terça-feira, 25 de fevereiro de 2025

Carmen


Em frente a todas as farmácias da cidade havia dezenas de carros velhos, com crianças brigando no banco de trás. Eu via as mães delas dentro da Payless, da Walgreen’s ou da Lee’s, mas nós não nos cumprimentávamos. Mesmo mulheres que eu conhecia… agíamos como se nunca tivéssemos nos visto. Esperávamos na fila enquanto as outras compravam xarope para tosse de hidrato de terpina com codeína e assinavam num enorme livro de registro para finalizar a compra. Às vezes assinávamos nosso nome verdadeiro, outras vezes nomes inventados. Dava para perceber que, como eu, elas não sabiam o que era pior. Às vezes eu via as mesmas mulheres em quatro ou cinco farmácias diferentes no mesmo dia. Outras esposas ou mães de viciados. Os farmacêuticos compartilhavam da nossa cumplicidade, nunca demonstrando que nos reconheciam de compras anteriores. Salvo uma vez em que um jovem farmacêutico da Fourth Street Drugs me chamou de volta ao balcão. Eu fiquei apavorada. Pensei que ele fosse me denunciar. Ele era muito tímido e ficou vermelho quando se desculpou por estar se intrometendo na minha vida. Disse que sabia que eu estava grávida e que tinha ficado preocupado por eu estar comprando tanto xarope para tosse. Explicou que o xarope tinha um teor alto de álcool e que eu poderia facilmente me tornar alcoólatra sem me dar conta. Eu não disse que o xarope não era para mim. Disse obrigada, mas comecei a chorar assim que dei as costas e saí correndo da farmácia, chorando porque queria que Noodles se livrasse das drogas antes que o bebê nascesse. “Por que é que você está chorando, mamãe? A mamãe está chorando!” Willie e Vincent estavam pulando no banco de trás. “Senta!”, falei, esticando o braço para trás e dando um tapa na cabeça de Willie. “Senta. Eu estou chorando porque estou cansada e vocês dois não ficam quietos.”
A polícia tinha feito uma grande batida na cidade e outra maior ainda em Culiacán, então não havia heroína em Albuquerque. Noodles tinha me dito que ia segurar as pontas só com o xarope para tosse e parar de se drogar, para estar limpo quando o bebê chegasse dali a dois meses. Eu sabia que ele não ia conseguir. Ele nunca tinha ficado tão viciado antes e agora, ainda por cima, tinha arrebentado a coluna trabalhando numa obra de construção. Pelo menos estava recebendo auxílio-doença.
Ele estava de joelhos, falando, tinha engatinhado até o telefone. Eu sei, eu sei, eu fui às reuniões. Eu também estou doente, sou uma facilitadora, uma coviciada. Só o que posso dizer é que sinto amor, pena, carinho por ele. Ele estava tão magro, tão doente. Eu faria qualquer coisa para que ele não sofresse daquele jeito. Ajoelhei e pus os braços em volta dele. Ele desligou o telefone.
Porra, Mona, pegaram o Beto”, ele disse. Depois me beijou e me abraçou, chamou os meninos e os abraçou também. “Ei, meninos, deem uma mão pro seu velho, sejam as minhas muletas pra eu conseguir chegar até o banheiro.” Quando os meninos saíram, eu entrei e fechei a porta. Ele estava tremendo tanto que eu tive que entornar o xarope dentro da boca dele. O cheiro me deu ânsia de vômito. O suor e as fezes dele, o trailer inteiro fediam a laranja podre por causa do xarope.
Preparei o jantar para os meninos e eles ficaram vendo O agente da UNCLE na televisão. Todos os meninos da escola usavam calça Levi’s e camiseta, menos Willie. Ele estava na terceira série e usava calça preta e camisa branca. Penteava o cabelo como o cara louro da série de televisão. Os meninos dormiam numa cama-beliche num quartinho minúsculo. Noodles e eu dormíamos no outro quarto. Eu já tinha um moisés ao pé da nossa cama, fraldas e roupas de bebê em todos os cantos vagos do trailer. Nós éramos donos de um terreno de dois acres em Corrales, perto da vala limpa, num bosque de choupos. No início tínhamos planos de começar a construir nossa casa de adobe, plantar uma horta, mas logo depois que compramos o terreno Noodles se viciou de novo. A maior parte do tempo ele continuou trabalhando em obras, mas nada aconteceu em relação à nossa casa e agora o inverno estava chegando.
