Naturalmente minha maior preocupação
em Buenos Aires foi providenciar uma nova identidade. Os papéis
falsos que me serviram para atravessar a fronteira argentina não
seriam igualmente utilizáveis se eu pretendia fazer uma viagem
transatlântica e deslocar-me para a Europa. Como obter outros?
Enquanto isso a polícia argentina, alertada pelo governo do Chile,
me procurava febrilmente.
Em tais apuros lembrei-me de algo que
dormia em minha memória. O novelista Miguel Ángel Asturias, meu
velho amigo centro-americano, achava-se provavelmente em Buenos
Aires, desempenhando um cargo diplomático de seu país, a Guatemala.
Tínhamos uma vaga semelhança fisionômica. De mútuo acordo
tínhamos classificado como chompipes, palavra indígena com
que se designa os perus na Guatemala e parte do México. De nariz
comprido, opulentos de cara e de corpo, unia-nos uma aparência comum
com o suculento galináceo.
Veio ver-me em meu esconderijo.
– Companheiro chompipe – disse. –
Empresta-me teu passaporte. Concede-me o prazer de chegar à Europa
transformado em Miguel Ángel Asturias.
Tenho que dizer que Asturias foi
sempre um liberal, bastante afastado da política militante. No
entanto, não titubeou um instante. Poucos dias depois, entre “senhor
Asturias para cá” e “senhor Asturias para lá”, atravessei o
amplo rio que separa a Argentina do Uruguai, entrei em Montevidéu,
atravessei aeroportos e vigilâncias policiais, chegando finalmente
em Paris disfarçado de grande novelista guatemalteco.
Mas na França minha identidade
voltava a ser um problema. Meu flamante passaporte não resistiria ao
implacável exame crítico da Sûreté. Forçosamente teria que
deixar de ser Miguel Ángel Asturias e reconverter-me em Pablo
Neruda. Mas como fazê-lo se não tinha sido Pablo Neruda quem tinha
chegado à França? Quem tinha chegado era Miguel Ángel Asturias.
Meus conselheiros me obrigaram a me
refugiar no Hotel George V.
– Ali, entre os poderosos do mundo,
ninguém irá te pedir os papéis – disseram.
Alojei-me ali por alguns dias, sem me
preocupar muito com as roupas usadas na cordilheira e que destoavam
naquele mundo rico e elegante. Então surgiu Picasso, tão grande de
gênio quanto de bondade. Estava feliz como um menino porque
recentemente tinha pronunciado o primeiro discurso de sua vida. O
discurso tinha versado sobre minha poesia, sobre minha perseguição,
sobre minha ausência. Agora, com ternura fraternal, o genial
minotauro da pintura moderna se preocupava pela minha situação em
seus detalhes mais ínfimos. Falava com as autoridades, telefonava a
meio mundo. Não sei quantos quadros portentosos deixou de pintar por
culpa minha. Eu sentia na alma fazê-lo perder seu tempo sagrado.
Na ocasião celebrava-se em Paris um
congresso da paz. Apareci em seus salões no último momento, só
para ler um de meus poemas. Todos os delegados me aplaudiam e me
abraçavam. Muitos me supunham morto. Duvidavam que eu pudesse ter
burlado a perseguição furiosa da polícia chilena.
No dia seguinte chegou ao meu hotel o
senhor Alderete, veterano jornalista da France Press, que me disse:
– Ao ser noticiado pela imprensa que
o senhor se encontra em Paris, o governo do Chile declarou que a
notícia é falsa, que é um sósia seu que aqui se apresenta, que
Pablo Neruda se acha no Chile e que continua sendo seguido de perto,
que sua detenção é somente questão de horas. Que podemos
responder?
Lembrei que numa discussão sobre se
Shakespeare tinha escrito ou não as suas obras, discussão pedante e
absurda, Mark Twain interveio para dar sua opinião: “Em verdade
não foi William Shakespeare quem escreveu essas obras mas sim outro
inglês que nasceu no mesmo dia e na mesma hora que ele, morreu na
mesma data, e que para cúmulo da coincidência chamava-se também
William Shakespeare.”
– Responda – disse ao jornalista –
que eu não sou Pablo Neruda mas sim outro chileno que escreve
poesia, luta pela liberdade e se chama também Pablo Neruda.
Não foi tão simples arranjar meus
papéis. Aragon e Paul Éluard me ajudavam. Enquanto isso, tinha que
viver numa situação semiclandestina.
