quinta-feira, 31 de julho de 2025

Oitavo caderno de Kindzu – Lembranças de Quintino


Despertei já era muito manhã, Carolinda não estava ali. Fui recolhendo coisas minhas espalhadas pelo chão. Então vi que Carolinda deixara cair um colar. Apanhei o enfeite e o guardei para, mais tarde, lhe devolver.
Saí do curral, tonteado pela luz cheia do sol. Voltei ao bar para encontrar Quintino e finalmente lhe pedir que me acompanhasse pelos matos. No pátio do bar havia um revolvido ajuntamento. Um homem rebocava o Quintino, carregando-lhe às forças. O magrinho não resistia: seus passos é que não encontravam as pernas. Tropegava, tropeçava, tromalhava. O caminho é que escolhia o homem. Afinal, toda a direcção do embriagado é sempre conveniente. Eu ia reclamar uma explicação quando um braço me amigou:
Deixa, é melhor não se meter.
Só então reconheci Shetani. Era ele quem carregava Quintino. Desta vez, o homem estava fardado. Em seus braços, Quintino experimentou umas palavras, sílabas de saliva. Eu tinha que recuperar Quintino, aquele bêbado me era precioso.
O camarada desculpe mas eu posso cuidar do meu amigo.
Shetani me olhou, desconfiado. Seu rosto piscou, o nariz fungou. Estaria a rir?
Me ajuda a descarregar este volume, aceitou ele.
Puxei Quintino pelas axilas, nunca vi sovacos tão vazios. Acarretei sozinho todo o corpo do embriagado.
Aguentas com ele?, perguntou Shetani.
Isto nem peso não é.
Foi quando uma pistola se escancarou contra o meu espanto. Aquela visão me revolveu as tripas do peito. O antigo combatente puxava ameaça, em frente dos gerais:
Vens comigo e carregas com o cabrão do grosso. Vá, toca-te.
Fui pela estrada, tchovando Quintino. Eu tinha a mioleira toda numa trapalhada. Estava numa dessas situações em que nem a água é mole nem a pedra é dura. Qual seria, afinal, o meu delito? Nos actuais dias, que motivo necessitam para encaixotarem um vivente? Fomos parar na administração, de pulsos atados. Quintino permanecia nas brumas, sem nexo. Soltava frases por atacado:
Hoje é domingo, amanhã também.
Franziu as pálpebras como se receasse que o pensamento lhe fugisse pelos olhos. Depois, contou as costelas, uma por uma. Cocegava-se, atrapalhava-se no riso e recomeçava.
Vinte e quatro! Tal igual as horas do dia. Já viu, Kindzu: nesse mundo tudo se conta por igual?
Passava o tempo, as cordas me iam entrando na carne. Até que o administrador Estêvão Jonas nos compareceu com sua escolta. Eram vários responsáveis, todos balalaicados. Olharam-nos em silêncio, como se em nós se juntassem as culpas de todos os mundiais crimes. Quem falou foi o Abacar Ruisonho, mansinho:
Meter no frigorífico, chefe?
Nem penses! Esses gajos têm a mania de congelar. Não quero mais confusões. Quem sabe que é esse tipo...
E apontava para mim. Abacar puxou a barriga acima do cinto, preparando-se para discursar. Mas o administrador ergueu o til das sobrancelhas e deu ordem, mastigando os maxilares:
Vão chamar minha esposa!
Falava sem movimentar os lábios, tal era sua fúria. Carolinda deu aparecimento, cabeça baixada. Quando ergueu o rosto, seus olhos me acusavam, certeiros:
Sim, foi este.
Carolinda apontava para mim. Depois, desviou o olhar e não mais voltou a me enfrentar. Pesava no ar a imobilidade do silêncio. Me lembrei então que ainda tinha o colar de Carolinda. Se me revistassem não teria salvação. O medo me fazia descer por mim abaixo. A mulher do administrador saiu pelo corredor, escoltada pelos milicianos. Estêvão Jonas disse:
Minha esposa viu-te rasgando dinheiro e atirando as notas no mar.
Não é verdade.
