sexta-feira, 6 de junho de 2025

Terceiro caderno de Kindzu



Matimati, a terra da água

Quando cheguei à baía de Matimati já eu perdera contas às madrugadas. A vila se deitava no abraço da água, parecia que estava ali mesmo antes de haver mar. O que testemunhei naquela povoação foram coisas sem hábito neste mundo. Gentes imensas se concentravam na praia como se fossem destroços trazidos pelas ondas. A verdade era outra: tinham vindo do interior, das terras onde os matadores tinham proclamado seu reino. Consoante as pobres gentes fugiam também os bandidos vinham em seu rasto como hienas perseguindo agonizantes gazelas. E agora aqueles deslocados se campeavam por ali sem terra para produzirem a mínima comida. Deviam viver há vários dias, presenciadas as trouxas e fogueiras espalhadas em múltiplas desordens. Mal me viram desembarcar, vários homens me cercaram. Queriam saber quem eu era, de onde vinha. Me expliquei, sumário. Então, eles me advertiram:
O melhor é você desaparecer-se daqui.
Nem barrigasse o barco no firme chão. O que eu devia era regressar ao mar: assim me aconselhavam os gerais. Pois ali se sucediam terríveis acontecimentos. O medo e a ameaça vinham de todos os lados. Não havia que confiar em ninguém. As autoridades não perguntariam muita coisa. Haveriam de me prender, espontânea e imediatamente.
Me sentei, buscando explicação para tais ameaças. O que me contaram me deixou na intriga de mais saber. Chamaram o antigo secretário do administrador para me trazer uma autorizada versão do acontecido. O homem compareceu, trazido ao colo de muitos voluntários. Suas pernas estavam desvalidas que nem caniço em ventania. Lhe ajudaram a sentar. Se apresentou, sacudindo as mãos:
Sou Assane.
Era ainda pouca a madrugada e eu quase não vislumbrava as feições corporais do homem. Reconto agora o seu depoimento, deixando intactos os modos oficiais de seu falar: acontecera que, dias antes, se iniciara uma tempestade furiosa e não-planificada, da qual resultara a perda de sentidos da lua e a implementação de total escuridão generalizada.
Nesse exacto dia, se aguardava a passagem do navio que transportava os donativos para a província. Contudo, o malogrado navio se despenhou de encontro a rochas recém-nascidas e toda a tripulação desapareceu por intermédio de ondas gigantes e de duração interminável.
As autoridades imediatamente desencadearam uma ofensiva de averiguações político-ideológicas tendo apurado a presença do inimigo da classe. Conclusão do responsável da Segurança: tais rochas nunca foram vistas antes da mencionada noite. As devidas estruturas do governo desconfiaram que o acidente fosse de origem indígena já que as locais populações haviam, na prévia véspera, manifestado um comportamento muito suspeito. O administrador convocou um comício bastante público e anunciou:
No âmbito deste contexto e guiados pelas orientações traçadas pela Nação, estamos a investigar a acção do inimigo do povo.
De facto, dava direito para desconfios. Mesmo Assane se associava às oficiais suspeitas. Podem umas rochas, em tais quantidades e tamanhos, nascerem-se em menos de um instante? O mais grave, contudo, foram as ocorrências que sucederam ao acidente. Pois, de imediato, centenas de pessoas se lançaram em todo o tipo de embarcações, das pequenas às mais mínimas para assaltarem o navio mal-fragado, a fim de se servirem das ditas xicalamidades. As autoridades ainda tentaram travar os barquitos, mas bem dizia o administrador, são conhecidas as manias das populações que vivem a olhos vistos, pouco percebendo do mundo futuro. O ex-secretário Assane, sempre sacudindo as mãos, recordava o administrador quase chorando durante o discurso:
Às vezes quase desisto de vocês, massas populares. Penso: não vale a pena, é como pedir a um cajueiro para não entortar seus ramos. Mas nós cumprimos destino de tapete: a História há-de limpar os pés nas nossas costas.