Entre as casas que me acolheram,
estava a de Mme. Françoise Giroux. Nunca esquecerei esta dama tão
original e inteligente. Seu apartamento ficava no Palais Royal,
vizinho ao de Colette. Tinha adotado um menino vietnamita. O exército
francês se encarregou, numa certa época, da tarefa que depois
assumiriam os norte-americanos: a de matar gente inocente nas
distantes terras do Vietnam. Então ela adotou o menino.
Recordo que nessa casa havia um
Picasso dos mais belos que eu tinha visto. Era um quadro de grandes
dimensões, anterior à fase cubista. Representava dois cortinados de
felpa vermelha que caíam, entrecerrando-se como uma janela, sobre
uma mesa. A mesa aparecia atravessada de lado a lado por um comprido
pão francês. O quadro pareceu-me reverencial. O pão enorme sobre a
mesa era como a imagem central dos ícones antigos ou como o São
Maurício de El Greco que está no Escorial. Pus-lhe um título
pessoal no quadro: A Ascensão do Santo Pão.
Um dia desses veio o próprio Picasso
para me visitar em meu esconderijo. Levei-o para junto de seu quadro,
pintado há tantos anos. Ele o havia esquecido por completo. Pôs-se
a examiná-lo com muita seriedade, submerso nessa atenção
extraordinária e algo melancólica que poucas vezes se notava nele.
Esteve mais de dez minutos em silêncio, aproximando-se e
afastando-se de sua obra esquecida.
– Cada vez gosto mais dela –
disse-lhe quando concluiu sua meditação. – Vou propor que seja
comprado para o museu de meu país. A senhora Giroux está disposta a
nos vender.
Picasso voltou de novo a cabeça para
o quadro, cravou o olhar no pão magnífico e respondeu como único
comentário:
– Não está mal.
Encontrei para alugar uma casa que me
pareceu extravagante, na rua Pierre Mill, no segundo arrondissement,
quer dizer, onde o diabo perdeu as botas. Era um bairro operário e
de baixa classe média. Era preciso viajar horas no metrô para
chegar até lá. O que me agradou nessa casa foi que parecia uma
jaula. Tinha três andares, corredores e peças pequenas - uma
indescritível gaiola.
O andar de baixo, que era o mais amplo
e tinha uma estufa de serragem, reservei para biblioteca e para salão
de festas eventuais. Nos andares de cima ficaram instalados amigos
meus, quase todos vindos do Chile. Ali se alojaram os pintores Jesé
Venturelli, Nemesio Antúnez e outro que não me lembro.
Recebi então a visita de três
grandes da literatura soviética: o poeta Nikolai Tijonov, o
dramaturgo Alexandre Korneichuk (que era ao mesmo tempo governador da
Ucrânia) e o novelista Constantin Simonov. Nunca os tinha visto
antes. Abraçaram-me como se fôssemos irmãos que se encontrassem
depois de uma longa ausência. E me deram, além do abraço, um
sonoro beijo, desses beijos eslavos entre homens que significam
grande amizade e respeito, e aos quais custei a me acostumar. Anos
mais tarde, quando compreendi o caráter desses fraternais beijos
masculinos, tive ocasião de começar uma de minhas histórias com
essas palavras:
– O primeiro homem que me beijou foi
um cônsul tchecoslovaco...
O governo do Chile não me queria. Não
me queria no Chile nem fora tampouco. Por todas as partes onde eu
passava era precedido de comunicações diplomáticas e de
telefonemas que convidavam outros governos a me hostilizar.
Soube que no Quai d'Orsay existia um
informe sobre a minha pessoa, que dizia mais ou menos o seguinte:
“Neruda e sua mulher, Delia del Carril, fazem frequentes viagens à
Espanha, levando e trazendo instruções soviéticas. As instruções
são recebidas do escritor russo Ilya Ehrenburg, com quem também
Neruda faz viagens clandestinas à Espanha. Neruda, para estabelecer
um contato mais privado com Ehrenberg, alugou e foi viver num
apartamento situado no mesmo edifício onde mora o escritor
soviético.”
Era uma fieira de disparates. Jean
Richard Bloch me deu uma carta para um amigo seu que ocupava um cargo
importante no Ministério das Relações Exteriores. Expliquei ao
funcionário como pretendiam me expulsar da França pretextando
absurdas suposições. Disse-lhe que desejava ardentemente conhecer
Ehrenburg mas que, por desgraça, até esse dia não tinha tido tal
honra. O alto funcionário olhou-me penalizado e prometeu que fariam
uma investigação verdadeira. Mas nunca fizeram e as absurdas
acusações ficaram de pé.
