Merda,
merda, agora está tudo uma merda, José pensa, sentindo calor, sem
disposição para tirar os sapatos que esquentam seus pés.
Não
sabe há quanto tempo está arriado na cadeira, mas não pode ficar
sentado sem fazer nada, se lamentando como um choramingas.
Levanta-se, vai até a geladeira, pega uma garrafa de champanhe.
Merda, merda. Procura, em torno, um lugar adequado. Quebra a garrafa
na borda da pia. Os cacos da garrafa se espalham pelo recinto, uma
parte do líquido molha sua roupa.
Volta
a sentar-se no mesmo lugar, na sala. Se tirar os sapatos, evitar ir à
cozinha. Curativos no pé, só faltava isso. Se for andar na rua vai
ficar com raiva dos transeuntes, o cinema está cheio de cretinos,
telefonar pedindo uma pizza vai dar enjoo depois, telefonar pedindo
uma puta vai broxar, telefonar pedindo veneno, muito engraçado, está
inventando para quem? Dormir? Amanhã nunca é outro dia, amanhã vai
ser pior, é melhor nem dormir, de qualquer forma ainda é muito
cedo.
Se
surgisse um rato, ali, perto do seu pé, seria interessante. Nem
ratos há nesta casa, nem baratas, nenhum outro ser vivo. Teve um
cachorro, e um gato, em outra época. Teve também um rato, mas isso
quando era criança. E uma lagartixa, recentemente. Isso não é uma
das suas invencionices. Quando foi que tudo virou uma merda?
Não
quer pensar nisso, não vou pensar nisso. Quando tem insônia, decide
não vou pensar nisso, o que for que cause a insônia, se pensar
nisso não durmo, e não pensa no que for. Então não vou pensar o
porquê de tudo estar uma merda.
O
telefone toca, ele atende.
“Estou
arrependida de ter brigado com você, o champanhe está na
geladeira?”
“Eu,
eu estava achando tudo uma merda, tanto tempo sem você.”
“Mas
nós brigamos hoje de manhã, não se passaram nem cinco horas.”
“Eu
estava achando tudo uma merda e quebrei a garrafa.”
“Você
quebrou uma garrafa daquele champanhe?”
“Quebrei,
estava achando tudo horrível, sem você.”
“Não
é uma das suas invencionices?”
“Não,
nem a lagartixa é uma das minhas invencionices, quebrei mesmo.”
“Você
não tem jeito, estou indo para aí.”
Na
cozinha, José esmigalha com a sola do sapato cacos da garrafa, que
ruído agradável, odeio champanhe, pisar nos cacos da garrafa dá
uma boa sensação. Vou deixar os cacos no chão, vou ficar com a
roupa molhada, para ela ver. Eu amo essa mulher, sem ela fica tudo
uma merda.
Fica
em pé na porta, esperando Sylvia chegar. Os dois se abraçam,
carinhosamente.
“Vai
trocar essa roupa, José.”
Sylvia
vê os estragos na cozinha. Pega uma pá e uma vassoura, cata os
cacos, coloca-os na lata do lixo. Depois passa um pano no chão.
“Vamos
conversar, José. Senta aqui. Agora você vive falando merda a toda
hora, merda isso, merda aquilo. Eu não gosto, acho vulgar.”
“Não
falo mais, nunca mais. Vamos tomar champanhe, tem outra garrafa na
geladeira. Você adora champanhe.”
“Depois.
Agora vamos conversar. Você, hoje de manhã, disse que queria me ver
todos os dias e eu perguntei se não era melhor morarmos juntos e
você respondeu secamente, não.”
“Também
achei vulgar a maneira que você falou depois.”
“Eu
disse: você quer me ver todos os dias apenas para me foder?”
“Não
gostei do que você disse.”
“Querido,
foder é vulgar, mas é uma palavra bonita. Nós falamos sempre.”
“Mas
foi o jeito que você falou, o som da sua voz.”
“E
o que você disse, em seguida? Merda, mais uma vez merda. Aliás você
disse: merda, vamos encerrar o assunto.”
“E
você brigou comigo por causa de uma palavra? Merda?”
“Você
sabe que briguei por causa de outra palavra.”
“Que
palavra foi essa?”
“Foi
aquele não, definitivo, da sua resposta.”
“O
que eu devia ter dito?”
“Vou
pensar. Você devia ter dito, vou pensar. Era normal eu perguntar se
você não achava melhor morarmos juntos, já que quer me ver todos
os dias.”
“Ver
todos os dias é uma coisa. Morar juntos é outra. Você também quer
me ver todos os dias, não quer?”
“Quero,
mas não quero fazer amor todos os dias. Uma mulher não pensa só
nisso.”
“Mas
quer dormir com o namorado todos os dias, dormir mesmo, como as mães
gostam de fazer com os bebezinhos que acabaram de parir.”
“Talvez
seja um sentimento parecido, quando a mulher ama, como eu te amo.”
“E
o próximo passo é ter o bebezinho.”
“Sou
uma mulher normal.”
“Então
na verdade você não quer morar comigo. Quer ter um filho comigo. E
colocar a merda do bebezinho no meu lugar.”
“Deixa
de ser infantil.”
“Não
existe um lugar para bebezinho entre um homem e uma mulher
apaixonados, deixa de bancar a parideira instintiva.”
“Está
vendo? A bobagem que você está falando?”
“E
o seu tom de voz? Imagino depois de morar aqui e ter um filho: vai me
tratar como um cachorro.”
“Deixa
de ser idiota.”
“Infantil,
idiota, o que mais?”
“Neurótico.”
“O
neurótico sou eu? Quem teve um irmão maluco internado numa
clínica?”
“Ele
não era maluco. Era alcoólatra. E ficou bom.”
“Isso
é o que você diz.”
“Acho
melhor eu ir embora.”
“Pode
ir.”
Sylvia
sai, sem se despedir. José permanece sentado na poltrona.
Ela
já deve estar na rua, em frente ao prédio, indo embora, José
pensa.
Repentinamente,
levanta-se da poltrona, abre a janela, grita desesperado, o mais alto
que consegue, pois seu apartamento fica no décimo segundo andar:
“Sylvia,
Sylvia, me perdoe, eu te amo.”
Mas
Sylvia não pode ouvi-lo. José mora num apartamento de fundos, sua
janela abre para um pátio interno, cheio de carros estacionados.
José
vai à geladeira e pega a outra garrafa de champanhe.
Merda,
merda.
Rubem Fonseca, in Pequenas Criaturas
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