Contudo, a tragédia se abatera no regresso de tais barquitos, já eles vinham bastantemente carregadíssimos com vestuários, comidas e utensílios diversos. Não se sabe a certeza do motivo mas, num estrelar de olhos, todos os barquinhos foram para os fundos marinhos, desaparecendo até à corrente data.
Desde então, a situação só piorou pois, consoante o secretário do administrador, a população não se comporta civilmente na presença da fome. Muita gente insistia agora em voltar ao tal navio pois lá sobrava comida que daria para salvar filhos, mães e uma africandade de parentes.
Era esta a razão por que se escutavam tambores consecutivos, rezas obscurantistas em todas as praias, clamando aos antepassados para outros navios se afundarem, suas cargas se espalharem e desaguarem nas mãos dos famintos. Os do governo deram ordens rigorosas. A recolha dos bens do navio devia ser organizada. Explicavam eles que apenas se pretendia que os destroços chegassem ao destino de forma ordenada e obedecendo às hierarquias, passando primeiro pelas estruturas competentes.
Depois vieram as estranhas orientações: foram proibidas as danças e cerimónias anexas. Logo-logo começaram murmurinhos: que eram os responsáveis que impediam a boa sorte de acontecerem mais acidentes de navegação. Os chefes, todos eles, eram acusados. Dizia-se que os dirigentes apenas desejavam aproveitar dos donativos, em primeiro e exclusivo lugar. Vozeavam mais ainda: que os chefes faziam riquezas com aqueles produtos.
Tais boatos precisam ser prontamente rechaçados. Vou pedir, para os devidos efeitos, as sábias e bastante superiores orientações. Se houver caso provado de corrupção, duras medidas serão tomadas.
Foram as promissoras ameaças do administrador no fecho do comício. Depois, para levantar a poeira sem mexer na areia, o administrador se abateu sobre o secretário lhe lançando acusações de desvios e abusos. Assane foi preso, sujado por mil bocas. Na prisão lhe bateram, chambocado nas costas até que as pernas se exilaram daquele sofrimento que lhe era infligido. Perdeu o sentimento da cintura para baixo. Assane passou as palmas das mãos pelas desempregadas coxas. Tinha sido apenas há dias que lhe abriram a porta da prisão. Ainda nem sabia bem se arrastar de mãos pelo chão. Por isso as sacudia, limpando essas mãos que ele sempre aplicara nos documentos.
Esse é o sofrimento que temos aqui, rematou o antigo secretário.
Os outros acenaram em concordância. Eu que desse a vinda por não vinda e saísse dali antes que chegassem os seguintes momentos. Pois que se previa: no fim da manhã, o administrador pessoalmente viria evacuar a praia através da força. Por isso, eu que rodasse a canoa e nunca mais voltasse.
Posso perguntar uma coisa? Existem, em Matimati, esses guerreiros chamados de naparamas?
Assane respondeu que sim, mais no interior. Em Mati-mati apenas se ouvia falar dos seus feitos, suas bravuras. Mas nem ele nem mais ninguém deu mais azo de conversa. Ultimaram os conselhos: eu que me afastasse antes de cheirar que chegara um vindo do mar. Apanhado eu seria, como antes tinha sido Assane: o bode de onde se tirariam as espinhas, o agitador de fora que faltava para compor a versão da administração. Me deram remos, água e mantimentos para prosseguir viagem.
Antes de partir, porém, bebi e dancei em cerimónia dos espíritos. Conforme pude, ajudei os antepassados para que afundassem mais navios. Assim deitava mais um alívio naquela pobre gente. Bebi, porém, bastante de mais. Pois, pela madrugada, já não me tinha no corpo. Tiveram que me carregar pelos braços, meter no concho e dar um empurrão para afastar o barquito. Ainda me recordo de molhar a cabeça para tentar mais visão e remar por um tempo. Até que adormeci cheio de sonhos. O estranho era que meu pai não aparecera em nenhum desses sonhos. Onde andaria ele?
