quarta-feira, 21 de maio de 2025

Segundo caderno de Kindzu


Uma cova no tecto do mundo

Desde a noite em que saí da aldeia meus braços cumpriam o serviço de me levar. Viajava sempre junto do litoral, onde a água tropeça em espuma branca. Outras vezes, caminhava por terra firme, puxando o barquito por uma corda. Dava assim repouso a meu concho, cansado de tanta vaga. Na ponta da corda, o barco parecia um burrico, troteondeando no sobidesce da água.
A viagem mal começava e já o espírito de meu velho me perseguia. Quando olhei à minha trás vi que os remos deixavam um rasto no mar, duas linhas de buracos. Essas pegadas na água eram as marcas do chissila, esse mau-olhado que me castigava. Assim, eu desobedecia da jura de nunca deixar sinais de minha viagem. Lembrei o conselho do nganga e tirei a ave morta debaixo do meu assento. Estava preparado para essa batalha com as forças do aquém. Em cada pegada deitei uma pena branca. No imediato, da pluma nascia uma gaivota que, ao levantar voo, fazia desaparecer o buraco. O voo das aves que eu semeava ia apagando meu rasto. Dessas artes, eu vencia o primeiro encostar de ombros com os espíritos.
Mas não imaginava o tanto que me faltava vencer. Porque mais me nortava e mais estranhas sucedências me ocorriam. Nem lembro os quantos momentos que o vento rasgou as velas. Dos pedaços rasgados se formaram peixes que me rodavam sobre a cabeça. Até meus remos foram motivo de feitiço. Sua madeira começou a verdejar, brotaram-lhe folhinhas: os remos se convertiam em árvores. Deixei-lhes na água e, quando os soltei, se afundaram, esquecidos de sua obrigação. Continuei remando com minhas próprias mãos e tanto as usei que, entre os dedos, me nasceram peles sobressalientes. Dentro da água eu sentia as escamas no lugar da pele. Lembrei as palavras do feiticeiro: no mar, serás mar. E era: eu me peixava, cumprindo sentença.
Meu verdadeiro episódio, contudo, começa nas areias de Tandissico onde o mar se abre como uma palavra azul. Ou quem sabe, ali, a cor do azul é a própria água? Aquela manhã estava bem-disposta, aplaudida pelo sol. Empurrei meu barco, prendi as velas, soltei a âncora. Sentei na berma e me servi do cantil. Depois, caminhei nas dunas, passeando os olhos por aqueles imensos. Foi quando, num súbito, vi uma mão sair da terra. Subiu no espaço e, avançando no desajeito de um cego, me agarrou a perna. Tombei, gritando. Consegui me soltar. Depois, levantei e corri pelo areal até me esgotar. Parei, caí sobre os joelhos e despejei em mim todo o cantil.
Melhorei, deixei de tremelejar? Nem hoje ainda sei. Como posso segurar essa lembrança sem estremecer? Pois, daquele areal foram saindo outras mãos, mãos e mais mãos. Pareciam estacas de carne, os dedos remexendo com desespero de passaritos pedindo comida. Confesso: naquele momento, chorei, igual uma criança.
Fiquei nesse prantochão até que o cheiro de passos me chegou. Levantei os olhos: ele ali estava! Nem eu posso trazer o recordo dessa figura. Suas formas não figuravam um desenho de descrever, semelhando um maufeitor vindo dos infernos. Sempre eu só ouvira falar deles, os psipocos, fantasmas que se contentam com nossos sofrimentos. Ali estava um deles, inteiro de sombra e fumo. Segurou a pá e começou a covar. A areia se convertia em água e se soltava com barulho líquido. Não, não deliro: salpingaram-me gotas, eu senti. Num instante e já a cova era obra acabada.
Entra!
Me encolhi acreditando serem meus finais tormentos. Por modos de dizer, eu mijava pelos calcanhares. Mas a morte é um repente que demora. A aparição se abaixou e disse:
Fica saber: o chão deste mundo é o tecto de um mundo mais por baixo. E sucessivamente, até ao centro, onde mora o primeiro dos mortos.
