quarta-feira, 28 de maio de 2025

A dissolução

Contente-se com a morte e não a despreze, dado que ela é um dos desejos da natureza. A dissolução é uma das operações naturais trazidas pelas estações da vida, tal como ser jovem e envelhecer, maturar e atingir a maturidade, ter dentes, barba e cabelos grisalhos e procriar, engravidar e parir.
Isto posto, é consistente com o caráter de um homem ponderado aguardar a morte do mesmo jeito que aguarda uma operação da natureza — sem descuido, impaciência ou desdém. Assim como agora você espera a criança sair do ventre de sua esposa, esteja pronto para sua alma desabitar esse envelope.
Não obstante, a fim de se capacitar para reconciliar com a morte, talvez você demande um conforto vulgar que toca o coração. Nesse caso, pense nas coisas das quais você será privado e na moral daqueles com quem a sua alma não mais será misturada.
Não é certo se ofender com os homens. É seu dever cuidar e ser gentil com eles. Lembre-se de que não deixará os homens com os quais compartilha convicções. Viver em meio àqueles cujas convicções partilhamos seria a única possibilidade que poderia nos atrair para o caminho oposto — se é que existe alguma. Agora, entretanto, você mede o quão grande são os problemas oriundos da discordância com aqueles com quem convive, a ponto de dizer: “Venha depressa, ó morte, para que, porventura, eu também não me esqueça de mim mesmo.”

Marco Aurélio, em Meditações

Nenhum comentário:

Postar um comentário