quarta-feira, 28 de maio de 2025

Os idos de março

Ao que parece, não foi tão inesperado quanto precavido o destino de César, porque se diz ter sido precedido de maravilhosos sinais e prodígios. No que se refere aos resplendores e fogos do céu, às imagens noturnas que por muitas partes divagavam e às aves solitárias que voavam pela praça, parece que tudo isto não merece ser considerado como indícios de tão grande acontecimento. Estrabão, o filósofo (e geógrafo), refere-se a numerosos homens de fogo que foram vistos correndo pelo céu, e ao escravo de um soldado que lançou muitas chamas de sua mão, de modo que os que o viam pensavam que ele estava pegando fogo — mas quando a chama se extinguiu viu-se que ele não tinha a menor lesão. Tendo César feito um sacrifício, desapareceu o coração da vítima, coisa que se tomou como terrível agouro, isto porque, por natureza, nenhum animal pode existir sem coração. Todavia muitos dizem que um agoureiro lhe anunciou que o aguardava um grande perigo no dia (15) do mês de março, dia que os romanos chamavam de idos (idus). Chegou o dia, e indo César ao Senado, saudou o agoureiro e gracejou: “Já chegaram os idos de março”; ao que contestou este com grande tranquilidade: “Sim, mas ainda não passaram”. No dia anterior, ao jantar com Marco Aurélio, escrevia César umas cartas como era seu costume. Recaindo a conversa sobre qual seria a melhor morte, disse César, antecipando-se a todos: “A não esperada”. Mais tarde, deitado com sua mulher como costumava fazer, repentinamente abriram-se todas as portas e janelas de seu quarto. Perturbado pelo ruído e pela luz — pois que havia um luar muito claro — observou que Calpúrnia dormia profundamente, porém entre sonhos prorrompia em palavras mal pronunciadas e soluços não articulados. Em seu sonho, a mulher de César viu-o destruído no auge de sua glória e majestade— com todas as honrarias decretadas pelo senado, segundo Tito Lívio — e por isso se angustiava e chorava. Quando veio o dia, pediu a César que se houvesse sessão no Senado, que lá não fosse, adiando sua ida para o dia seguinte; e se não acreditava em seus sonhos, que examinasse, por meio de sacrifícios e outros meios de adivinhação, o que seria mais conveniente para ele.

Plutarco, Vidas Paralelas, Caio Júlio César, LXIII (c. 100), em Livro de Sonhos, de Jorge Luís Borges

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