O xipoco rodou a pá sobre a cabeça, se algazarrando em berraria:
Entra na cova!
Como eu não comparecesse ao chamamento, ele me segurou pelos braços e me puxou. Usava as violências? Não. Essa é a estranheira: ele me manejava com delicadeza, vice-versátil, quase me fosse cinturar para uma dança. Então, me senti tombar em seus braços, sucumbente. E o mundo se apagou em toda a volta.
Regressei daquele pesadelo já era noite. Despertei coberto de areia, cabelos e grãos num igual despenteamento. Só eu queria era sair dali, esvanecer-me. Que rumo iria seguir? Pisar a areia já não podia: as mãos do pesadelo ainda me roçavam o medo. Não havia que procurar, esmiudar direcções. Afinal, a luz do cego está na sua mão. Assim, peguei a canoa e, ao acaso, puxei viagem, ondas adentro. Olhei o fundo escuro da noite, lá onde o mar toca os pés de Deus. Deixei os olhos nesse infinito, fosse ali que o céu se senta sobre a terra, o lugar onde dizem que as mulheres se devem joelhar para pilar o milho.
E remei por dias compridos, por noites infinitas. Usava meus braços para empurrar o barco. Se o cansaço é uma velhice súbita eu já me contava pelas últimas idades. Não sei quanto tempo passou. Lembro mais são as noites. Lembro as estrelas, longínquas vizinhas que não dormiam. Lembro a lua se exibindo como medalha no decote da noite. Eu olhava o astro, suas pratas. Maldiçoava minha sina: os cornos da lua sempre apontavam para cima! Meu pai me ensinara a ler as luas.
Aquelas pontas, viradas para o alto, eram o sinal que a desgraça continuava apostada em mim. E me marrecava na canoa, ingénio, acrediteísta. Era justo aquilo? Que mal eu fizera? Ia pondo a vida em recapítulos, havia sim as desvirtudes, bondosas atropelias. Em que vida não figuram? É como não se encontrar pedaço de lenha seca no chão do Inferno. Mas sempre cumpri os comportamentos aconselhados pelos mais velhos. Eu me dedicara a ser filho, aprendedor do meu destino. O barco em que seguia fora abençoado nas devidas cerimónias, eu lhe pusera o nome de meu pai: Taímo. Na primeira viagem, a todos eu premiara com comida e bebida, a gente festejara em cima do barquinho como mandam as tradições. Por que motivo, então, tanta coisa se azarava em meu caminho? No fundo, eu adivinhava a resposta.
Pai, não me castiga dessa maneira, suspliquei.
À volta, nenhuma resposta. Só as ondas se sucediam, em cada onda o mar se despindo sem nunca chegar à nudez. Eu estava preso naquele infinito. Sempre a água me trouxera facilidades, nela eu ficava no à-vontade de gafanhoto em capinzal. Naqueles momentos, porém, me concorriam confusas desordens. Me vinha vontade de regressar, tornar a alimentar o meu falecido velho, me simplificar no nada acontecer da aldeia. Sentia saudade das tardes com Surendra. Lá, em minha aldeia, no sempre igual dos dias, o tempo nem existia. Contudo, o actual desejo de me tornar um naparama me fez continuar. Sacudi aqueles pensamentos que me convidavam a deixar a viagem. As ideias, todos sabemos, não nascem na cabeça das pessoas. Começam num qualquer lado, são fumos soltos, tresvairados, rodando à procura de uma devida mente.
Numa das seguintes noites, escuras de perder o próprio nariz, tive, quem sabe, um sonho. O mar parava, imovente. As ondas se aplanavam, seu rugido emudecia. Havia uma calmia dessas que precederam o nascer do mundo. Então, súbito e inesperado, das fundezas emergiram os afogados. Vinham ao de cimo, borbulhavam em festa. Entre eles estava meu pai, idoso como não o tínhamos deixado. Chamou-me, saudou-me sem nenhum afecto.
Fizeram bem não me enterrar. Esse chão está cheiinho de mortos.
