quarta-feira, 2 de abril de 2025

Altazor

5.

Noite de antiquíssimos terrores noturnos
Aonde a nevada gruta nutrida de milagres?
Aonde a delirante miragem
Dos olhos de arco-íris e da nebulosa?
Abre-se o sepulcro e ao fundo vê-se o mar
A respiração detém-se e a suspensa turbação
Intumesce as têmporas e nas veias se derrama
Abre os olhos maiores que o espaço que neles cabe
E um grito cicatriza no mórbido vazio
Abre-se o sepulcro e ao fundo vê-se um rebanho perdido na montanha
A pastora com sua capa de vento à ilharga da noite
Conta as pegadas de Deus no espaço
E canta-se a si mesma
Abre-se o sepulcro e ao fundo vê-se um desfile de timbales de gelo
Que brilham sob os raios da tempestade
E passam em silêncio à deriva
Solene cortejo de timbales
Com acesos archotes dentro do corpo
Abre-se o sepulcro e ao fundo veem-se o outono e o inverno
Um céu de ametista desce vagarosamente
Abre-se o sepulcro e ao fundo vê-se uma enorme ferida
Que se dilata nas profundezas da terra
Com um rumor de verão e primaveras
Abre-se o sepulcro e ao fundo vê-se uma floresta de fadas que se fecundam
Cada árvore termina num pássaro extasiado
E tudo se detém dentro da fechada elipse de seus cantos
Por esses lados deve encontrar-se o ninho das lágrimas
Que rolam pelo céu e atravessam o zodíaco
De signo em signo
Abre-se o sepulcro e ao fundo vê-se a efervescente nebulosa que se apaga e se acende
Um aerólito passa vertiginosamente
Dançam lanternas no vasto cadafalso
Onde as sangrentas cabeças dos astros
Deixam uma auréola que eternamente cresce
Abre-se o sepulcro e sai um soluço de plantas
Há mastros destroçados e redemoinhos de naufrágios
Tangem os sinos de todas as estrelas
Ruge o furacão perseguido através do infinito
Sobre os rios derramados
Abre-se o sepulcro e salta um ramo de flores carregadas de cilícios
Cresce a impenetrável fogueira e um odor de paixão invade o orbe
O sol procura o último recanto onde ocultar-se
E nasce a mágica floresta
Abre-se o sepulcro e no fundo vê-se o mar
Sobe um canto de milhares de barcos que partem
Enquanto um cardume de peixes
Se petrifica lentamente

Vicente Huidobro, em Altazor 

Nenhum comentário:

Postar um comentário