A Bebel era um problema. Aos dezoito
anos tinha participado pela primeira vez de uma reunião da holding
da família. Herdara ações do avô, um dos fundadores da empresa
que depois se transformara num conglomerado, e com elas o direito de
votar em todas as decisões da diretoria. Naquela primeira reunião
ela fora saudada carinhosamente pelo patriarca da família e
presidente do conglomerado, seu tio-avô.
— A partir de hoje, a Bebelzinha vai
participar das nossas reuniões. Você quer dizer alguma coisa,
querida?
E a Bebel dissera o seguinte:
— Toda propriedade é um roubo.
Grande consternação familiar.
Sorrisos incrédulos. Troca de olhares atônitos. O que aquela menina
estava lendo? Com quem andava? O que era aquilo? O patriarca, depois
de se recuperar de um acesso de tosse causado pelo choque, perguntou
se ela tinha alguma sugestão sobre como administrar as empresas do
grupo de acordo com sua premissa. Bebel passou então a expor um
plano que incluía entregar a gestão das empresas aos empregados e
concluiu instando todos ali a se engajarem na luta do proletariado
contra o capital espoliador. Nas reuniões seguintes o patriarca
cuidou para jamais dar a palavra à Bebel mesmo quando ela subia na
mesa, sapateava e exigia ser ouvida. Mas não foram poucas as vezes
em que os votos da Bebel atrapalharam, ou pelo menos retardaram,
decisões importantes do grupo, com a consequente perda de dinheiro.
Se dependesse dela, Bebel solaparia o capitalismo por dentro.
Mas um dia a Bebel anunciou que tinha
se casado e exigiu que o marido, Valfredo, participasse das reuniões
ao seu lado, para orientá-la e expor algumas das suas ideias sobre
estratégia empresarial. O marido tinha “Pilantra” tatuado na
testa, ou só faltava isto. Quando perguntavam qual era sua atividade
principal, respondia “Transações”. Às vezes em inglês:
“Transitions.” Bebel, apaixonada, fazia tudo que ele mandava.
Convertera-se ao capitalismo mais desenfreado, para ganhar mais e
poder oferecer a Valfredo os meios para manter o que ele chamava de
“meu padrão de vida”, ou “my padron of life”. Valfredo
conturbou várias reuniões da holding até que um dia desapareceu
misteriosamente, havendo a certeza generalizada — mas nunca dita —
que o patriarca o convencera a abandonar a mulher e se exilar no
exterior por uma boa quantia. Bebel, inconsolável, perdeu o
interesse pelas atividades do grupo e passou a votar passivamente com
a maioria. Não era mais um problema. Até que...
Até que na última reunião Bebel
anunciou que trazia uma mensagem da sua seita, a Igreja Circular da
Renúncia e Regeneração em Cristo, que começara a frequentar e à
qual já tinha doado tudo que possuía, inclusive sua casa — e suas
ações. O patriarca, depois de se engasgar e tomar um copo d’água,
finalmente conseguiu falar e disse:
— O quê?!
Sim, a Igreja Circular da Renúncia e
Regeneração em Cristo agora era dona de uma parte do conglomerado.
E mais, Bebel prometera ao pastor que convenceria todos os membros da
diretoria a também doarem suas ações à Igreja. Era esta sua
mensagem. Todos deveriam abraçar a renúncia, desprenderem-se de
suas posses materiais e buscarem a regeneração em Cristo, como ela
fizera. A Igreja os purificaria, ficando com tudo que era deles,
começando pelas ações com direito a voto. E Bebel pediu para que
todos se dessem as mãos em volta da mesa de reuniões e repetissem
com ela: “Glória a Jesus! Glória a Jesus!”
O patriarca precisou ser socorrido.
Luís Fernando Veríssimo, em Diálogos Impossíveis
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