domingo, 8 de junho de 2025

O sol também se levanta


3

Era uma cálida tarde de primavera e, depois que Robert saiu, fiquei sentado no terrasse do Napolitain, vendo a noite cair, acenderem-se os anúncios luminosos e os sinais de trânsito vermelhos e verdes, a multidão de pedestres, os fiacres com os cavalos trotando ao lado da fila cerrada de táxis e as poules que, sozinhas ou aos pares, vagavam à cata do jantar. Observei uma bonita moça que passava diante da minha mesa. Via-a afastar-se no Boulevard e perdia-a de vista. Passei a observar uma outra e vi a primeira voltando. Passou por mim outra vez, e nossos olhares se cruzaram. Então ela se aproximou e sentou-se à minha mesa. Chegou o garçom.
Que vai tomar? — perguntei.
Um pernod.
Isso não serve para as mocinhas.
Mocinha é o senhor. Dites, garçon, un pernod.
Um para mim também.
Que aconteceu? Vai festejar? — perguntou ela.
Naturalmente, e você?
Não sei. Nunca se sabe, nesta cidade.
Não gosta de Paris?
Não.
E por que não vai embora daqui?
Não tenho para onde ir.
Então deve estar feliz.
Feliz? Ora, bolas!
O pernod é uma imitação esverdeada do absinto. Quando se lhe acrescenta água, torna-se leitoso. Tem gosto de licor e sobe logo à cabeça, mas a depressão que se segue é ainda maior. Bebemos, e a pequena parecia aborrecida.
Então vai me pagar o jantar?
Esboçou um sorriso contrafeito e compreendi por que não gostava de rir. Com a boca fechada era mesmo bonita. Paguei os cartões e saímos. Chegando à calçada, fiz sinal a um fiacre e o cocheiro encostou. No fundo do carro, embalados pelo movimento suave e lento, seguimos a Avenue de l’Opéra, passando pelas portas fechadas das lojas e as vitrinas iluminadas. A avenida, ampla e resplandecente, estava quase deserta. O fiacre passou diante dos escritórios do New York Herald com a vitrina cheia de relógios.
Para que servem todos esses relógios? — perguntou ela.
Indicam a hora nas diversas partes da América.
Deixe de brincadeira.
Saímos da Avenida para entrar na Rue des Pyramides, atravessamos o congestionamento da Rue de Rivoli e penetramos nas Tuileries por uma arcada sombria. A pequena encostou-se em mim e rodeei-a com o braço. Ergueu o rosto, esperando um beijo. Tocou-me com a mão, mas afastei o seu braço.
Não. Nada disso.
Por quê? Está doente?
Sim.
Todo mundo está doente. Eu também estou.
Saímos das Tuileries, à luz, atravessamos o Sena e subimos a Rue de Saint-Pères.
Não devia beber pernod, se está doente.
Você também.
Ora, para mim não tem importância. Para uma mulher, não faz diferença.
Como se chama?
Georgette. E você?
Jacob.
É um nome flamengo.
Americano, também.
Então você não é flamengo?
Não. Americano.
Ótimo! Detesto os flamengos.
Chegamos ao restaurante. Eu disse ao cocheiro que parasse, descemos, e Georgette não gostou do lugar.
Esse restaurante não parece lá grande coisa.
Não? Você gostaria talvez de ir ao Foyot? — disse eu. — É só ficar com o fiacre e prosseguir.
Eu a convidara levado pela vaga ideia sentimental de que seria agradável jantar com alguém. Havia muito que não jantava com uma poule e esquecera a que ponto isso poderia ser monótono. Entramos no restaurante, passamos por madame Lavigne, na caixa, e nos instalamos numa sala pequena. Quando começamos a comer, Georgette pareceu mais satisfeita.
Não é mau — disse. — Não é lá muito chique, mas a comida serve.
Melhor que o que comia em Liège?
Liège, não. Bruxelas.
Tomamos outra garrafa de vinho, e Georgette disse um gracejo. Sorriu, mostrando os seus maus dentes, e brindamos.
Você parece um bom sujeito — disse. — É pena que esteja doente. Nós nos entendemos bem. Mas, afinal, que tem você?
Fui ferido na guerra.