Despertei, no meio da noite, ainda o escuro não se apagara. A canoa se ondeava, adormentada em águas perdidas. Meu peito bumbumbava, acelerado. Qualquer coisa me chamava nem eu sabia se dentro ou fora de mim. Procurei no escuro, lançando os olhos para além do longe. Foi quando vi a fogueira. Lá, no pleno mar, uma fogueirita pirilampejava. No início, duvidei. Como se acendera um fogo em plena água? Depois, confirmei: meus olhos não mentiam. Quase eu escutava as mudas falas do fogo. E eu lhe ouvia o doce crepitar, como essas fogueirinhas que os pastores abrem nas savanas.
Hesitei me dirigir de encontro ao lumezito. Não seria mais uma visão do meu anterior pesadelo? Mas o concho, sozinho, começou de viajar. Sulcava seu caminho, zigueza-gueiro. O susto me invadiu: me afastava velozmente de terra.
Foi quando os céus se arrebentaram e as nuvens, sem amparo, tombaram sobre a terra. Sobre a minha canoa se acenderam os relâmpagos, vieram as chuvas, diluviando toda a paisagem. A água cascateava, a terra parecia era um fruto na húmida boca do céu. Meu concho semelhava um caixãozito, flutuando em fúnebre compasso. De repente, caiu dentro do meu concho um tchóti, um desses anões que descem dos céus. A canoa se revoltinhou com o choque e eu quase me desembarquei. Olhei o anão e descreditei, duvidoso. Meu pai sempre me contava estórias desta gente que desce os infinitos, de vez em onde.
Certa vez, um lhe caiu em pleno mato. O súbito anãozito lhe acertou, quase lhe partiu em partes. Sempre eu desconfiava das invencionices do velho. Porém, agora, em meu próprio barco passageirava um desses descendentes.
Venho buscar as coisas, disse o anão.
Quais coisas?, perguntei.
Não sabes? Descarrilou-se um navio cheiinho de donativos.
Olhos acesos, o baixito repetia a notícia que eu já conhecia: um enormíssimo navio encalhara num banco de areia, bem próximo dali. Porões ao léu, estava só à espera que se fosse lá. Tinha tudo: comida, roupa, facholos, petróleo, petromaxes. Não me prendi ao seu entusiasmo, ele me adivinhou as dúvidas:
Também no céu há as faltas, não penses. É por isso eu desço, venho buscar as roupas aqui...
Apresentei argumentos: aquele mar era perigoso, cheio de invisibilidades. Já uma vez perdera os remos, não queria arriscar a ficar mais uma vez sem eles.
O arisco não arrisca, justifiquei.
E quem precisa de remos? Não vês o barco andando sozinho, por sua vontade?
Aceitei, por força. Da arte da onda, porém, quem sabia era eu. E me chegavam os rugidos do oceano, águas maremoinhando perto. Por ali deviam espreitar grandes e perigosas pedras.
Quando lá chegarmos as pedras desapareceram, já terão voltado para o fundo do mar, disse o tchóti.
Nem sei o que me fazia crer em suas falagens. Dentro de mim, já nem tinha jeito de negar. O tchóti se colocou à frente, todo de pé. Era tão baixo que parecia estar sempre sentado. Espreitava no caminho, como se fosse mandante da noite. O barco lhe obedecia aos mandos, para esquerda, espera, mais vagarinho, com cuidado.
Por fim, o navio surgiu, parecia era uma montanha negra, uma ilha de ferros e torres. As ondas espumavam rendas brancas no casco. O anão gritava, excitado:
Vês, Kindzu? Aqui está a nossa riqueza!
