corpo que te rodeia? Nunca desfrutarás de uma disposição afetuosa e contente? Nunca estarás completa e sem quaisquer necessidades, ânsias e desejos por prazeres oriundos de entes animados ou inanimados? Quando deixarás de desejar um momento em que terás mais prazer, um lugar ou um clima mais agradável ou uma sociedade onde poderás viver em mais harmonia?
Haverás de satisfazer-te com a tua condição atual e com tudo que te cerca? Tu te convencerás de que já tens tudo? De que tudo te beneficia? De que tudo provém dos deuses? De que tudo que os agrada te convém? De que tudo que providenciam basta para manter um ser vivo aperfeiçoado, benevolente, justo e belo — o qual gera, une, contém e abrange todas as coisas que são dissolvidas para formar outras semelhantes?
Nunca permanecerás em comunhão com os deuses e os homens a ponto de não criticá-los ou ser condenada por eles?

Marco Aurélio, em Meditações

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