sexta-feira, 3 de outubro de 2025

Em Apris e com passaporte

Naturalmente minha maior preocupação em Buenos Aires foi providenciar uma nova identidade. Os papéis falsos que me serviram para atravessar a fronteira argentina não seriam igualmente utilizáveis se eu pretendia fazer uma viagem transatlântica e deslocar-me para a Europa. Como obter outros? Enquanto isso a polícia argentina, alertada pelo governo do Chile, me procurava febrilmente.
Em tais apuros lembrei-me de algo que dormia em minha memória. O novelista Miguel Ángel Asturias, meu velho amigo centro-americano, achava-se provavelmente em Buenos Aires, desempenhando um cargo diplomático de seu país, a Guatemala. Tínhamos uma vaga semelhança fisionômica. De mútuo acordo tínhamos classificado como chompipes, palavra indígena com que se designa os perus na Guatemala e parte do México. De nariz comprido, opulentos de cara e de corpo, unia-nos uma aparência comum com o suculento galináceo.
Veio ver-me em meu esconderijo.
Companheiro chompipe – disse. – Empresta-me teu passaporte. Concede-me o prazer de chegar à Europa transformado em Miguel Ángel Asturias.
Tenho que dizer que Asturias foi sempre um liberal, bastante afastado da política militante. No entanto, não titubeou um instante. Poucos dias depois, entre “senhor Asturias para cá” e “senhor Asturias para lá”, atravessei o amplo rio que separa a Argentina do Uruguai, entrei em Montevidéu, atravessei aeroportos e vigilâncias policiais, chegando finalmente em Paris disfarçado de grande novelista guatemalteco.
Mas na França minha identidade voltava a ser um problema. Meu flamante passaporte não resistiria ao implacável exame crítico da Sûreté. Forçosamente teria que deixar de ser Miguel Ángel Asturias e reconverter-me em Pablo Neruda. Mas como fazê-lo se não tinha sido Pablo Neruda quem tinha chegado à França? Quem tinha chegado era Miguel Ángel Asturias.
Meus conselheiros me obrigaram a me refugiar no Hotel George V.
Ali, entre os poderosos do mundo, ninguém irá te pedir os papéis – disseram.
Alojei-me ali por alguns dias, sem me preocupar muito com as roupas usadas na cordilheira e que destoavam naquele mundo rico e elegante. Então surgiu Picasso, tão grande de gênio quanto de bondade. Estava feliz como um menino porque recentemente tinha pronunciado o primeiro discurso de sua vida. O discurso tinha versado sobre minha poesia, sobre minha perseguição, sobre minha ausência. Agora, com ternura fraternal, o genial minotauro da pintura moderna se preocupava pela minha situação em seus detalhes mais ínfimos. Falava com as autoridades, telefonava a meio mundo. Não sei quantos quadros portentosos deixou de pintar por culpa minha. Eu sentia na alma fazê-lo perder seu tempo sagrado.

