5.
Noite
de antiquíssimos terrores noturnos
Aonde
a nevada gruta nutrida de milagres?
Aonde
a delirante miragem
Dos
olhos de arco-íris e da nebulosa?
Abre-se
o sepulcro e ao fundo vê-se o mar
A
respiração detém-se e a suspensa turbação
Intumesce
as têmporas e nas veias se derrama
Abre
os olhos maiores que o espaço que neles cabe
E
um grito cicatriza no mórbido vazio
Abre-se
o sepulcro e ao fundo vê-se um rebanho perdido na montanha
A
pastora com sua capa de vento à ilharga da noite
Conta
as pegadas de Deus no espaço
E
canta-se a si mesma
Abre-se
o sepulcro e ao fundo vê-se um desfile de timbales de gelo
Que
brilham sob os raios da tempestade
E
passam em silêncio à deriva
Solene
cortejo de timbales
Com
acesos archotes dentro do corpo
Abre-se
o sepulcro e ao fundo veem-se o outono e o inverno
Um
céu de ametista desce vagarosamente
Abre-se
o sepulcro e ao fundo vê-se uma enorme ferida
Que
se dilata nas profundezas da terra
Com
um rumor de verão e primaveras
Abre-se
o sepulcro e ao fundo vê-se uma floresta de fadas que se fecundam
Cada
árvore termina num pássaro extasiado
E
tudo se detém dentro da fechada elipse de seus cantos
Por
esses lados deve encontrar-se o ninho das lágrimas
Que
rolam pelo céu e atravessam o zodíaco
De
signo em signo
Abre-se
o sepulcro e ao fundo vê-se a efervescente nebulosa que se apaga e
se acende
Um
aerólito passa vertiginosamente
Dançam
lanternas no vasto cadafalso
Onde
as sangrentas cabeças dos astros
Deixam
uma auréola que eternamente cresce
Abre-se
o sepulcro e sai um soluço de plantas
Há
mastros destroçados e redemoinhos de naufrágios
Tangem
os sinos de todas as estrelas
Ruge
o furacão perseguido através do infinito
Sobre
os rios derramados
Abre-se
o sepulcro e salta um ramo de flores carregadas de cilícios
Cresce
a impenetrável fogueira e um odor de paixão invade o orbe
O
sol procura o último recanto onde ocultar-se
E
nasce a mágica floresta
Abre-se
o sepulcro e no fundo vê-se o mar
Sobe
um canto de milhares de barcos que partem
Enquanto
um cardume de peixes
Se
petrifica lentamente
Vicente Huidobro, em Altazor
Nenhum comentário:
Postar um comentário