Abacar exibiu as provas: dinheiro falecido, espedaçado, ainda pingando de molhado. Atiraram com aquela pasta viscosa contra mim. Apressadamente, Quintino recolheu os bocados e tentou reconstituir as notas. Contava com duplos dedos, desfiando os números alfabéticos. Seus olhos, boquiabertos, navegavam em retalhos de riqueza. Estêvão Jonas ordenou a seus subordinados que o deixassem sozinho connosco. Ficou calado até que todos saíssem. Só então ele inquiriu:
Apenas quero saber uma coisa: comeste a Caro-linda?
Neguei, veementindo. O administrador já conhecia a versão de Carolinda. A esposa justificara o seu atraso nocturno. Ela contara que tinha visto um maço de notas na praia. Vergou-se para o apanhar mas não foi capaz de se endireitar. Estava presa no dinheiro, sem poder soltar-se durante horas.
Conheço esse xicuembo, não pode ser de alguém daqui. Foste tu que encomendaste. Mas eu não fico em obscurantismos: isto é acção política, obra do inimigo, abuso dos símbolos da Nação.
Seguiram-se ameaças. Na manhã seguinte, iríamos saber quanto custa desafiar o Poder. Estêvão Jonas saiu, batendo a porta. Quintino, em convalescença, desabou nos prantos. Tinha bebido tanto que as lágrimas cheiravam a álcool. Conforme se ranhava ia ganhando mais sobriedade. Olhei o meu companheiro, senti até pena que lhe passasse a embriaguez. O mesmo álcool que ontem lhe fizera corajoso, hoje lhe atirava nas valetas. Chamei-lhe ao presente, não tinha outro momento para combinar com ele a viagem até ao campo de deslocados onde estava Euzinha. Eu estava preparado para lhe oferecer vantagens. Nos dias de hoje quem ajuda o outro só por desinteresse?
Conduzes-me pelo mato. Em troca, levo-te até ao barco onde está Farida. Tu tiras de lá o que quiseres.
Ele aceitou. Afinal ele também queria fugir. Um fantasma lhe perseguia, confessou. Um fantasma? Sim, o espírito de seu antigo patrão colonial.
Vou-te contar minha estória, estrangeiro.
Kindzu, emendei.
Kindzu, aceitou ele. E começou a narrar. Sua estória deve ser lembrada.
Aconteceu quando Quintino decidiu visitar a velha casa onde trabalhara como empregado doméstico. Ia ver se ainda sobravam os valiosos bens dos patrões. Não usaria a palavra roubar. Talvez nacionalizar. Nacionalizar uns bens a favor do povo original. Entrou na antiga casa, violando portas e janelas. Enquanto entrava lhe vieram culpas de quem está abusar de uma campa falecida. Porque ali mesmo, no chão da cave, tinha sido enterrado Romão Pinto, chefe de família, dono da casa e seu patrão. Falecera nos conturbados tempos da Independência, tempos que calamitaram a vida do português. De que maneira ele morrera? Sobre isso nunca houve acerto. Uns dizem morreu por castigo dos sangues que apanhou da amante, namoro que teve em tempo de menstruação. De facto, o homem se tinha viciado em donas de peles escuras, querendo delas o urgente corpo. Certo era também que ele, dessa preferência, recolhera mais sabores que dissabores. Outros dizem que o português falecera ao ver seus campos de algodão em chamas. Fora ele quem deitara o incêndio na plantação. Se isto não fica para mim também não fica para mais ninguém, clamara em frenesim, tocha a arder na mão erguida. Seu coração, contudo, não aguentara. A visão da plantação em chamas lhe desfeitou o peito, o colono endureceu antes de mesmo tombar no chão. A morte do português se mantinha assunto multiversivo, tema de serões e fogueiras. Seja o que seja, o trás-montanhoso morrera por graça de estranhos poderes. Quem sabe fora vítima não de uma única mas de diversas mortes?
Uma dezena de anos depois, descendo à cave com um fósforo aceso entre os dedos, Quintino ainda sentia o cheiro da plantação incendiada. Sobre uma mesa, um velho xipefo recebeu a chamazinha do fósforo e luzinhou por toda a sala. Quintino ajeitou os olhos: tudo estava tão limpo, tão correcto. Os móveis dormiam em escura sonolência, o caixão ainda ali estava como uma doença incurável no centro da cave. Quintino Massua passou a mão sobre a poeira, num gesto esquecido de empregado de limpeza. De súbito, um barulho lhe gelou o nervo. Olhou, conquanto nem quisesse ver: o defunto, seu antigo patrão, se erguia do leito fúnebre. Romão Pinto, filho e neto de colonos, voltava à velha casa da família depois de mais de uma década de definitiva ausência. Ficou sentado como se lhe custasse regressar. Depois, começou de apalpar os pés.
