Creio mesmo que não devemos desprezar
as minúcias de um relato, se quisermos nos aproximar o mais possível
da história em sua quase totalidade. Principalmente se for um caso
de amor. E por que digo quase? Porque, por minhas andanças nos
caminhos da escuta e do contar, sinto, depois, que pedaços da
matéria-prima, do relato original, vão se perdendo pelos caminhos.
Se contar o acontecido já é uma traição com o vivido, pois,
muitas vezes, se trata de uma reconstrução malfeita das lembranças,
recontar o que ouvimos pode ser uma dupla traição. Por isso,
recontar é um trabalho perene, infindo. É preciso voltar sempre no
afã de buscar os pedaços da história que ficaram perdidos. E foi o
que se deu. De repente me veio à lembrança tudo o que Juventina me
contou. Vi vazios no relato. Como me esforço para ser fiel ao que me
contam, mesmo sabendo da impossibilidade de cumprir tal propósito,
tentei rearrumar os fatos que narrei. Perguntei a Tina sobre os
pedaços faltantes. Ela afirmou que o descuido havia sido de minha
escuta. Juventina suspeitou de minha atenção, do meu cuidado em
apreender todos os momentos da história. Calei-me e ela me contou as
partes que faltavam. Somente hoje trago, para vocês, as porções
ausentes no tecido da história contada anteriormente. Eis, pois, o
que consegui captar das passagens de Aurora, de Antonieta, de Dolores
e de Dalva, que compõem também a saga amorosa (?) de Fio Jasmim,
mas que ficaram ignoradas no primeiro relato. As histórias
desvendadas neste segundo relato se vinculam à primeira narração.
Repito, não sei se a falha foi de Juventina ao me contar ou se me
desatentei em algum momento da escuta. Tento remediar, apresentando
agora o que meus sentidos deixaram escapar por ocasião da primeira
narrativa de Canção…
Lembrem-se de que estamos tratando de
uma história de amor, ou, para ser mais exata, de amores, e muitas
são as pessoas amantes. Isto é, as que amam ou as que perseguem
esse sentimento, na esperança e no desejo de serem amadas. As
histórias de Juventina, de Neide, de Pérola Maria, de Angelina e de
Eleonora, contadas desde a primeira narração, têm os sentidos
ampliados ao serem consideradas em seus cruzamentos com as das outras
mulheres reveladas agora. As particularidades da relação de cada
uma no conjunto ajudam compor a imagem caleidoscópica de Fio Jasmim
e os sentidos e os dessentidos dos fios amorosos ou enganosos das
deambulações de Jasmim, na vida das mulheres. Ou, quem sabe, o
contrário, entender o sentido das mulheres no movediço terreno da
vida sentimental de Fio Jasmim.
Posso afirmar agora que a história
está quase completa, quase-quase. Apurei todos os meus sentidos,
embora Juventina tivesse me lançado a dúvida acerca de minha
competência em apreender os cantos e os recantos dos fatos com as
suas personagens. Juventina me imputa a dúvida e a culpa. Ouvi
direito? O que estou relatando é o que ouvi? A dúvida e a culpa me
colocam em dívida com o que ouvi e com o que relato. Entretanto,
insisto que sempre estive inteira no momento da escuta. Contudo, a
escrita me deixa em profundo estado de desesperação, pois a letra
não agarra tudo o que o corpo diz. Na escrita faltam os gestos, os
olhares, a boca entreaberta de onde vazam ruídos e não palavras. No
registro da letra também faltam o tremor do choro e o rasgo do riso.
A fala suspensa foge da escrita. E mais, a grafia não registra a
intensidade de um silêncio intervalar, diante de um renovado estado
de estupor, vivido na hora das relembranças. Se contar e recontar
são atos marcados por sinais de incompletude, pois difícil é
traduzir os intensos sentidos da memória, imaginem escrever.
Imaginem perseguir uma escrevivência. Agarrar a vida, a existência,
e escrevê-la em seu estado de acontecimentos. Mas persisto nessa
intenção. Só falarei do brilho das estrelas, das árvores
frondosas que habitam determinada esquina e debulharei as palavras,
da sua raiz até as suas derivações, se tudo me vier agarrado à
vida. Nem precisa ser só a minha vida, pois me é fundamental a vida
das pessoas em meu entorno. Das pessoas, em particular da minha
gente, das que estão aqui e agora, das resguardadas tanto pelo
passado recente, como das que moram nos fundos dos tempos e que
predisseram e predizem o tempo do que vai acontecer. Não descanso,
não durmo, não fecho os olhos, não me distraio. Vigio tanto que
nem sei se oro. Capto como testemunha ocular ou como ouvinte a
dinâmica de vidas que se confundem com a minha, por algum motivo.
Fui uma das mulheres de Fio Jasmim; em alguma circunstância, pode
ser. Fio Jasmim pode também encarnar a figura de um pai que me
escapou como afeto. Não, o moço não me é estranho, como as
mulheres que estiveram com ele também não. Eis o motivo de minha
preocupação em escutar todas. São muitas, plurais e diversas as
vozes que me provocavam a escrevivência.
Conceição Evaristo, em Canção para ninar menino grande

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