[...]
A
verdade que com Diadorim eu ia, ambos e todos. Além de que Zé
Bebelo comandava. ― Ao que vamos, vamos, meu filho, Professor:
arrumar esses bodes na barranca do rio, e impor ao Hermógenes o
combate... ― Zé Bebelo preluzia, comedindo pompa com sua grande
cabeça. Assim de loguinho não aprovei, então ele imaginou que eu
estava descrendo. ― Agora coage tua cisma, que eu estou senhor dos
meus projetos. Tudo já pensei e repensei, guardo dentro daqui o
resumo bem traçado! ― e ele pontoava com dedo na testa. Acreditar
eu acreditasse, não duvidei. O que eu podia não saber era se eu
mesmo estava em ocasiões de boa-sorte.
A
ser, porque, numa volta do Ribeirão-do-Galho-da-Vida, a gente tinha
topado com turma de inimigos, retornados para lá por espiação. Aí
foi curto fogo, mas eu levei uma bala, de raspaz, na carne do braço,
perdi muito sangue. Raymundo Lé banhou com casca de angico, na hora
melhorei; Diadorim amarrou bem, com pano duma camisa rasgada.
Apreciei a delicadeza dele. Atual, todos prestaram em mim amizade de
atenção, aquilo vinha a ser até um consolo. Só que, depois de
dois dias, o braço me doía inteiro e inchava, sei que a inchação
me cansasse muito, sempre eu queria esbarrar pra água beber. ― Se
eu tiver de atirar, então como é que faço? Não posso... ― era
outro meu receio. Admirei, porque o José Félix também tinha tido
ferimento, na côxa e na perna, mas a natureza dele era limpa, o
ofendido secava por si, nem parecendo ser. Assim a primeira vez que
me sucedia um a-mal, isso me perturbasse. O que me sofria até nas
margens do peito, e nos dedos da mão, não me concedendo movimentos.
Muito temi por meu corpo. Ah, minha Otacília ― eu gemi em mim ―
Pode que nunca mais você me veja, e então nem viúva minha você
não vai ser... Uns recomendavam arnica-do-campo, outros aconselhavam
emplastro de bálsamo, com isso rente se sarava. Aí Raymundo Lé
garantiu cura com erva-boa. Mas onde era que erva-boa se ia achar?
A
Fazenda dos Tucanos chegamos, lá esbarramos ― é na beira da Lagoa
Raposa, passada a Vereda do Enxú. Visitamos o fazendão vazio, não
tinha almaviva de se ver. E do Rio-do-Chico longe não se estava.
Assim então por que era que não se avançar logo, às duras
marchas, para atacar? ― Sei de mim, sei... ― Zé Bebelo menos
disse, sem explicação. Desconheci. Cacei um catre, cama-de-vento,
num quarto meio escuro; com coisa nenhuma não me importei. ― Retém
as forças, Riobaldo. Vou campear o remédio, nesses matos... ―
Diadorim falou. A gente nos Tucanos ia falhar dois dias, ali ficamos
comendo palmito e secando em sol a carne de dois bois.
No
primeiro dia, de tardinha, apareceu um boiadeiro, que com seus
camaradas viajando.Vinham de Campo-Capão-Redondo, em caminhada para
Morrinhos. Por que tinham riscado aquela grande volta? ― O senhor
dá paz à gente, Chefe? ― o boiadeiro perguntou. ― Dou paz,
damos, amigos... ― Zé Bebelo respondeu. A quieto, o boiadeiro
então achou que devia de as novidades relatar. Que se estava em meio
de perigos. Sim. Os soldados! ― Os que soldados, esses, mano velho?
Soldadesca pronta, do Governo, mais de uns cinquenta. Assim onde era
que estavam? ― Ao que estão em São Francisco e em Vila Risonha, e
mais outros deles vão vindo chegando, Chefe; é o que eu ouvi
dizer... Zé Bebelo, escutando, redondamente. Só quis mais saber. Se
isso, se aquilo. Se o boiadeiro sabia o nome do Promotor de Vila
Risonha, e do Juiz de Direito, do Delegado, do Coletor, do Vigário.
O do Oficial comandante da tropa, o boiadeiro não acertava dizer.
Aquele boiadeiro era homem sério, com palavra merecida e vontade de
estar bem com todos. Tinha uma garrafa de vinho depurativo na
bagagem, me presenteou com um gole, me fez bem. Pousou lá, no outro
dia se foram, muito cedo.
