33.
Nos
primeiros dias do outono subitamente entrado, quando o escurecer toma
uma evidência de qualquer coisa prematura, e parece que tardámos
muito no que fazemos de dia, gozo, mesmo entre o trabalho quotidiano,
esta antecipação de não trabalhar que a própria sombra traz
consigo, por isso que é noite e a noite é sono, lares, livramento.
Quando as luzes se acendem no escritório amplo que deixa de ser
escuro, e fazemos serão sem que cessássemos de trabalhar de dia,
sinto um conforto absurdo como uma lembrança de outrem, e estou
sossegado com o que escrevo como se estivesse lendo até sentir que
irei dormir.
Somos
todos escravos de circunstâncias externas: um dia de sol abre-nos
campos largos no meio de um café de viela; uma sombra no campo
encolhe-nos para dentro, e abrigamo-nos mal na casa sem portas de nós
mesmos; um chegar da noite, até entre coisas do dia, alarga, como um
leque que se abra lento, a consciência íntima de dever-se repousar.
Mas
com isso o trabalho não se atrasa: anima-se. Já não trabalhamos;
recreamo-nos com o assunto a que estamos condenados. E, de repente,
pela folha vasta e pautada do meu destino numerador, a casa velha das
tias antigas alberga, fechada contra o mundo, o chá das dez horas
sonolentas, e o candeeiro de petróleo da minha infância perdida
brilhando somente sobre a mesa de linho obscurece-me, com a luz, a
visão do Moreira, iluminado a uma eletricidade negra infinitos para
além de mim. Trazem o chá — é a criada mais velha que as tias
que o traz com os restos do sono e o mau humor paciente da ternura da
velha vassalagem — e eu escrevo sem errar uma verba ou uma soma
através de todo o meu passado morto. Reabsorvo-me, perco-me em mim,
esqueço-me a noites longínquas, impolutas de dever e de mundo,
virgens de mistério e de futuro.
E
tão suave é a sensação que me alheia do débito e do crédito
que, se acaso uma pergunta me é feita, respondo suavemente, como se
tivesse o meu ser oco, como se não fosse mais que a máquina de
escrever que trago comigo, portátil de mim mesmo aberto. Não me
choca a interrupção dos meus sonhos: de tão suaves que são,
continuo sonhando-os por detrás de falar, escrever, responder,
conversar até. E através de tudo o chá perdido finda, e o
escritório vai fechar... Ergo do livro, que cerro lentamente, olhos
cansados do choro que não tiveram, e, numa mistura de sensações,
sofro que ao fechar o escritório se me feche o sonho também; que no
gesto da mão com que cerro o livro encubra o passado irreparável;
que vá para a cama da vida sem sono, sem companhia nem sossego, no
fluxo e refluxo da minha consciência misturada, como duas marés na
noite negra, no fim dos destinos da saudade e da desolação.
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego
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