Subimos o convés e passeámos por aqueles corredores desertos. Um barco assim vazio, solitário, é coisa de custar a crer. Ouviam-se vozes, ordens, gritos, gemidos. Vinham das paredes, do chão, dos tectos. Gritei para que o tchóti me explicasse o motivo de tais vozes mas o mar me abafou a pergunta. Fui seguindo o anão, ele caminhava induvidável, parecendo conhecer os segredos do navio. Nos dirigimos para os porões, espreitámos aquela barriga escura, mofenta do bicho. Afinal, era verdade! Lá bem dentro se empilhavam embrulhos e caixotes. Muitos já tinham sido rebentados. Levaram parte da carga, mas restava mais que bastante. Aos berros, o anão se empoleirou na escada que descia para o fundo. Conselhei cuidado, a noite estava bem enfiada naquele porão. Mas cedo ele me desapareceu das vistas e eu fiquei só, com todo céu por cima, todo o mar pelos lados.
Ali estava eu, num destino que não escolhera, levado por ventos e más sortes. Me senti pequeno, sem tecto. Decidi vagueandar pelo convés, enquanto aguardava a subida do anão. Podia escutar seus passos, ecoando nas entranhas do navio.
Passei por quartos, salas, máquinas: aquele barco era maior que um país. O escuro, às toneladas, se constelava, me demorando a procura. Era como se dentro da noite houvesse uma outra noite e eu apalpasse as entranhas da última. Súbito, um ruído de mil fundos trovejou por baixo de mim. Parecia um tropel de búfalos, galopando por dentro do barco. O coração me roçou a boca, atarantável. Chamei pelo anão mas minha voz se aguou.
Quem é isso?
Eu falava de homem para fantasma. De súbito, vi a âncora. Sobre o convés, a âncora dançava, pulava, cabritoteava. Seu ferro se moleava como se não tivesse outra substância senão carnes de peixe. Requebrava a um compasso de invisíveis tambores. Desconfiei: não podia ser a âncora que assim se despropositava. Era o xipoco, a aparição que me surgira na praia de Tandissico. Aquele barco estava espiritado, guardado contra intrusos. Ou era mais uma vez serviço de meu pai, me mostrando que não me oferecia trégua? De repente, a âncora tombou com enorme estrondo. Por momento me pareceu que, em seu lugar, jazia estendido um corpo humano. Pé-pós-pé, me afastei. Fosse coisa ou gente aquilo era assunto da minha incompetência. Me apressei a chamar o anão para sairmos daquele barco enfeitiçado.
Foi então que encontrei a mulher. No princípio, era só um vulto no meio das cordas. Seria mais um fantasma? Depois, seu rosto apareceu mais claro. Estremeci. Me cheguei mais, espreitando na penumbra. A lua me ajudava, enxotando as brumas.
Não tenha medo, lhe disse.
Suas roupas molhadas ofegavam de encontro à pele. A beleza daquela mulher era de fazer fugir o nome das coisas. Olhando o seu corpo se acreditava que nunca nele a velhice haveria de morar. Corpo sedento, olhos sedentários. Sua voz saía sem vestes, nua como se dispensasse palavras.
Me chamo Farida, disse.
Eu sentei junto. Ela ficou um tempo calada, olhando a noite se molhando no mar. Depois, me ordenou:
Vai-te embora deste barco.
Eu não me mexi. Fiquei esperando nem sei o quê. Era como se aquele navio, de repente, se tivesse tornado num lugar muito antigo, a lembrança de uma casa onde me apetecia nascer. A mulher começou então a estremecer, parecia sofrer de todos os frios e arrepios. Os olhos perderam o centro, as mãos procuravam gestos longe do corpo. Tombou no chão, se enrodilhando nas cordas. Parecia que seres invisíveis lhe amarravam e ela resistia com desespero. Me levantei, querendo ajudar. Segurei-lhe o corpo. Mas ela me sacudiu, violenta. Voltei a apanhar seus braços, lhe prendi de encontro a mim. Assim, prisioneira de mim, eu senti como seu corpo fervia.
Ficámos assim um tempo. Até que ela me pediu:
Por favor, me escuta...
Ela só tinha um remédio para se melhorar: era contar sua história. Eu disse que a escutava, demorasse o tempo que demorasse. Ela me pediu que lhe soltasse. Ainda tremia, mas pouco. Então, me contou a sua história.

Mia Couto, em Terra Sonâmbula

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