54.
A personagem individual e imponente,
que os românticos figuravam em si mesmos, várias vezes, em sonho, a
tentei viver, e, tantas vezes, quantas a tentei viver, me encontrei a
rir alto, da minha ideia de vivê-la. O homem fatal, afinal, existe
nos sonhos próprios de todos os homens vulgares, e o romantismo não
é senão o virar do avesso do domínio quotidiano de nós mesmos.
Quase todos os homens sonham, nos secretos do seu ser, um grande
imperialismo próprio, a sujeição de todos os homens, a entrega de
todas as mulheres, a adoração dos povos, e, nos mais nobres’, de
todas as eras... Poucos como eu habituados ao sonho, são por isso
lúcidos bastante para rir da possibilidade estética de se sonhar
assim.
A maior acusação ao romantismo não
se fez ainda: é a de que ele representa a verdade interior da
natureza humana. Os seus exageros, os seus ridículos, os seus
poderes vários de comover e de seduzir, residem em que ele é a
figuração exterior do que há mais dentro na alma, mas concreto,
visualizado, até possível, se o ser possível dependesse de outra
coisa que não o Destino.
Quantas vezes eu mesmo, que rio de
tais seduções da distração, me encontro supondo que seria bom ser
célebre, que seria agradável ser ameigado, que seria colorido ser
triunfal! Mas não consigo visionar-me nesses papéis de píncaro
senão com uma gargalhada do outro eu que tenho sempre próximo como
uma rua da Baixa. Vejo-me célebre? Mas vejo-me célebre como
guarda-livros. Sinto-me alçado aos tronos do ser conhecido? Mas o
caso passa-se no escritório da Rua dos Douradores e os rapazes são
um obstáculo. Ouço-me aplaudido por multidões variegadas? O
aplauso chega ao quarto andar onde moro e colide com a mobília tosca
do meu quarto barato, com o reles que me rodeia, e me amesquinha
desde a cozinha ao sonho. Não tive sequer castelos em Espanha, como
os grandes espanhóis de todas as ilusões. Os meus foram de cartas
de jogar, velhas, sujas, de um baralho incompleto com que se não
poderia jogar nunca nem caíram, foi preciso destruí-los, com um
gesto de mão, sob o impulso impaciente da criada velha, que queria
recompor, sobre a mesa inteira, a toalha atirada sobre a metade de
lá, porque a hora do chá soara como uma maldição do Destino. Mas
até isto é uma visão improfícua, pois não tenho a casa de
província, ou as tias velhas, a cuja mesa eu tome, no fim de uma
noite de família, um chá que me saiba a repouso. O meu sonho falhou
até nas metáforas e nas figurações. O meu império nem chegou às
cartas velhas de jogar. A minha vitória falhou sem um bule sequer
nem um gato antiquíssimo. Morrerei como tenho vivido, entre o
bric-à-brac dos arredores, apreçado pelo peso entre os pós-escritos
do perdido.
Leve eu ao menos, para o imenso
possível do abismo de tudo, a glória da minha desilusão como se
fosse a de um grande sonho, o esplendor de não crer como um pendão
de derrota — pendão contudo nas mãos débeis, mas pendão
arrastado entre a lama e o sangue dos fracos, mas erguido ao alto, ao
sumirmo-nos nas areias movediças, ninguém sabe se como protesto, se
como desafio, se como gesto de desespero. Ninguém sabe, porque
ninguém sabe nada, e as areias engolfam os que têm pendões como os
que não têm. E as areias cobrem tudo, a minha vida, a minha prosa,
a minha eternidade.
Levo comigo a consciência da derrota
como um pendão de vitória.
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego
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