Os meus sapatos?
Olhou em volta, pisco-piscando. Encolheu as pernas, espalhando pragas. Pelos modos grosseiros se via que, em sua permanência pelos lados da morte, ele não se encontrara com nenhum deus.
Sacana de pretos: gamaram-me os sapatos.
E dali se pôs a berrafustar. Que um já não pode falecer com os devidos respeitos, mal estica já lhe estão a rapinar. Enquanto falava se ia conferindo, certificando-se das vestes, anéis, as resguardadas partes. Quintino se chegou, cauteloso:
Eu nem fui, patrão.
O antigo criado apontava os pés, como comprova. Estavam descalços, cobertos só com tinta branca. Agora maneira é essa, patrão, fazemos como assim, pintamos, disse Quintino. E logo se admirou do termo que usou: patrão!? Nunca pensou que, em tão breve tempo, tivesse que outra vez se subordinar.
Sapatos não há, patrão, isso é coisa que não se encontra. É por isso levam, arrancam dos mortos.
O defunto levantou-se. Esfregou os olhos, bateu com os dedos na madeira do caixão.
Andei anos às marradas a esta merda.
Quintino sorriu, mais cheio de susto que vontade. Ele sabia: os recém-falecidos recusam sair deste mundo se não lhes dedicam as devidas cerimónias. Ele bem que tinha dito à senhora: era bom despedir do patrão, organizar as cerimónias.
E o que ela respondeu, essa cabrita?
Ela negou.
Negou? Mas negou como?
Ela disse o patrão não tinha ido sozinho, o patrão levou companhia que merecia.
O branco sorriu, desdenhoso. Afastou-se, abanando a cabeça em mudas reprovações. Esquecera a ciência de caminhar, demorou a acertar com as pernas. Quintino olhava o regressado quase com ternura. Aquele branco andara por escondidos domínios durante quase muitos anos, vagandeando por nuvens frias, lá onde não se contam nenhuns serviçais. Quem tratara de seus assuntos, no dia-a-dia de sua morte? E mais ainda: por que razão voltara? Quintino suspeitava saber: os recém-mortos têm suas devidas iniciações, devemos deixá-los em sossego. Eles estão em seus primeiros passos na eternidade. Esses defuntos estão ainda a aprender a serem mortos. Romão Pinto agora se equilibrava no fio das tonturas, perdidos os hábitos verticais. O morto cambalinhava, tropeçando, descalço. Nem Quintino nunca vira antes os ambos pés de seu patrão. Eles ali estavam, mal acordados, soletrando o chão. Pés de branco são envergonhados: fora dos sapatos, parecem mulheres aflitas.
Raios te parta, seu filho duma quinhenta, logo havias de ser tu a minha primeira visão. Diz-me: onde está a minha patroa?
A senhora?
Sim, Dona Virgínia, minha mulher. Será que morreu, a grande cabra?
Dona Viriginha? Não, não morreu. Está bastante vivinha.
Eu imaginava, a gaja é de raça.
Romão soltou uma risada que sacudiu o empregado. Quintino estranhou: talvez era inveja das amplas vivências de Virgínia. Durante anos, o seu caixão criara mofo no chão da cave.
Ali fora enterrado, por despacho de serviço. Na realidade, o cemitério estava demais cheio de formigas-cadáver. Comem um morto enquanto o diabo esfrega o olho-zarolho, foi o aviso do padre português. Por isso lhe enterraram no chão da cave, onde nem os ratos nunca haviam farejado. A casa ficara adormecida, a viúva saiu para viver noutro lugar. Assim vazias as casas são sempre muito enormes.
Quero sair, quero dar uma volta por aí!
Não sai, patrão. Este tempo não é como de antigamente, patrão não conhece nem um bocadinho de ninguém.
Não conheço ninguém, como? Afinal, quem é o actual manda-chuva?
É Estêvão Jonas. O patrão não pode conhecer, ele é um de fora.
