Ouço a velha canção dos Beatles
“Yesterday”. A canção é velha, mas o sofrimento dos
apaixonados desconhece o tempo. É sempre o mesmo. Quem canta é Ray
Charles. Sua voz sai trêmula e rouca da fundura das suas entranhas,
ora mansa, ora um grito.
Yesterday
All my troubles seemed so far away
Now it looks as though they’re
here to stay
Oh, I believe in yesterday
Suddenly
I’m not half the man I used to be
There’s a shadow hanging over me
Oh, yesterday came suddenly
Why she had to go I don’t know
She wouldn’t say
I said something wrong
Now I long for yesterday
Yesterday
Love was such an easy game to play
Now I need a place to hide away
Oh, I believe in yesterday
As palavras dizem o que sinto.
Ponho-me então a brincar com elas, para que saiam de dentro de
minhas próprias entranhas:
Ontem meus problemas pareciam tão
distantes!
Agora, parece que vieram para
ficar...
Aconteceu tão de repente...
Ontem à noite ela partiu sem
explicar.
Por que teve de partir eu não sei;
ela não disse...
Ainda ontem era tão fácil jogar o
jogo do amor.
Agora estou sozinho.
Hoje há uma sombra sobre mim.
De repente não sou metade do homem
que fui.
Procuro uma sombra onde me
esconder.
Ai, que bom seria voltar para
ontem!
Quem sabe eu poderia dizer a
palavra que,
se tivesse dito ontem, ela teria me
amado e ficado.
Mas ontem foi ontem e a palavra não
foi dita.
Passou. Hoje vivo no tempo do
vazio, o tempo da saudade.
***
As palavras dos Beatles me fazem
lembrar das palavras do Chico, na canção “Pedaço de mim”: “Oh,
metade afastada de mim...”. Quem fala é um homem que foi inteiro e
agora está pela metade. Só uma metade ficou. Mas a que ficou não
era a metade mais amada. A outra metade, a arrancada, essa era a
adorada. Quem era essa metade adorada? Era a pessoa amada que partiu,
deixando no seu lugar o vazio triste chamado saudade.
Tantas vezes ele repete essa palavra.
Sabe que não será ouvido, porque ausências não ouvem. As
ausências falam do seu silêncio. Dizem aquilo que se foi. Dói-lhe
nas mãos uma mortalha, onde escreve o seu lamento. Mas seu lamento é
inútil como o uivo de um cão numa noite sem lua.
Ah! Se a pessoa amada ouvisse o seu
lamento, talvez ela voltasse, comovida por sua beleza e pungência...
Repica o sino vagaroso e fúnebre. Seu
repicar põe um ritmo lento no espaço:
Blem! Oh, pedaço de mim...
Blem! Oh, metade de mim...
Blem! Leva para longe de mim...
Blem! Essa saudade que dói em
mim...
As palavras se repetem porque a dor
pulsa e lateja. Saudade: já tive a alegria de possuir o objeto que
amo. Ele era meu. Mas agora se foi para longe de mim. Dentro do meu
abraço está o vazio.
Que a saudade é o pior tormento
É pior do que o esquecimento
[...]
Que a saudade dói como um barco
Que aos poucos descreve um arco
E evita atracar no cais
[...]
Que a saudade é o revés de um
parto
A saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu
Essa é a mais dolorida das metáforas!
Uma mãe arruma o quarto para o filho que chegará amanhã. A outra
arruma o quarto para o filho que não chegará jamais...
Que a saudade dói latejada
É assim como uma fisgada
No membro que já perdi
E termina com um pedido ao seu pedaço
adorado, a pessoa amada que se foi:
Leva os olhos meus
Que a saudade é o pior castigo
E eu não quero levar comigo
A mortalha do amor
Adeus
Dizem aqueles que passaram por essa
experiência que a dor das amputações é curada pelo tempo. Mas
como o tempo é vagaroso em curar...
***
Conta-se de um homem que era
apaixonado por sua mulher. A morte, entretanto, indiferente ao amor,
levou-a. Ele ficou dilacerado pela dor e dirigiu-se aos deuses,
pedindo que trouxessem a sua mulher de volta da casa dos mortos. Os
deuses responderam que não tinham poder sobre a morte, mas tinham
poder sobre o sofrimento dele. Eles poderiam curá-lo do sofrimento.
– Como assim? — o homem perguntou.
– O seu sofrimento se deve ao fato
de que você se lembra dela e sente saudades. Se nós a apagarmos de
sua memória, você deixará de ter saudades e ficará feliz...
– Tudo menos isso! — ele gritou. —
Porque é na dor da minha saudade que ela continua viva…
Rubem Alves, em Cantos do Pássaro Encantado
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