Contente-se
com a morte e não a despreze, dado que ela é um dos desejos da
natureza. A dissolução é uma das operações naturais trazidas
pelas estações da vida, tal como ser jovem e envelhecer, maturar e
atingir a maturidade, ter dentes, barba e cabelos grisalhos e
procriar, engravidar e parir.
Isto
posto, é consistente com o caráter de um homem ponderado aguardar a
morte do mesmo jeito que aguarda uma operação da natureza — sem
descuido, impaciência ou desdém. Assim como agora você espera a
criança sair do ventre de sua esposa, esteja pronto para sua alma
desabitar esse envelope.
Não
obstante, a fim de se capacitar para reconciliar com a morte, talvez
você demande um conforto vulgar que toca o coração. Nesse caso,
pense nas coisas das quais você será privado e na moral daqueles
com quem a sua alma não mais será misturada.
Não
é certo se ofender com os homens. É seu dever cuidar e ser gentil
com eles. Lembre-se de que não deixará os homens com os quais
compartilha convicções. Viver em meio àqueles cujas convicções
partilhamos seria a única possibilidade que poderia nos atrair para
o caminho oposto — se é que existe alguma. Agora, entretanto, você
mede o quão grande são os problemas oriundos da discordância com
aqueles com quem convive, a ponto de dizer: “Venha depressa, ó
morte, para que, porventura, eu também não me esqueça de mim
mesmo.”
Marco Aurélio, em Meditações
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