Num dia de início da primavera, eu
percorria de carro um passo de montanha no Colorado, quando uma
repentina lufada de neve encobriu o veículo alguns metros à minha
frente. Mesmo forçando a vista, eu não conseguia distinguir nada; a
neve em redemoinho transformara-se numa alvura cegante. Ao pisar no
freio, senti a ansiedade me invadir o corpo e ouvi as batidas surdas
do coração.
A ansiedade transformou-se em medo
total. Fui para o acostamento esperar que a lufada passasse. Meia
hora depois, a neve parou, a visibilidade retornou e segui em frente,
sendo parado uns 100 metros adiante, onde uma equipe de ambulância
socorria um passageiro de um carro que batera na traseira de outro
que andava em velocidade mais lenta. A colisão havia bloqueado a
rodovia. Se eu tivesse continuado a dirigir na neve que impedia a
visibilidade, provavelmente os teria atingido.
A cautela que o medo me impôs naquele
dia talvez tenha salvado minha vida. Como um coelho paralisado de
terror ao sinal da passagem de uma raposa — ou como um
protomamífero escondendo-se de um dinossauro predador — fui tomado
por um estado interno que me obrigou a parar, a prestar atenção e a
tomar cuidado diante do perigo iminente.
Todas as emoções são, em essência,
impulsos, legados pela evolução, para uma ação imediata, para
planejamentos instantâneos que visam lidar com a vida. A própria
raiz da palavra emoção é do latim movere — “mover”
— acrescida do prefixo “e-”, que denota “afastar-se”, o que
indica que em qualquer emoção está implícita uma propensão para
um agir imediato. Essa relação entre emoção e ação imediata
fica bem clara quando observamos animais ou crianças; é somente em
adultos “civilizados” que tantas vezes detectamos a grande
anomalia no reino animal: as emoções — impulsos arraigados para
agir — divorciadas de uma reação óbvia.
Em nosso repertório emocional, cada
emoção desempenha uma função específica, como revelam suas
distintas assinaturas biológicas (ver detalhes sobre emoções
“básicas” no Apêndice A). Diante das novas tecnologias que
permitem perscrutar o cérebro e o corpo como um todo, os
pesquisadores estão descobrindo detalhes fisiológicos que permitem
a verificação de como diferentes tipos de emoção preparam o corpo
para diferentes tipos de resposta:
• Na raiva, o sangue flui
para as mãos, tornando mais fácil sacar da arma ou golpear o
inimigo; os batimentos cardíacos aceleram-se e uma onda de
hormônios, a adrenalina, entre outros, gera uma pulsação, energia
suficientemente forte para uma atuação vigorosa.
• No medo, o sangue corre
para os músculos do esqueleto, como os das pernas, facilitando a
fuga; o rosto fica lívido, já que o sangue lhe é subtraído (daí
dizer-se que alguém ficou “gélido”). Ao mesmo tempo, o corpo
imobiliza-se, ainda que por um breve momento, talvez para permitir
que a pessoa considere a possibilidade de, em vez de agir, fugir e se
esconder. Circuitos existentes nos centros emocionais do cérebro
disparam a torrente de hormônios que põe o corpo em alerta geral,
tornando-o inquieto e pronto para agir. A atenção se fixa na ameaça
imediata, para melhor calcular a resposta a ser dada.
• A sensação de felicidade
causa uma das principais alterações biológicas. A atividade do
centro cerebral é incrementada, o que inibe sentimentos negativos e
favorece o aumento da energia existente, silenciando aqueles que
geram pensamentos de preocupação. Mas não ocorre nenhuma mudança
particular na fisiologia, a não ser uma tranquilidade, que faz com
que o corpo se recupere rapidamente do estímulo causado por emoções
perturbadoras. Essa configuração dá ao corpo um total relaxamento,
assim como disposição e entusiasmo para a execução de qualquer
tarefa que surja e para seguir em direção a uma grande variedade de
metas.
• O amor, os sentimentos de
afeição e a satisfação sexual implicam estimulação
parassimpática, o que se constitui no oposto fisiológico que
mobiliza para “lutar-ou-fugir” que ocorre quando o sentimento é
de medo ou ira. O padrão parassimpático, chamado de “resposta de
relaxamento”, é um conjunto de reações que percorre todo o
corpo, provocando um estado geral de calma e satisfação,
facilitando a cooperação.
• O erguer das sobrancelhas, na
surpresa, proporciona uma varredura visual mais ampla, e
também mais luz para a retina. Isso permite que obtenhamos mais
informação sobre um acontecimento que se deu de forma inesperada,
tornando mais fácil perceber exatamente o que está acontecendo e
conceber o melhor plano de ação.
• Em todo o mundo, a expressão de
repugnância se assemelha e envia a mesma mensagem: alguma
coisa desagradou ao gosto ou ao olfato, real ou metaforicamente. A
expressão facial de repugnância — o lábio superior se retorcendo
para o lado e o nariz se enrugando ligeiramente — sugere, como
observou Darwin, uma tentativa primeva de tapar as narinas para
evitar um odor nocivo ou cuspir fora uma comida estragada.
• Uma das principais funções da
tristeza é a de propiciar um ajustamento a uma grande perda,
como a morte de alguém ou uma decepção significativa. A tristeza
acarreta uma perda de energia e de entusiasmo pelas atividades da
vida, em particular por diversões e prazeres. Quando a tristeza é
profunda, aproximando-se da depressão, a velocidade metabólica do
corpo fica reduzida. Esse retraimento introspectivo cria a
oportunidade para que seja lamentada uma perda ou frustração, para
captar suas consequências para a vida e para planejar um recomeço
quando a energia retorna. É possível que essa perda de energia
tenha tido como objetivo manter os seres humanos vulneráveis em
estado de tristeza para que permanecessem perto de casa, onde
estariam em maior segurança.
Essas tendências biológicas para
agir são ainda mais moldadas por nossa experiência e pela cultura.
Por exemplo, a perda de um ser amado provoca, universalmente,
tristeza e luto. Mas a maneira como demonstramos nosso pesar, como
exibimos ou contemos as emoções em momentos íntimos, é moldada
pela cultura, o mesmo ocorrendo quando se trata de eleger quais
pessoas em nossas vidas se encaixam na categoria de “entes
queridos” dignos de nosso lamento.
O prolongado período de evolução em
que, por força das circunstâncias, essas respostas emocionais se
formaram foi, sem dúvida, uma realidade bem mais dura que a maioria
dos seres humanos teve de suportar desde o alvorecer da história
registrada. Foi um tempo em que poucas crianças sobreviveram à
infância e em que poucos adultos viveram mais do que trinta anos,
tempo em que predadores atacavam a qualquer momento, tempo em que as
condições climáticas determinavam se iríamos ou não morrer de
fome. Mas, com o advento da agricultura, e até mesmo das mais
rudimentares formas de organização social, as possibilidades de
sobrevivência mudaram de forma extraordinária. Nos últimos 10 mil
anos, quando esses avanços se espalharam por todo o mundo,
reduziram-se significativamente as violentas pressões que ameaçaram
a população humana.
Mas foram exatamente essas pressões
que tornaram nossas respostas emocionais fundamentais para a
sobrevivência; atenuadas as pressões, a importância das reações
que passaram a fazer parte de nosso repertório emocional também
declinou. Enquanto, no passado distante, a raiva instantânea
funcionava como arma decisiva para garantir nossa sobrevivência, a
eventual disponibilidade de uma arma para um garoto de 13 anos pode
resultar numa catástrofe.
Daniel Goleman, em Inteligência emocional, A teoria revolucionária que redefine o que é ser inteligente

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