Na ocasião celebrava-se em Paris um congresso da paz. Apareci em seus salões no último momento, só para ler um de meus poemas. Todos os delegados me aplaudiam e me abraçavam. Muitos me supunham morto. Duvidavam que eu pudesse ter burlado a perseguição furiosa da polícia chilena.
No dia seguinte chegou ao meu hotel o senhor Alderete, veterano jornalista da France Press, que me disse:
Ao ser noticiado pela imprensa que o senhor se encontra em Paris, o governo do Chile declarou que a notícia é falsa, que é um sósia seu que aqui se apresenta, que Pablo Neruda se acha no Chile e que continua sendo seguido de perto, que sua detenção é somente questão de horas. Que podemos responder?
Lembrei que numa discussão sobre se Shakespeare tinha escrito ou não as suas obras, discussão pedante e absurda, Mark Twain interveio para dar sua opinião: “Em verdade não foi William Shakespeare quem escreveu essas obras mas sim outro inglês que nasceu no mesmo dia e na mesma hora que ele, morreu na mesma data, e que para cúmulo da coincidência chamava-se também William Shakespeare.”
Responda – disse ao jornalista – que  eu não sou Pablo Neruda mas sim outro chileno que escreve poesia, luta pela liberdade e se chama também Pablo Neruda.
Não foi tão simples arranjar meus papéis. Aragon e Paul Éluard me ajudavam. Enquanto isso, tinha que viver numa situação semiclandestina.
Entre as casas que me acolheram, estava a de Mme. Françoise Giroux. Nunca esquecerei esta dama tão original e inteligente. Seu apartamento ficava no Palais Royal, vizinho ao de Colette. Tinha adotado um menino vietnamita. O exército francês se encarregou, numa certa época, da tarefa que depois assumiriam os norte-americanos: a de matar gente inocente nas distantes terras do Vietnam. Então ela adotou o menino.
Recordo que nessa casa havia um Picasso dos mais belos que eu tinha visto. Era um quadro de grandes dimensões, anterior à fase cubista. Representava dois cortinados de felpa vermelha que caíam, entrecerrando-se como uma janela, sobre uma mesa. A mesa aparecia atravessada de lado a lado por um comprido pão francês. O quadro pareceu-me reverencial. O pão enorme sobre a mesa era como a imagem central dos ícones antigos ou como o São Maurício de El Greco que está no Escorial. Pus-lhe um título pessoal no quadro: A Ascensão do Santo Pão.
Um dia desses veio o próprio Picasso para me visitar em meu esconderijo. Levei-o para junto de seu quadro, pintado há tantos anos. Ele o havia esquecido por completo. Pôs-se a examiná-lo com muita seriedade, submerso nessa atenção extraordinária e algo melancólica que poucas vezes se notava nele. Esteve mais de dez minutos em silêncio, aproximando-se e afastando-se de sua obra esquecida.
Cada vez gosto mais dela – disse-lhe quando concluiu sua meditação. – Vou propor que seja comprado para o museu de meu país. A senhora Giroux está disposta a nos vender.
Picasso voltou de novo a cabeça para o quadro, cravou o olhar no pão magnífico e respondeu como único comentário:
Não está mal.
Encontrei para alugar uma casa que me pareceu extravagante, na rua Pierre Mill, no segundo arrondissement, quer dizer, onde o diabo perdeu as botas. Era um bairro operário e de baixa classe média. Era preciso viajar horas no metrô para chegar até lá. O que me agradou nessa casa foi que parecia uma jaula. Tinha três andares, corredores e peças pequenas  - uma indescritível gaiola.
O andar de baixo, que era o mais amplo e tinha uma estufa de serragem, reservei para biblioteca e para salão de festas eventuais. Nos andares de cima ficaram instalados amigos meus, quase todos vindos do Chile. Ali se alojaram os pintores Jesé Venturelli, Nemesio Antúnez e outro que não me lembro.
Recebi então a visita de três grandes da literatura soviética: o poeta Nikolai Tijonov, o dramaturgo Alexandre Korneichuk (que era ao mesmo tempo governador da Ucrânia) e o novelista Constantin Simonov. Nunca os tinha visto antes. Abraçaram-me como se fôssemos irmãos que se encontrassem depois de uma longa ausência. E me deram, além do abraço, um sonoro beijo, desses beijos eslavos entre homens que significam grande amizade e respeito, e aos quais custei a me acostumar. Anos mais tarde, quando compreendi o caráter desses fraternais beijos masculinos, tive ocasião de começar uma de minhas histórias com essas palavras:
O primeiro homem que me beijou foi um cônsul tchecoslovaco...