Decidi então apresentar-me a
Ehrenburg. Sabia que ele ia diariamente ao La Coupole, onde almoçava
à maneira russa, isto é, ao entardecer.
– Sou o poeta Pablo Neruda, do Chile
– disse. – Segundo a polícia somos íntimos amigos. Afirmam que
eu vivo no mesmo edifício que você. Como vão me expulsar da França
por culpa sua, desejo pelo menos conhecê-lo de perto e apertar sua
mão.
Não creio que Ehrenburg manifestasse
sinais de surpresa diante de nenhum fenômeno que ocorresse no mundo.
No entanto, vi sair de suas sobrancelhas hirsutas, por baixo de seus
grandes tufos coléricos e grisalhos, um olhar bastante parecido com
a estupefação.
– Eu também desejava conhecê-lo,
Neruda – disse. – Gosto de sua poesia. Enquanto isso, prove este
chucrute à alsaciana.
Desde esse instante nos tornamos
grandes amigos. Acho que naquele mesmo dia começou a traduzir meu
livro España en el corazón. Devo reconhecer que, sem se
propor a isso, a polícia francesa concorreu para uma das mais gratas
amizades de minha vida e me proporcionou também o mais eminente de
meus tradutores para a língua russa.
Certo dia Jules Supervielle veio me
ver. Já por essa data eu tinha passaporte chileno em meu nome e em
dia. O velho e nobre poeta uruguaio saía então muito pouco à rua.
Sua visita me emocionou e me surpreendeu.
– Trago-te um recado importante. Meu
genro Bertaux quer te ver. Não sei de que se trata.
Bertaux era o chefe da polícia.
Chegamos a seu gabinete. O velho poeta e eu nos sentamos junto do
funcionário, em frente à sua mesa. Nunca vi uma mesa com mais
telefones. Quantos seriam? Acho que não menos de vinte. Seu rosto
inteligente e astuto me olhava daquele bosque telefônico. Eu pensava
que naquele recinto tão elevado estavam todos os fios da vida
subterrânea parisiense. Lembrei-me de Fantomas e do comissário
Maigret.
O chefe de polícia havia lido meus
livros e tinha um conhecimento inesperado de minha poesia.
– Recebi uma petição do embaixador
do Chile para confiscar seu passaporte. O embaixador alega que você
usa passaporte diplomático, o que seria ilegal. É verdadeira essa
informação?
– Meu passaporte não é diplomático
– respondi. – É um simples passaporte oficial. Sou senador em
meu país e, como tal, tenho direito à posse deste documento. Além
disso, aqui o tem e pode examiná-lo, mas não o retenha porque é de
minha propriedade particular.
– Está em dia? Quem o prorrogou? –
perguntou o senhor Bertaux pegando meu passaporte.
– Está em dia, é claro – disse.
– Quanto a quem prorrogou, não lhe posso dizer, senão o governo
do Chile destituiria esse funcionario.
O chefe de polícia examinou
minuciosamente meus papéis. Depois utilizou um dos inumeráveis
telefones e ordenou que o pusessem em contato com o embaixador do
Chile.
A conversa telefônica entabulou-se em
minha presença.
– Não, senhor embaixador, não
posso fazê-lo. Seu passaporte é legal. Ignoro quem o prorrogou.
Repito que seria incorreto tirar-lhe os papéis. Não posso, senhor
embaixador. Sinto muito.
Transparecia a insistência do
embaixador e também era evidente uma ligeira irritação por parte
de Bertaux. Finalmente este deixou o telefone e me disse:
– Parece ser um grande inimigo seu.
Mas pode permanecer na França quanto tempo desejar.
Saí com Supervielle. O velho poeta
não explicava o que acontecia. De minha parte, sentia uma sensação
de triunfo mesclada com outra de repulsa. O embaixador que me
fustigava, cúmplice de meu perseguidor no Chile, era o mesmo Joaquín
Fernández que se fazia de meu amigo, que não perdia ocasião de me
adular e que nessa mesma manhã tinha me enviado um recadinho
afetuoso pelo embaixador da Guatemala.
Pablo Neruda, em Confesso que Vivi
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