Pois a primeira coisa que vais fazer mal saíres daqui é chamares aqui o camarada-chefe. Ouviste?
Quintino acena enquanto o colono, subitamente, se ocupa a remexer a camisa, as calças. Procurava uma nódoa, vestígio de sangue seco. Vai reclamando: essa Salima, cabrona, me há-de pagar!
Tu sabes, Quintino? Sabes o motivo verdadeiro do meu falecimento? Foi essa cabra da Salima.
Fez o quê, a Salima?
Eu é que fiz. Comi a gaja com os sangues.
Chai, patrão!
Mas vinguei-me, obriguei a cabra a deitar-se com o corno do marido. Ao menos fomos juntos que lerpámos, ninguém ficou a matabichar a gaja.
Mas o marido dela não morreu.
Não morreu? Como não morreu?
Estou a dizer, o gajo até hoje está vivo.
Caraças, não é possível!
Romão Pinto não queria acreditar. Passou os dedos pelos cabelos, se chegou à janela. Ficou olhando os avessos do mundo, no triste jeito com que a liberdade fita os olhos dos prisioneiros. Lembrou seus derradeiros momentos de vida. Tudo lhe surgia com a nitidez do ontem.
Naquele dia Romão Pinto saiu, sem notícia, pelas sombrias palhotas. Aspirou o intenso perfume das goiabeiras, com modos do nariz trincar a vermelha polpa do fruto. Ficou por baixo da árvore olhando a oficina de Abdul Remane. Não tardaria que o maometano saísse, levando suas latas para soldar, no bairro vizinho.
Romão se impacientou ali, encostado no suave tronco da goiabeira, enervado pela demora do mecânico:
Mulato cornudo, despacha-te!
Abdul acabava de arrumar suas bagagens. Sobrancelhudo, chamou pela mulher:
Salima!
Ei-la: envolta em pano branco, de sabores convidantes. Algumas belezas, em mulher se tratando, nascem depois da meninice. São essas as mais luaminosas. Romão Pinto se cismava: um homem em tão magra solidão não tem direito às redondas morenices? As pretas, Deus me proteja. Mas as mulatas, essas quem as concebeu? Não fomos nós, portugueses? Pois então temos direito a petiscar essas lascivas carnes. E Salima, caraças, que graça desperdiçada nas mãos desse escarumba!
Por fim, o mecânico se despachou das vistas. Romão deixou as sombras, correu para a casa. Entrou sem bater. Nos afazeres dos arrumos, Salima se estremunhou. Ele rodeou-a por trás, limpou-lhe um óleo no braço, desses sujos de garagem. Ela desviou o corpo, furtando-se:
Deixa ficar esse sujo, Romão. Meu marido confere cada mancha. É ele que me põe esses óleos para garantir-se.
Os dois sorriram. Ele garboso, titular. Desabotoou a mulata, acarinhando-lhe os seios, as volumosas ancas.
Está escuro, vamos ligar o gerador.
Ela que nem pensasse, o barulho do gerador não deixa escutar os barulhos de fora, ainda vem aí o cornudo do Abdul. O português costura as mãos no escuro dela e Salima cede num arrepio confuso.
Romão, você me prometeu...
Prometi o quê?
Me levava para...
Ah, levo, levo.
Há quanto tempo duravam os dois, nesse esconde-aonde? Sempre sem grande namoro, o Romão rumando directo no corpo de Salima. Atirava a mulher ao ar, pronunciando as jogáveis palavras: cara ou coroa? Qualquer que fosse o modo dela tombar no colchão ele sempre ganhava a aposta. Afinal, os dois lados da mulher eram, para ele, o mesmo e único.
Agora, mergulhados na penumbra da cozinha eles se comemoravam, enroscados, gatinhosos. Salima se despediu das vestes, açucarando as carnes.
Romão, para sua satisfeição, que devo fazer?