Eu esperava dele um pequeno sentimento paterno, por deslize que fosse. Mas nem agora, regressado, ele se dedica-va. Se limitava a prosapiar sobre o sítio para onde transitara. Não estava satisfeito com os aléns. Também lá não sucedia o sossego: toda a hora os ossos disputavam lugar nos seus antigos corpos. Na confusão, eles se baralhavam todos e se combinavam em desordem, ossos de uns em corpos de outros. No resultado, se pariam desencontrados monstros.
E tu, filho, que andas por esses caminhos selvagens? Não sabes estes trilhos não foram limpos dos xicuembos? Ou queres cair nas boas desgraças?
Quando eu tencionava responder, lhe falar de minha entrega aos guerreiros blindados, já meu pai me dava as costas. Mesmo depois de morto, chegado em mim só em sonho, ele me ignorava. Chamei por ele e, voz erguida, me expliquei: eu estava a ser guiado por minha vontade. E essa vontade fora ele que me ensinara. Ao fim ao cabo, eu estava cumprindo suas silenciosas ordens. Mas meu pai, o velho teimoso Taímo, negou que fossem suas ordens. Ele me comparou aos mortos. Eles andavam com ossos desencontrados; eu andava com alma de um outro.
Podes ter certeza: minhas ordens não são. Lá, só ouço teus passos. O que procuras, afinal?
Vou ajudar a acabar com essa guerra. Me acredita, pai.
Ele sorriu, desprezador. Eu, se me pensava esperto, não descobrira a razão da vida estar a correr às mil porcarias? Tudo aquilo era castigo encomendado por ele, meu legítimo pai. Minhas desavenças, os tropeços que sofria, provinham de eu não ter cumprido a tradição. Agora, sofria castigos dos deuses, nossos antepassados. Lamentava-se da cansativa morte:
Sou um morto desconsolado. Ninguém me presta cerimónias. Ninguém me mata a galinha, me oferece uma farinhinha, nem panos, nem bebidas. Como posso te ajudar, te livrar das tuas sujidades? Deixaste a casa, abandonaste a árvore sagrada. Partiste sem me rezares. Agora, sofres as consequências. Sou eu que ando a ratazanar teu juízo.
Mas, pai, durante todos os dias eu te levava comida...
Nas primeiras noites, sim. Depois, nunca mais eu vi nada de comer. Só a panela vazia, mais nada.
Alguém comia...
Ninguém toca em prato de defunto.
O velho Taímo se explicou: eu não podia alcançar nada do sonhado enquanto a sombra dele me pesasse. A mesma coisa se passava com a nossa terra, em divórcio com os antepassados. Eu e a terra sofríamos de igual castigo. Depois, avançou ameaças: já que eu tanto queria a viagem, num dado entardecer, me haveria de aparecer o mampfana, a ave que mata as viagens. Estará de asas abertas, pousado sobre uma grandíssima árvore, disse ele.
Não pai, não faça isso.
Riu-se do meu medo. Levantou os ombros, tão magros que, ao subirem, arrastavam todo o corpo para cima. De novo se ia retirar quando estancou, emendando-se:
Quando encontrar o mampfana me chame, então. Talvez eu lhe escute, nesse momento. Mas não esqueça de trazer boa sura. Não vou fazer cerimónia sem ela.
Afastei o assunto, temedroso do amanhã. Não queria deixar o sonho acordar sem saber notícias de casa. Perguntei-lhe por minha mãe, em que destino ela se infortunara. Meu pai me sossegou. E me revelou: nos primeiros tempos, enquanto ele aprendia a ser morto, a velha parecia há já muito saber da viuvez. Ele que, em vida, sempre fora um vira-gatas, agora lhe permanecia fiel. Meu pai se tinha mantido seu marido-defunto, com a vantagem da casa posta, comida aprontada. No passar do tempo, porém, a nossa mãe lhe tinha largado com outro: casara com um vivente.
Não é verdade. A mãe não casou-se.
Sim, foi depois que você saiu. Agora estou sozinho, viúvo-solteiro.