Fiz uma xícara de chocolate quente e fui me sentar no degrau, do lado de fora. “Noodles, vem ver!” Mas ele não respondeu. Ouvi o barulho de outra tampa de xarope sendo aberta. O pôr do sol estava espetacular, cheio de cores berrantes. As imensas montanhas Sandia estavam de um tom forte de rosa e os rochedos ao pé delas, vermelhos. Choupos amarelos refulgiam na margem do rio. Uma lua cor de pêssego já começava a raiar. O que havia comigo? Eu estava chorando de novo. Detesto ver coisas lindas sozinha. Então ele veio, beijou meu pescoço e pôs os braços em volta de mim.
Você sabia que elas são chamadas de Sandias porque têm um formato parecido com o de melancias?”
Não”, eu disse, “é por causa da cor delas.” Tínhamos tido essa discussão no nosso primeiro encontro e depois mais centenas de vezes. Ele riu e me beijou, carinhoso. Estava bem agora. Isso é que é horrível nas drogas, pensei. Elas funcionam. Ficamos sentados lá, vendo bacuraus darem rasantes sobre o campo.
Noodles, não tome mais nenhum xarope. Eu vou guardar o resto e dar pra você só quando você estiver passando mal, tá bem?”
Tá bem.” Ele não estava me ouvindo. “O Beto estava indo comprar droga em Juárez, da La Nacha. O Mel está lá. Ele vai experimentar a droga, mas não tem como trazer. Não pode atravessar a fronteira. Eu preciso que você vá. Você é a pessoa perfeita pra isso. É anglo-saxã, está grávida e tem cara de boazinha. Você parece uma boa moça.”
Eu sou uma boa moça, pensei.
Você vai de avião pra El Paso, pega um táxi para atravessar a fronteira e depois pega um avião pra voltar. Tranquilo.”
Eu me lembrei da vez em que fiquei esperando no carro em frente ao prédio onde La Nacha morava, de sentir medo naquele bairro.
Eu sou a pior pessoa pra isso. Não posso deixar as crianças. Não posso ir pra cadeia, Noodles.”
Você não vai pra cadeia. Aí é que tá. A Connie pode ficar com os meninos. Ela sabe que você tem família em El Paso. Você pode dizer que houve algum tipo de emergência. Os meninos vão adorar ficar na casa da Connie.”
E se a polícia me parar, perguntar o que eu estou fazendo lá?”
A gente ainda tem a identidade da Laura. Ela parece com você, talvez não seja tão bonita, mas vocês duas são louras de olhos azuis. Você leva um pedacinho de papel com o nome ‘Lupe Vega’ e o endereço do apartamento ao lado do da Nacha. Diz que está procurando sua empregada, que ela não apareceu, que ela está te devendo dinheiro, alguma coisa assim. É só você se fingir de boba, fazer com que eles te ajudem a procurar por ela.”
Acabei concordando em ir. Ele disse que Mel estaria lá e que era para eu prestar atenção quando ele fosse experimentar a droga. “Você vai saber se é da boa.” Sim, eu conhecia a cara de quem estava tendo um bom barato. “Aconteça o que acontecer, não deixe o Mel sozinho na sala. Mas saia de lá sozinha, não saia junto com ninguém, nem com o Mel. Peça pro motorista do táxi voltar para pegar você uma hora depois. Não deixe que eles chamem um táxi pra você.”
Eu me arrumei, liguei para Connie, disse a ela que o meu tio Gabe tinha morrido em El Paso e perguntei se ela podia ficar com os meninos naquela noite e talvez também no dia seguinte. Noodles me deu um envelope grosso, cheio de dinheiro, fechado com fita adesiva. Arrumei uma mochila para os meninos. Eles ficaram felizes de ir para lá. Os seis filhos de Connie eram como primos. Quando eu os levei até a porta, Connie os fez entrar, depois saiu para a varanda e me abraçou. Seu cabelo preto estava enrolado em bobes de metal, como um penteado de teatro kabuki. Ela estava usando um short jeans e uma camiseta, parecia ter catorze anos.
Você não precisa mentir pra mim, Mona”, ela disse.
Você já fez isso alguma vez?”
Já, várias vezes. Mas não depois que tive filhos. Você não vai fazer isso de novo, aposto. Tome cuidado. Eu vou rezar por você.”