Sempre aquelas muçulmanias, servindo os prazeres do senhor. Nos cumes do acto de amor, ela interrompia: assim, está bem para si? Nessa tarde, Romão se serviu, lambuzeiro, no banco da cozinha, ela sentada sobre suas pernas querendo lhe prestar melhor que sempre. Porém, o português mal teve tempo de terminar-se: um ruído na porta o alarmou. Retirou-se às pressas, calças nos joelhos, tropeçando nos degraus das traseiras. Sossegou quando se viu no atalho, desatando a rir da sua própria figura. Aproveitou as calças estarem já em baixo para urinar, dizem que purifica as vias, depois das consumações. Desnecessitou-se ali, apontando uma árvore, feito um cão. Deleitou-se, de princípio. Sabia bem aquele abrir de um açude no deserto! Mas, depois, correndo já as águas há tempos incontáveis, ele se começou a preocupar. Queria parar, não conseguia. Litros e litros lhe escapavam, num caudal que jamais ninguém ajuntara. Já lhe doía o vazadouro, mirradinhas as bolsas e as funções não haviam maneira de parar.
Meu Deus, estou enfeitiçado!
A cabra me deitou feitiço, não é possível estar-me para aqui a mijar desta maneira. O português se babava, choraminguante. As águas escoavam, parecia ter-se aberto o alçapão das nuvens. Ele implorou, solicitando a Deus. Até que, no auge do desespero, o derrame se estancou. Romão Pinto, exausto, contemplou as esforçadas partes. Foi então que a alma se lhe espetou no visto: as cuecas estavam manchadas de vermelho, quase pingavam.
A puta estava com os sangues, raios a partam!
Voltou para trás, louco das fúrias. Queria castigar a mulata, arrancar-lhe as vísceras ensanguentadas. Logo-logo, porém, seus passos se voltearam e o homem aluiu. Ficou ali, sem noção, quis gritar, chamar alguém. Mas o grito lhe saiu líquido, pastoso. Da boca lhe escorreu a primeira golfada de sangue.
Quando retornou a si era já madrugada. Cambalinhando, fez o caminho de regresso a casa de Salima. A casa ainda não despertara, marido e mulher dormiam. O português gritou por Salima. Ela veio à janela, esgrenhada. Com aflição, lhe pediu silêncio. Depois, saiu em alvoroço, amarrada a um lençol.
Cala-se, Romão, ainda acorda o Abdul!
Ele agarrou nela, sacudiu-a com raiva, fazendo descair o lençol. Sua boca ainda espumava, uma baba cor da rosa espreitou antes das palavras:
Grande puta: estavas menstruada!
Eu não sabia, Romão. Só vi depois.
Ele nem queria escutar. Vinha à mente era a voz da crença, condenando aquele que ama uma mulher em estado de impureza. Também o português punha crédito em tais africanas maldições: nele os sangues haveriam de escorrer, transbordantes.
Agora, vou-te dizer uma coisa: eu, António Romão Pinto, não vou morrer sozinho.
O português desferiu ordens: ela devia convidar o marido para os amores, despertando-o com desejo de ardências. Fosse mulher súbita, imediata, inadiável.
Hei-de fazer depois, Romão…
Depois, não! É agora mesmo. Vai que eu fico a ver pela janela.
Romão, não faça isso, por favor. Nossos meninos são ainda tão pequenitos...
Vai para dentro e põe-me esse gajo a saltar! Ou eu nunca mais te levo daqui...
Salima entrou, lagrimando. No quarto se penteou, passou um perfume, aprontando-se. Pelo espelho ainda viu Romão, empoleirado na janela. Não notou, contudo, que os braços do tuga cediam, frouxos, e ele se poentava, caindo por trás da vidraça.
O falecido se afastou da janela como se tentasse apartar daquelas dolorosas memórias. Tinha um ar de quem já não pede nada, de quem já não quer nenhum recomeço. Quintino sentiu até pena do português. O homem estava desfeito com a notícia de que, afinal, o marido de Salima não morrera. Para consolar o homem, Quintino avançou possíveis explicações. Quem sabe era um falso sangue, esse que a mulher mostrara? Ele conhecia as manhas das mulheres quando não querem servir as urgências dos machos. Fingem, chegam a cortar-se nas virilhas.
Vai ver ela lhe drabou, patrão!
Mas o colono já nem escutava. Debruçado no parapeito parecia aprender artes de renascer. O rosto pálido se madrugava, recuperado das memórias da antepassada vida.
Deixa lá isso, pá. Agora, vamos lá ao que importa. Ora diz-me cá uma coisa. Onde é que está Farida?