Nesse
entremear, eu senti meu braço melhor, e estive mais disposto. Andei
andando, vi aquela fazenda. Essa era enorme ― o corredor de muitos
grandes passos. Tinha as senzalas, na raia do pátio de dentro, e, na
do de fora, em redor, o engenho, a casa-dos-arreios, muitas moradas
de agregados e os depósitos; esse pátio de fora sendo largo,
lajeado, e com um cruzeiro bem no meio. Mas o capim crescia regular,
enfeite de abandono. Não de todo. Pois tinham desamparado um gato,
ali esquecido, o qual veio para perto do Jacaré cozinheiro, suplicar
comida. Até por dentro do eirado, mansejavam uns bois e vacas, gado
reboleiro. Aí João Vaqueiro viu um berrante bom, pendurado na
parede da sala-grande; pegou nele, chegou na varanda, e tocou! as
reses entendiam, uma ou outra respondendo, e entraram no curral, para
a beira dos cochos, na esperança de sal. ― Não faz mês que o
povo daqui aqui ainda estava... ― João Vaqueiro declarou. E era
verdade, com efeito, pois na despensa muita coisa se encontrando
aproveitável. Nos Tucanos, valia a pena. Os dois dias ficaram três,
que tão depressa passaram.
Madrugada,
no em que se ia partir dalí, eu acordei ainda com o escuro, no
amiudar. Só assim acordei, por um rumor, seria o Simião, que estava
dormindo no mesmo cômodo e tacteando se levantava. Mas me chamou. ―
A gente vai pegar a cavalhada. Vamos? ― ele disse. Não gostei. ―
Estou enfermo. Então vou?! Quem é que rala a minha mandioca? ―
repontei, áspero. Virei para o canto; assim eu estava apreciando
aquele catre de couro. O Simião decerto ia, mais o Fafafa e
Doristino, estavam bons para o orvalho dos pastos. Diadorim, que
dormia num colchão, encostado na outra banda, já tinha se levantado
antes e desaparecido do quarto. Ainda persisti numa madorna. Aquela
moradia hospedava tanto ― assim sem donos ― só para nós. Aquele
mundo de fazenda, sumido nos sussurros, os trastes grandes, o
conforto das arcas de roupa, a cal nas paredes idosas, o bolor. Aí o
que pasmava era a paz. Pensei por que seria tudo alheio demais: um
sujo velho respeitável, e a picumã nos altos. Pensei bobagens. Até
que escutei assoviação e gritos, tropear de cavalaria. Ah, os
cavalos na madrugada, os cavalos!... ― de repente me lembrei,
antiquíssimo, aquilo eu carecia de rever. Afóito, corri, compareci
numa janela ― era o dia clareando, as barras quebradas. O pessoal
chegava com os cavalos. Os cavalos enchiam o curralão, prazentes.
Respirar é que era bom, tomar todos os cheiros. Respirar a alma
daqueles campos e lugares. E deram um tiro.
Deram
um tiro, de rifle, mais longe. O que eu soube. Sempre sei quando um
tiro é tiro ― isto é ― quando outros vão ser. Deram muitos
tiros. Apertei minha correia na cintura. Apertei minha correia na
cintura, o seguinte emendando: que nem sei como foi. Antes de saber o
que foi, me fiz nas minhas armas. O que eu tinha era fome. O que eu
tinha era fome, e já estava embalado, aprontado.
As
tantas o senhor assistisse àquilo: uma confusão sem confusão. Saí
da janela, um homem esbarrou em mim, em carreira, outros bramaram.
Outros? Só Zé Bebelo ― as ordens, de sobre-voz. Aonde, o que?
Todos eram mais ligeiros do que eu? Mas ouvi: ― ...Mataram o
Simião... Simião? Perguntei: ― E o Doristino? ― Aã? Homem, não
sei... ― alguém me respondendo. ― Mataram o Simião e o
Aduvaldo... E eu ralhei: ― Basta! Mas, sobre o instante, virei: ―
Ah, e o Fafafa? O que ouvi: ― Fafafa, não. Fafafa está é
matando!... Assim era, real, verdadeiramente de repente, caído como
chuva: o rasgo de guerra, inimigos terríveis investindo. ― São
eles, Riobaldo, os hermógenes! ― Diadorim aparecido ali, em minha
frente, isto falou. Atiraram um horror, duma vez, tiros e tiros que
estavam contra nós desfechando. Atiravam nas construções da casa.
