domingo, 29 de junho de 2025

Darl


Ele está inclinado, no meie da gente, sobre o caixão, e duas das oito mãos são suas. Em seu rosto, o sangue perpassa em ondas. E, entre elas, sua carne fica esverdeada, semelhante ao verde pálido, liso e grosso, da erva que uma vaca rumina; rosto sufocado, furioso, dentes à mostra. “levantem!”, diz. “Levantem, condenados do inferno, almas do diabo!” Levanta-o por um lado, tão repentinamente que nós todos saltamos para agarrá-lo e equilibrá-lo antes que ele tombe por completo. Por um instante, o caixão resiste, uma resistência a bem dizer voluntária, como se, dentro dele, o corpo delgado qual vara conservasse freneticamente, a despeito de estar morto, uma espécie de pudor, e procurasse esconder a roupa manchada pelo corpo, coisa que ela não conseguiu evitar. E então, o caixão, erguendo-se de súbito, liberta-se, como se a magreza do corpo houvesse transmitido leveza às tábuas, ou como se, ao ver que a roupa estava quase a ser-lhe arrebatada, ela se precipitasse, de repente, atrás dela, numa inversão apaixonada que brota de seu próprio desejo e necessidade. O rosto de Jewel fica completamente verde e podemos ouvir a respiração silvar nos dentes.
Levamos o caixão pelo corredor, nossos pés rudes e desajeitados no assoalho, mo vendo-se em passos arrastados, passando pela porta.
Aguentem um pouco ai”, diz P;ii, soltando. Volta para cerrar a porta e fechá-la a chave, mas Jewel não pretende esperar.
Vamos”, diz em sua voz sufocante. “Vamos.” Baixamos o caixão, cuidadosamente, pela escada. Avançamos, equilibrando o caixão como se fosse algo de infinitamente precioso, os rostos afastados, respirando através dos dentes para manter as narinas fechadas. Descemos a vereda na direção da encosta.
Melhor esperar um pouco”, diz Cash. “Já disse que assim ele não se equilibra direito. Vamos precisar de outra pessoa naquela colina.” “Então, solte”, diz Jewel. Não quer parar. Cash começa a ficar atrás, esforçando-se por manter o ritmo, respirando penosamente; acaba por se distanciar e Jewel sustenta sozinho toda a parte da frente, de forma que o caixão, inclinando-se à medida que o caminho se inclina, começa a escorregar de minha mão e desliza pelo ar como um trenó sobre neve invisível, abandonando suavemente uma atmosfera na qual sua forma ainda está modelada.
Espere, Jewel”, eu digo, Mas ele não quer esperar. Está agora quase correndo e Cash ficou para trás. Parece-me que a extremidade que eu sustento sozinho não tem peso, como se fosse uma palha na maré furiosa do desespero de Jewel. Eu nem sequer toco o caixão quando, colocando-se de lado, ele o deixa passar à sua frente, balouçante, e depois para o caixão e atira-o na traseira da carroça com o mesmo movimento, e me olha, o rosto cheio de fúria e desespero.
O diabo o leve. O diabo o leve.”

William Faulkner, em Enquanto Agonizo

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