Ainda estava quente em El Paso. Desci do avião e fui andando pela pista alcatroada, que afundava debaixo dos meus pés de tão mole, sentindo aquele cheiro de poeira e sálvia de que me lembrava da minha infância. Pedi ao motorista do táxi que me levasse até a ponte, mas antes desse uma volta ao redor do lago dos jacarés.
Jacarés? Aqueles jacarés velhos já morreram faz anos. Quer dar uma volta na praça assim mesmo?”
Quero”, respondi. Então, me recostei e fiquei vendo os bairros passarem pela janela. Algumas coisas tinham mudado, mas, quando criança, eu tinha andado tanto de patins por aquela cidade inteira que tinha a sensação de conhecer cada velha casa, cada árvore. O bebê estava chutando e se esticando dentro da minha barriga. “Está gostando da minha velha cidade?”
O que foi?”, o motorista do táxi perguntou.
Desculpe, eu estava falando com o meu bebê.”
Ele riu. “E ele respondeu?”
Atravessei a ponte. Ainda estava me sentindo feliz só de sentir os cheiros de lenha queimada, pó de caliche, chili e a baforada de enxofre que vinha da fundição. Minha amiga Hope e eu adorávamos dar respostas engraçadinhas quando os guardas da fronteira perguntavam nossa nacionalidade. Transilvana. Moçambicana.
Americana”, eu disse. Ninguém pareceu reparar em mim. Por precaução, não peguei nenhum dos táxis que estavam parados perto da fronteira e andei mais alguns quarteirões. Comi um dulce de membrillo. Nem quando era criança eu gostava daquele doce, mas gostava do fato de ele vir numa caixinha de madeira e de você usar a tampa como colher. Depois de examinar todas as joias de prata, cinzeiros de concha e Don Quixotes, eu me forcei a entrar num táxi e entreguei ao motorista o pedacinho de papel com o nome de Lupe e o endereço errado. “Cuanto?”
Vinte dólares.”
Dez.”
Bueno.” Então, não consegui mais fingir que não estava com medo. O motorista dirigiu rápido por um bom tempo. Reconheci a rua deserta e o prédio de cimento. Ele parou alguns prédios depois. Num espanhol macarrônico, pedi que ele voltasse dali a uma hora. Por vinte dólares. “Okay. Una hora.”
Foi difícil subir as escadas até o quarto andar. Minha barriga de grávida estava enorme e minhas pernas estavam inchadas e doloridas. Eu parava para tomar fôlego a cada patamar, arfando. Meus joelhos e minhas mãos tremiam. Bati na porta do apartamento 43, Mel abriu e eu cambaleei porta adentro.
Ei, amor, o que é que você tem?”
Água, por favor.” Sentei num sofá de vinil sujo. Mel me trouxe uma coca-cola diet, limpou o gargalo com a camisa, sorriu. Ele estava sujo, mas era bonito, se movimentava como um guepardo. Tinha virado uma lenda àquela altura, por ter fugido de prisões, por ser um foragido. Armado e perigoso. Ele trouxe uma cadeira para que eu apoiasse os pés, massageou meus tornozelos.
Onde está La Nacha?” Ninguém nunca se referia àquela mulher só como Nacha. Ela era “A Nacha”, o que quer que isso significasse. Ela entrou, vestindo um terno preto de homem e uma camisa branca. Sentou numa cadeira atrás de uma mesa. Eu não sabia dizer se ela era um travesti ou uma mulher tentando parecer um homem. Era bem morena, quase negra, com um rosto maia; usava batom e esmalte vermelho-escuro, óculos escuros. Seu cabelo era curto, gomalinado. Ela estendeu a mão curta, aberta, na direção de Mel sem olhar para mim. Entreguei o dinheiro para ele. Vi La Nacha contar o dinheiro.
Foi aí que fiquei apavorada mesmo. Eu pensava que estava comprando drogas para Noodles. Minha única preocupação era que ele não passasse mal. Tinha imaginado que dentro do envelope houvesse um maço grosso de notas de dez e de vinte. Mas havia milhares de dólares na mão de La Nacha. Noodles não tinha me mandado ali só para comprar heroína para ele. Eu estava fazendo uma compra grande e perigosa. Se a polícia me pegasse, eu seria tratada como traficante, não como usuária. Quem iria cuidar dos meninos? Fiquei com ódio de Noodles.
Mel viu que eu estava tremendo. Acho que tive até ânsia de vômito. Ele revirou os bolsos e puxou um comprimido azul. Eu fiz que não. O bebê.