O governo do Chile não me queria. Não me queria no Chile nem fora tampouco. Por todas as partes onde eu passava era precedido de comunicações diplomáticas e de telefonemas que convidavam outros governos a me hostilizar.
Soube que no Quai d'Orsay existia um informe sobre a minha pessoa, que dizia mais ou menos o seguinte: “Neruda e sua mulher, Delia del Carril, fazem frequentes viagens à Espanha, levando e trazendo instruções soviéticas. As instruções são recebidas do escritor russo Ilya Ehrenburg, com quem também Neruda faz viagens clandestinas à Espanha. Neruda, para estabelecer um contato mais privado com Ehrenberg, alugou e foi viver num apartamento situado no mesmo edifício onde mora o escritor soviético.”
Era uma fieira de disparates. Jean Richard Bloch me deu uma carta para um amigo seu que ocupava um cargo importante no Ministério das Relações Exteriores. Expliquei ao funcionário como pretendiam me expulsar da França pretextando absurdas suposições. Disse-lhe que desejava ardentemente conhecer Ehrenburg mas que, por desgraça, até esse dia não tinha tido tal honra. O alto funcionário olhou-me penalizado e prometeu que fariam uma investigação verdadeira. Mas nunca fizeram e as absurdas acusações ficaram de pé.
Decidi então apresentar-me a Ehrenburg. Sabia que ele ia diariamente ao La Coupole, onde almoçava à maneira russa, isto é, ao entardecer.
Sou o poeta Pablo Neruda, do Chile – disse. – Segundo a polícia somos íntimos amigos. Afirmam que eu vivo no mesmo edifício que você. Como vão me expulsar da França por culpa sua, desejo pelo menos conhecê-lo de perto e apertar sua mão.
Não creio que Ehrenburg manifestasse sinais de surpresa diante de nenhum fenômeno que ocorresse no mundo. No entanto, vi sair de suas sobrancelhas hirsutas, por baixo de seus grandes tufos coléricos e grisalhos, um olhar bastante parecido com a estupefação.
Eu também desejava conhecê-lo, Neruda – disse. – Gosto de sua poesia. Enquanto isso, prove este chucrute à alsaciana.
Desde esse instante nos tornamos grandes amigos. Acho que naquele mesmo dia começou a traduzir meu livro España en el corazón. Devo reconhecer que, sem se propor a isso, a polícia francesa concorreu para uma das mais gratas amizades de minha vida e me proporcionou também o mais eminente de meus tradutores para a língua russa.
Certo dia Jules Supervielle veio me ver. Já por essa data eu tinha passaporte chileno em meu nome e em dia. O velho e nobre poeta uruguaio saía então muito pouco à rua. Sua visita me emocionou e me surpreendeu.
Trago-te um recado importante. Meu genro Bertaux quer te ver. Não sei de que se trata.
Bertaux era o chefe da polícia. Chegamos a seu gabinete. O velho poeta e eu nos sentamos junto do funcionário, em frente à sua mesa. Nunca vi uma mesa com mais telefones. Quantos seriam? Acho que não menos de vinte. Seu rosto inteligente e astuto me olhava daquele bosque telefônico. Eu pensava que naquele recinto tão elevado estavam todos os fios da vida subterrânea parisiense. Lembrei-me de Fantomas e do comissário Maigret.
O chefe de polícia havia lido meus livros e tinha um conhecimento inesperado de minha poesia.
Recebi uma petição do embaixador do Chile para confiscar seu passaporte. O embaixador alega que você usa passaporte diplomático, o que seria ilegal. É verdadeira essa informação?
Meu passaporte não é diplomático – respondi. – É um simples passaporte oficial. Sou senador em meu país e, como tal, tenho direito à posse deste documento. Além disso, aqui o tem e pode examiná-lo, mas não o retenha porque é de minha propriedade particular.
Está em dia? Quem o prorrogou? – perguntou o senhor Bertaux pegando meu passaporte.
Está em dia, é claro – disse. – Quanto a quem prorrogou, não lhe posso dizer, senão o governo do Chile destituiria esse funcionario.
O chefe de polícia examinou minuciosamente meus papéis. Depois utilizou um dos inumeráveis telefones e ordenou que o pusessem em contato com o embaixador do Chile.
A conversa telefônica entabulou-se em minha presença.
Não, senhor embaixador, não posso fazê-lo. Seu passaporte é legal. Ignoro quem o prorrogou. Repito que seria incorreto tirar-lhe os papéis. Não posso, senhor embaixador. Sinto muito.
Transparecia a insistência do embaixador e também era evidente uma ligeira irritação por parte de Bertaux. Finalmente este deixou o telefone e me disse:
Parece ser um grande inimigo seu. Mas pode permanecer na França quanto tempo desejar.
Saí com Supervielle. O velho poeta não explicava o que acontecia. De minha parte, sentia uma sensação de triunfo mesclada com outra de repulsa. O embaixador que me fustigava, cúmplice de meu perseguidor no Chile, era o mesmo Joaquín Fernández que se fazia de meu amigo, que não perdia ocasião de me adular e que nessa mesma manhã tinha me enviado um recadinho afetuoso pelo embaixador da Guatemala.

Pablo Neruda, em Confesso que Vivi

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