Os olhos de Quintino se redondaram, esbugalhões. Farida? Não sabia, a mulher se deslocalizara. O branco insistiu, Quintino retorceu a voz, em sonoro garatujo:
Não posso falar o nome dessa mulher. Dona Virgínia me proibiu.
Isso foi antes de eu morrer. Agora, que mal faz?
Ninguém sabe onde ela pára.
Então, o defunto se despreguiçou, saudoso da morte: Meu Deus, como eu sonhei com essa Farida, nem sabes como aquele corpinho dela me consolou. De repente, porém, mudou os tons, passou a proclamar ofensas, ameaças.
Se não confessas, eu carrego-te comigo para os infernos.
O empregado, aterrorizado, evitou que o patrão lhe tocasse. Olhava para Romão como o milho olha o pilão. Foi recuando, chocando com as cadeiras.
Juro, patrão. Ninguém sabe. Nem do filho dela também ninguém sabe.
O filho dela? O que é isso, essa gaja tem um filho? Romão Pinto, intrigado, rodava em volta do magricelas. Vá, conta lá, pá, quero saber. E, num salto, segurou as goelas do antigo doméstico. Quintino subiu no ar, levantou os braços em sinal de rendição, rogando que Romão o deixasse.
Patrão, vou contar tudo, tintins inclusive. A verdade é assim: única quem sabe é Dona Virginha, sua esposa. Foi ela que acompanhou o caso, eu só ouvia contar.
Olha, Quintino, te peço: vai procurar Dona Virgínia, diz a ela para vir aqui.
Chii, patrão. Custa muito demais para falar com ela.
E porquê? Está surda a velha?
Não posso explicar, patrão. Mas não se apanha conversa com ela.
O colono, então, lhe disse: só posso sair daqui pela mão de um vivo. Me acompanha que te recompensarei.
Não posso, patrão.
Então choveram as ameaças, coisas de estarrecer. Facas e fogos, lumes e chibatas. Desfaço-te que nem daquela vez que desapareceram os talheres. Ou pior, que agora com esta passagem pela morte aprendi maldades que nem lembram ao diabo.
É o fantasma do colono que me persegue até hoje.
No calabouço da administração, Quintino ainda estremecia só de lembrar as sentenças do português. Acabou de contar a estória e transpirava por mais poros que os que tinha na pele. Afinal, nós dois carecíamos de igual urgência de sair dali. Contudo, tínhamos sido presos para chorar e durar. As cordas apertavam, estávamos a braços com os braços. A meu lado, Quintino fazia como o mocho que olha de noite para sonhar de dia. E de olhos abertos deixámos passar o tempo. Até que, de súbito, um ruído nos fez calar. Alguém se aproximava, de pés nos bicos. Era Carolinda. Sem falar, ela se baixou e nos desamarrou. Ficámos assim, ainda presos ao espanto. Seria armadilha? Fomos saindo, eu e Quintino, em vagaroso desconfio. Quintino foi ganhando confiança e me receitou pressas para que vos quero. Mas eu tinha que regressar, voltar ao compartimento onde ficara Carolinda. Ela se mantinha parada de encosto à parede. Lhe abri nas mãos o colar que tinha guardado comigo. Abanou a cabeça, em recusa. Oferecia-me tudo aquilo como recordação? Aceitei, sem mais.
Por que mentiste sobre mim?, lhe perguntei.
Porque não queria que fosses.
Mas eu não vou embora, Carolinda.
Não acredito, isto não é terra de ninguém ficar. Vais partir, tu não pertences aqui.
Mas por que razão me soltas, então?
Para que vás para tão longe que pareças impossível. E agora vai-te e não voltes nunca mais.
Depois, me empurrou com suavidade. Mas eu resisti, me demorando junto dela. Assim, de face em riste, ela me surgia exclusivamente única, triste como pétala depois da flor. Meu peito se encheu. Eu sei que em cada mulher a gente lembra outra, a que nem há. Mas Carolinda me entregava essa doce mentira, o impossível cálculo do amor: dois seres, um e um, somando o infinito. Se aproximou e me acariciou os braços, ali onde as cordas me doeram. A cintura de suas mãos me afagavam, em suave arrependimento. Aquele momento confirmava: o melhor da vida é o que não há-de vir.

Mia Couto, em Terra Sonâmbula

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