Diadorim sacripante se riu, encolheu um ombro só. Para ele olhei, o
tanto, o tanto, até ele anoitecer em meus olhos. Eu não era eu.
Respirei os pesos. Agora, agora, estamos perdidos sem socôrro... ―
inventei na mente. E raciocinei a velocidade disto! Ser pego, na
tocaia, é diverso de tudo, e é tolo... Assim enquanto, eu
escutando, na folha da orêlha, as minúcias recontadas! as passadas
dos companheiros, no corredor; o assoviar e o dar das balas ― que
nem um saco de bagos de milho despejado. Feito cuspissem ― o pôr e
pôr! Senti como que em mim as balas que vinham estragar aquela
morada alheia de fazenda. Medo nem tive, não deu para ter ― foi
outra noção, diferente. Me salvei por um espetar de pensamento! que
Diadorim, cenho franzindo, fosse mandar eu ter coragem! Ele nem
disse. Mas eu me inteirei, ligeiro demais, num só destorcer. ― Eh,
pois vamos! E a hora! ― eu declarei, pus a mão no ombro dele.
Respirei depressa demais. Aquele me apatetar ― saiba o senhor ―
não deve de ter durado nem os menos minutos. No átimo, supri a
claridade completa de ideia, o sangue-frio maior, essas comuns
tranquilidades. E, por aí, eu sabia mesmo exato! a gente já estava
debaixo de cerco.
Achei
especial o jeito de João Concliz vir, ansiado cauteloso. Ação em
que qualquer um anda ― nessas semelhantes ocasiões ― só
encostado nas paredes. ― Você fica aqui, mais você, e você...
Você dessa banda... Você ali, você-aí acolá... ― arrumação
ele ordenava. ― Riobaldo, Tatarana! tu toma conta desta janela...
Daqui não sai, nem relaxa, por via nenhuma... Arredado, lá embaixo
avistei Marcelino Pampa indo para as senzalas, com uns cinco ou seis
companheiros. Com outros, Freitas Macho corria para a tulha; e para o
engenho uns junto com Jõe Bexiguento dito Alparcatas. Meus peitos
batendo tresdobro forte, eu dividido naquela alarida. A grave escorei
meu rifle, limpo, arma minha, amásia. Ainda reconheci o Dimas Dóido
e o Acauã, deitados atrás do cruzeiro do pátio. Um daqueles
urucuianos apareceu, mais outro, traziam balaio grande, com algodão
em rama. Mais homens, com sacos de sabugos; foram buscar outros
sacos, carregavam um caixote também. Tudo eles estavam
transportando, por entranqueirar o pátio de fora: tábuas,
tamboretes, cangalhas e arreios, uma mesa de carapina retombada.
Arranjos de guerra ― esses são engenhados sempre com uma graça
variada, diversa dos aspectos de trabalho de paz ― isto vi; o
senhor vê: homens e homens repulam no afã tão unidamente, sujeitos
maneiros, feito o meigo do demo assoprasse neles, ou até mesmo os
espíritos! Suspirei, de bestagem. Ao menos alguém fungou e me
cotucou, era o Preto Mangaba, mandado guarnecer ali, comigo junto.
Preto Mangaba me oferecia dum pão de doce-de-burití, repartia,
amistoso. Eu então me alembrei de que estava com fome. Mas Quim
Queiroz trazia mais munição, ele ajudado por alguns; arrastavam um
couro, o couro esse cheio repleto de munição, arrastavam no
assoalho do corredor. Da janela da outra banda, pus o olhar, espiei o
desdém do mundo, distâncias. Abalavam fogo contra a gente, outra
vez, contra o espaço da casa. Ixe de inimigo que não se avistava.
Somente eu queria saber era se aguentava manejar, como era que estava
sentindo meu braço. Aí ergui mão para coçar minha testa, aí me
cismei: e fiz, com todo o respeito, o pelo-sinal. Sei que o cristão
não se concerta pela má vida levável, mas sim porém sucinto pela
boa morte ― ao que a morte é o sobrevir de Deus, entornadamente.
Atirei.
Atiravam.
Isso
não é isto?
Nonada.
[…]
Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas

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