Oh! Essa maldita guerra!
Provavelmente teríamos continuado, discutindo a guerra e concordando em que era uma verdadeira calamidade para a civilização e que poderia ter sido evitada. Eu já estava bastante aborrecido. Mas justamente nesse momento alguém chamou da sala vizinha.
Olá, Barnes, Jacob Barnes!
É um amigo me chamando — expliquei. E saí.
Era Braddocks, a uma grande mesa, com um grupo. Cohn, Frances Clyne, a sra. Braddocks e várias pessoas que eu não conhecia.
Quer vir dançar? — perguntou Braddocks.
Dançar?
Sim. Os dancings. Não sabe que os ressuscitamos? — interveio a sra. Braddocks.
Você precisa vir, Jake. Vamos todos — disse Frances, de uma ponta da mesa.
Era alta, e sorria.
É claro que ele vai — insistiu Braddocks. — Venha tomar café conosco, Barnes.
Está bem.
E traga a sua amiga — disse a sra. Braddocks, sorrindo. Era canadense e possuía o encanto social das mulheres de seu país.
Obrigado. Viremos — disse eu. Voltei à outra sala.
Quem são esses seus amigos? — perguntou Georgette.
Escritores e artistas.
Há uma porção deles deste lado do rio.
Sim. Demais.
Também acho. Mas, apesar de tudo, alguns ganham dinheiro.
Sim, sem dúvida.
Acabamos de jantar e de beber o vinho.
Venha — disse eu. — Vamos tomar café com os outros.
Georgette abriu a bolsa, fez alguns retoques no rosto, corrigiu o batom, mirando-se a um pequeno espelho, e ajeitou o chapéu.
Pronto! — disse ela.
Entramos na sala cheia de gente. Braddocks e os outros homens de sua mesa se levantaram.
Permitam que lhes apresente minha noiva, mademoiselle Georgette Leblanc — disse eu.
Georgette mostrou o seu extraordinário sorriso e apertamos as mãos em torno.
É parenta de Georgette Leblanc, a cantora? — perguntou a sra. Braddocks.
Connais pas — respondeu Georgette.
Mas tem o mesmo nome — insistiu cordialmente a sra. Braddocks.
Não, absolutamente — disse Georgette. — Meu sobrenome é Hobin.
Mas Barnes apresentou-a como Georgette Leblanc. Tenho certeza — insistiu a sra. Braddocks, que, entusiasmada por falar francês, podia muito bem não ter ideia do que dizia.
Ele é um idiota — disse Georgette.
Ah, compreendo. Era uma brincadeira — concluiu a sra. Braddocks.
Sim. Queria fazer graça.
Está ouvindo, Henry? — gritou a sra. Braddocks para seu marido no outro lado extremo da mesa. — Barnes apresentou sua noiva como Georgette Leblanc e, na realidade, ela se chama Hobin.
Naturalmente, querida. Senhorita Hobin. Há muito tempo que a conheço.
Oh! Senhorita Hobin — exclamou Frances Clyne, que falava francês muito depressa, sem parecer orgulhosa nem surpreendida, como a sra. Braddocks, em constatar que era francês verdadeiro. — Está há muito tempo em Paris? Adora Paris, não é?
Quem é ela? — indagou Georgette, voltando-se para mim. — Preciso mesmo conversar com ela?
Então, virou-se para Frances, de novo sorrindo, suas mãos recolhidas, a cabeça aprumada no longo pescoço, seus lábios preparados para tornar a falar.
Não. Não gosto de Paris. É caro e sujo.
Realmente? Pois eu acho a cidade extraordinariamente limpa. Uma das cidades mais limpas da Europa.
E eu acho que é suja.
Curioso! Mas talvez não esteja aqui há muito tempo.
Sim. Há bastante tempo.
Contudo, há aqui muitas pessoas amáveis. Isso não pode negar.
Georgette voltou-se para mim.
São gentis os seus amigos.
Frances estava um pouco embriagada e desejaria continuar a conversa, mas veio o café, e Lavigne trouxe os licores. Em seguida, todos nós saímos e nos dirigimos ao dancing dos Braddocks.