Ah, pelo amor de Deus. É só um Valium. Você vai ferrar com esse bebê mais ainda se não tomar. Toma. Você precisa segurar as pontas! Tá ouvindo?”
Eu fiz que sim. O desdém dele funcionou como uma sacudida. Fiquei calma antes mesmo de o comprimido fazer efeito.
O Noodles falou pra você que eu vou experimentar a droga, não falou? Se for da boa, eu aviso e aí você pega o balão e se manda. Você sabe onde botar?” Eu sabia, mas não faria isso de jeito nenhum. E se o balão furasse e a droga contaminasse o bebê?
Mel era um demônio, conseguia ler meus pensamentos. “Se você não enfiar lá, eu vou enfiar. Não vai furar. O seu bebê está todo embrulhadinho numa bolsa à prova de drogas, totalmente a salvo de todos os males do mundo externo. Depois que ele nascer, meu bem, aí é outra história.”
Mel ficou observando La Nacha pesar o pacote e fez que sim com a cabeça quando ela o entregou a ele. Ela não tinha olhado para mim nem uma única vez. Fiquei vendo Mel injetar. Ele botou algodão e água numa colher, salpicou uma pitada de heroína marrom por cima, aqueceu. Amarrou o garrote, espetou uma veia na mão, fazendo um pouco de sangue subir pela seringa, depois apertou o êmbolo e soltou o garrote, enquanto seu rosto instantaneamente se esticava. Ele estava num túnel de vento. Fantasmas voadores levaram Mel para outro mundo. Senti vontade de mijar, de vomitar. “Onde é o banheiro?” La Nacha apontou para uma porta. Encontrei o banheiro no fim do corredor pelo cheiro. Quando voltei, lembrei que Noodles tinha falado para eu não deixar Mel sozinho. Mel estava sorrindo. Ele me entregou a camisinha, enrolada como uma bola.
Prontinho, amor, faça uma boa viagem. Agora vai, guarda esse troço direitinho, como uma boa menina.” Eu me virei e fingi estar enfiando a camisinha dentro de mim, mas na verdade só botei dentro da minha calcinha apertada. Do lado de fora, no escuro do hall, transferi a bolota para o meu sutiã.
Fui descendo os degraus devagar, como se estivesse bêbada. Estava escuro, imundo.
No segundo patamar, ouvi a porta lá de baixo se abrir, barulhos vindos da rua. Dois adolescentes subiram a escada correndo. “Fíjate no más!” Um deles me imprensou na parede, o outro pegou minha bolsa. Não havia nada lá a não ser algumas notas de dinheiro soltas, maquiagem. O resto estava dentro de um bolso interno do meu casaco. Ele me deu um soco.
Vamo estuprar ela”, o outro disse.
Como? Só se você tiver um pau de mais de um metro.”
Vira ela de costas, bato.
Bem na hora em que ele me deu outro soco, uma porta se abriu e um velho veio descendo a escada correndo, com uma faca na mão. Os garotos deram as costas e saíram correndo de volta lá para fora. “Você está bem?”, o velho me perguntou em inglês.
Eu fiz que sim. Pedi que ele fosse comigo até a rua. “Deve ter um táxi me esperando aqui em frente, espero.”
Você fica aqui. Se o táxi estiver lá, eu peço pro motorista buzinar três vezes.”
A sua mãe ensinou você a se comportar como uma dama, pensei enquanto me perguntava o que mandaria a etiqueta numa situação como aquela. Será que eu devia oferecer dinheiro ao velho? Não ofereci. O sorriso banguela que ele me deu quando abriu a porta do táxi para mim foi um sorriso doce.
Adiós.”

Fiquei enjoada no pequeno avião bimotor para Albuquerque. Eu estava com cheiro de suor e do sofá e da parede manchada de urina. Pedi um sanduíche extra e também mais amendoim e leite.
Comendo por dois agora, hein!”, o texano sentado na minha frente disse, sorrindo.
Fui dirigindo do aeroporto para casa. Pegaria os meninos depois de tomar um banho. Enquanto seguia pela estrada de terra em direção ao nosso trailer, vi Noodles do lado de fora, com sua japona de marinheiro, fumando e andando de um lado para o outro.
Parecia desesperado; nem sequer veio me cumprimentar. Entrou no trailer e eu fui atrás.