Não era a traição que lhe magoava. Custava-lhe estar falecido sem companhia. Perguntei-lhe por que razão não escolhia uma outra mulher. Respondeu que era assunto já tratado. O nhamussoro já anunciara o pedido a uma outra mulher, dessas que moram do lado da vida.
Então tem uma esposa viva?
Tenho, sim. Ela já adoeceu, conforme os mandamentos da tradição. A sua família está-lhe a vigiar. Agora, ela já me pertence, não pode dormir com nenhum homem seja vivo ou seja morto. Você me podia até fazer favor de controlar essa minha nova esposa.
Quem é essa mulher? Ela é da nossa aldeia?
Essa mulher... ela... Podes deixar, eu trato sozinho o assunto.
Mas pai, me deixe ajudar, eu queria tantíssimo lhe ajudar.
Você o que é que sabe? Só sonhar, mais nada.
Me diga o nome dessa sua esposa. Me diga, pai.
Ele então baixou o rosto, parecendo pesar uma vergonha. Se torcia, dentro dele, uma trapalhosa angústia. Por fim, sussurrou:
É mentira, filho. Nenhuma mulher não há.
Pela primeira vez, eu senti pena de meu pai. Queria consolar aquela tristeza dele, levar minha mão a um gesto de carinhar. Súbito, porém, o mar voltou-se a mover, parecia uma imensa capulana a ser ventada. Meu barquinho, desamparado, foi atirado para uma desconhecida praia. Estava para terminar o sono da água. Meu pai se assustou: tenho que voltar!
Pai, fica só mais um bocadinho.
Eu lhe queria guardar no mais do tempo, amolecer em estado de filho. Ele acedeu demorar-se um tantito. Nos sentámos na praia de areia brilhante. Eu desejava que ele me contasse as estórias que nunca tinha desfiado. Mas ele ficou suspenso, fechado como era seu costume. Para entreter o silêncio peguei um pauzito e pus-me a riscar a terra. O chão estava crivejado de casinhas de caranguejo. De vez em quando espreitavam, lançando seus olhos telesféricos. Mas o sonho me dava mais sono. Era dessas profundezas que só a infância concede.
O senhor está bem-disposto, não é, pai?
Sim, estou. Fez-me bem morrer.
Pedi licença para me recostar em seu colo, como sempre eu ansiara no antigamente. Ele nada não respondeu. Me pareceu gasto por muitas idades comparado com a memória que eu tinha dos tempos. Enquanto esperava por deferência dele, minha voz se meninava:
Pai, a terra não envelhece. É porquê?
É porque trabalha deitada. Quando cansa ela já está em sua esteira, quieta no sono dela. Aprendi muito da terra. É o que você devia fazer.
Aquilo era conversa aguada, sem assunto de merecer. Meu desejo era somente morar um pouco naquele sossego, distrair as pressas dele. Deitei mais um cacimbinho sobre a névoa:
Mas, pai, me conte quando dava de beber sura aos cabritos...
Ele soltou o bom riso, recordou a zangaria de minha mãe lhe vendo servir bebida aos animais. Ninguém entendia porquê ele fazia aquilo.
E era porquê?
Era para os bichos não sofrerem da falta de pasto. Os pobres estavam chupadinhos, até os chifres tinham emagrecido. Bêbados, tinham duas vantagens: primeiro, não sofriam; segundo, já iam ficando temperados de véspera.
Agora, já tenho inveja desses cabritos bem bebidinhos.
Rimo-nos os dois, recordando os passos embriagados dos cabritos, parecia as quatro patas eram ainda poucas. Aquele riso me dispôs no céu. Afinal, meu pai aceitava o jogo de me vazar o medo? O velho Taímo, por fim, me fazia as pazes? Engano meu. Pois, de súbito, meu sonho revirou pesadelo. Meu pai rasgou seu riso e suas palavras se amargaram:
Você me inventou em seu sonho de mentira. Merece um castigo: nunca mais você será capaz de sonhar a não ser que eu lhe acenda o sonho.
Depois, Taímo esvanecia. Minhas visões se vazavam e eu despertava, cansado, quem sabe, de não morrer.

Mia Couto, em Terra Sonâmbula

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