Era um bal musette da Rue de la Montaigne de Sainte Geneviève. Cinco noites por semana, a classe operária do bairro do Panthéon ia dançar ali. Uma noite por semana era um clube dançante. Segunda-feira, o estabelecimento fechava. Quando chegamos, não havia quase ninguém, exceto um policial, sentado perto da porta, a mulher do proprietário atrás do balcão de zinco e o proprietário. A filha do casal descia a escada, quando entramos. Havia longos bancos e mesas, através da sala, e, na extremidade, o tablado de dança.
As pessoas deviam chegar mais cedo — disse Braddocks.
A filha dos proprietários se aproximou e perguntou o que queríamos beber. O proprietário subiu a um alto banco e pôs-se a tocar acordeão. Tinha uma fieira de guizos em torno de um artelho e, enquanto tocava, marcava o compasso com o pé. Todos dançaram. Fazia calor e terminamos molhados de suor.
Meu Deus! — exclamou Georgette. — Isto aqui é uma estufa.
Sim, faz calor.
Se faz!
Tire o chapéu.
É uma boa ideia.
Alguém convidou Georgette para dançar e eu me dirigi ao bar. Fazia calor, realmente, e a música do acordeão era agradável, na noite quente. Tomei uma cerveja de pé, na soleira, à brisa fresca da rua. Dois táxis desciam a rua em declive e pararam em frente ao Bal. Dos veículos desceu um grupo de jovens, uns de suéteres e outros em mangas de camisa. À luz da porta, eu podia distinguir as mãos, as cabeleiras onduladas e recentemente lavadas. O policial de pé à porta olhou para mim e sorriu. Entraram. Observei mãos brancas, cabelos ondulados, rostos claros, cheios de expressões afetadas. Eles gesticulavam muito ao falar. Brett estava com eles. Encantadora. Parecia perfeitamente à vontade naquele grupo.
Um deles avistou Georgette.
Meu Deus! Ali está uma verdadeira poule. Vou dançar com ela, Lett. Fique vendo.
O alto, moreno, chamado Lett, disse:
Vamos, nada de loucuras.
O louro de cabelos ondulados respondeu:
Não se preocupe, meu querido.
E Brett andava com aquele grupo!
Eu estava furioso. Aliás, os homens dessa espécie sempre me deixavam furioso. Sei que se imagina que são muito divertidos e que é preciso ser tolerante, mas eu tinha ímpetos de agarrar um deles, fosse lá qual fosse, pelo menos para abalar aquele ar de superioridade e afetação. Em vez disso, desci a rua e tomei outra cerveja no bar do dancing vizinho. A cerveja não era boa e tomei um conhaque ainda pior para tirar o gosto. Quando voltei ao Bal, havia uma multidão e Georgette dançava com o louro alto que, de olhos erguidos, a cabeça de um lado, saracoteava-se todo. Logo que a música parou, um outro, do mesmo grupo, foi convidar Georgette para dançar. Tinham-se apoderado de Georgette e eu sabia que todos dançariam com ela. São assim mesmo.
Sentei-me a uma mesa. Cohn já se encontrava ali e Frances dançava. A sra. Braddocks trouxe alguém que me apresentou como Robert Prentiss. Era de Nova York, passara por Chicago e fazia sua estreia de romancista. Falava com certo sotaque inglês. Convidei-o a tomar alguma coisa.
Obrigado — disse ele. — Acabei de beber um drinque.
Tome outro.
Aceito. Obrigado.
Chamamos a filha dos proprietários e cada um de nós tomou uma fine à l’eau.
O senhor é de Kansas City, segundo me disseram?
Sim.— Acha Paris divertido?
Sim.
Realmente?
Eu estava um pouco bêbedo. Não de todo, mas o suficiente para perder o controle.
Sim. Que diabo! Por quê, você não acha?
Oh! Que maneira engraçada de se zangar. Eu gostaria de ter esse talento.
Levantei-me e dirigi-me ao tablado. A sra. Braddocks seguiu-me.
Não se zangue com Robert. É ainda muito criança.
Não me zanguei. Apenas, por um momento, achei que fosse vomitar.
Sua noiva está fazendo um grande sucesso.
A sra. Braddocks observava, entre os que dançavam, Georgette nos braços do moreno alto chamado Lett.