Ele se sentou na beira da cama. Os apetrechos dele estavam em cima da mesa, prontos e à espera. “Deixa eu ver.” Eu lhe entreguei a camisinha. Ele abriu o armário acima da cama e botou a droga na pequena balança. Depois se virou e me deu um tapa na cara com toda a força. Ele nunca tinha me batido. Fiquei lá sentada, paralisada, ao lado dele. “Você deixou o Mel sozinho com a droga, não deixou? Não deixou?”
Tem heroína suficiente aí pra me botar na cadeia por muito tempo”, eu disse.
Eu falei pra você não sair de perto dele. O que é que eu vou fazer agora?”
Chama a polícia”, eu disse, e ele me deu outro tapa. Esse eu nem senti. Tive uma contração forte. Braxton-Hicks, pensei comigo. Quem diabo foi Braxton-Hicks? Continuei lá sentada, fedendo a Juárez, e fiquei vendo Noodles entornar o conteúdo da camisinha dentro de uma lata de filme. Em seguida, ele salpicou um pouco da droga no algodão que estava na sua colher. Sentindo um embrulho no estômago, eu tive a certeza de que, se tivesse que escolher entre mim e os meninos ou as drogas, ele iria sempre escolher as drogas.
Um jato de água quente escorreu pelas minhas pernas até o tapete. “Noodles! A bolsa estourou! Eu tenho que ir pro hospital.” Mas já era tarde, ele já tinha injetado. A colher fez um clique ao cair na mesa, o tubo de borracha caiu do braço dele. Ele se recostou no travesseiro. “Pelo menos é da boa”, sussurrou. Tive outra contração. Forte. Arranquei o vestido imundo que estava usando e me lavei com uma esponja, vesti uma túnica branca. Outra contração. Liguei para o serviço de emergência. Noodles tinha apagado. Será que eu devia deixar um bilhete para ele? Talvez ele ligasse para o hospital quando acordasse. Não. Ele não ia pensar em mim nem por um instante.
A primeira coisa que ele ia fazer era injetar o resto da droga que tivesse sobrado no algodão, tirar mais uma provinha. Senti um gosto de cobre na boca. Dei um tapa na cara de Noodles, mas ele não se mexeu.
Abri a lata de heroína, segurando-a com um lenço de papel. Despejei uma boa quantidade na colher. Acrescentei um pouco de água, depois fechei a linda mão de Noodles em torno da lata. Senti outra contração dolorosa. Sangue e muco escorriam pelas minhas pernas. Vesti um suéter, peguei meu cartão do Medi-Cal e fui lá para fora, esperar a ambulância.
Eles me levaram direto para a sala de parto. “O bebê está saindo!”, eu disse. A enfermeira pegou meu cartão, perguntou algumas coisas, telefone, nome do marido, quantos filhos já tinha tido, qual era a data prevista para o nascimento do bebê.
Ela me examinou. “Você já está completamente dilatada. A cabeça está bem aqui.”
As dores estavam vindo uma atrás da outra. A enfermeira correu para chamar um médico. Enquanto ela estava fora da sala, o bebê nasceu, uma menininha. Carmen. Eu me inclinei e a peguei no colo. Deitei-a, quente e úmida, na minha barriga. Estávamos sozinhas na sala silenciosa. Então eles vieram e nos empurraram correndo na maca para debaixo da luz forte. Alguém cortou o cordão e eu ouvi a bebê chorar. Senti uma dor pior ainda quando a placenta saiu e, então, vieram botar uma máscara na minha cara. “O que vocês estão fazendo? Ela já nasceu!”
O médico está vindo. Você precisa de uma episiotomia.” Eles amarraram as minhas mãos.
Cadê a minha bebê? Onde ela está?” A enfermeira saiu da sala. Eu estava presa às laterais da cama. Um médico entrou. “Por favor, me desamarre.” Ele me desamarrou e foi tão gentil que eu fiquei assustada. “O que houve?”
Ela nasceu cedo demais”, ele disse, “pesava muito pouquinho. Ela não resistiu. Eu sinto muito.” Ele deu tapinhas no meu braço, constrangido, como se estivesse dando tapinhas num travesseiro. Estava olhando para a minha ficha. “Esse é o telefone da sua casa? Você quer que eu ligue para o seu marido?”
Não”, respondi. “Não tem ninguém em casa.”

Lucia Berlin, em Manual da faxineira: Contos escolhidos

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