Está mesmo, não é?
Certamente — respondeu a sra. Braddocks.
Cohn se aproximou.
Jake, vamos beber alguma coisa. — Fomos ao bar.
Que aconteceu? Você parece perturbado.
Não é nada. Tudo isso me enoja, é só.
Brett se aproximou do bar.
Olá, pessoal!
Olá, Brett — respondi. — Você ainda não está bêbeda? Por quê?
Nunca mais vou me embriagar. Mas não oferece um conhaque comsoda a uma amiga?
Ficou lá de pé, com o copo na mão, e vi que Robert Cohn a olhava. Era assim que o seu compatriota devia ter olhado, quando avistou a Terra Prometida. Cohn, naturalmente, era muito mais jovem, mas tinha o mesmo olhar ávido de expectativa bem merecida.
Brett estava mesmo encantadora, com um blusão de jérsei, uma saia de tweed e os cabelos puxados para trás, à la garçonne. Lançava essas modas. Era toda feita em curvas, como o casco de um iate de corridas, e o jérsei de lã revelava-as plenamente.
Você anda em boa companhia, Brett — disse eu.
Não são encantadores? E você onde a arranjou?
No Napolitain.
E a noite foi agradável?
Ah, nada no mundo poderia pagá-la — disse eu.
Brett riu.
Você fez mal, Jake. Isso é um insulto a todos nós. Veja a Frances ali e a Jo.
Disse isso apenas por cerimônia em relação a Cohn.
O mercado está fraco — ironizou Brett, em seguida, rindo outra vez.
Você está maravilhosamente sóbria.
Estou, não é? É verdade que quando se anda com esses tipos é possível beber com absoluta segurança. A música recomeçou.
Quer dançar esta comigo, Lady Brett? — perguntou Cohn.
Prometi dançar com Jacob — disse ela, rindo sempre. — Você tem um nome infernalmente bíblico.
Então a seguinte? — pediu Cohn.
Não. Vamos sair. Marcamos um encontro em Montmartre — disse Brett.
Dançando, eu olhava por cima do ombro de Brett e via Cohn de pé junto ao bar, com os olhos presos nela.
Você fez outra conquista.
Nem me fale. Coitado. Somente agora me dei conta.
Oh! — exclamei. — Imagino que goste de colecioná-los.
Não diga bobagens.
É verdade. Gosta, sim.
E daí?
Nada — disse eu.
Dançávamos ao som do acordeão e alguém tocava banjo. Passamos bem perto de Georgette, que dançava com alguém.
Que ideia absurda de trazê-la aqui! Por quê?
Não sei. Trouxe-a, foi só.
Está ficando excessivamente romântico.
Não. Apenas entediado.
Neste momento?
Não, neste momento, não.
Vamos embora. Não faltará quem tome conta dela.
Quer mesmo sair?
Acha que eu pediria se não quisesse?
Paramos de dançar. Peguei meu sobretudo, num cabide, à parede, e vesti-o. Brett estava de pé, junto ao bar, falando com Robert. Aproximei-me e pedi um envelope. A proprietária me arranjou um. Tirei do bolso uma nota de cinquenta francos, pus dentro do envelope, fechei-o e entreguei-o à mulher.
Se a pessoa com quem vim perguntar por mim, faça o favor de lhe dar isto. Se ela sair com um desses senhores, guarde-o, que eu procurarei depois.
C’est entendu, monsieur — disse a proprietária. — Já vai tão cedo?
Sim — disse eu.
Robert Cohn ainda falava com Brett, quando nos dirigimos para a porta. Ela lhe deu boa-noite e tomou o meu braço.
Boa-noite, Cohn — despedi-me. Na rua procuramos um táxi.
Você vai perder os seus cinquenta francos — disse Brett.
É verdade.
Não há táxis.
Podemos andar até o Panthéon e arranjar um lá.
Vamos beber alguma coisa no bar vizinho. De lá mandaremos chamar um táxi.
Você nem mesmo vai atravessar a rua.
Não, se puder evitá-lo.
Entramos no bar e pedi ao garçom que fosse procurar um táxi.
Enfim, estamos livres deles — disse eu.
[…]

Ernest Hemingway, em O sol também se levanta

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