terça-feira, 8 de novembro de 2022

Paixão

Merda, merda, agora está tudo uma merda, José pensa, sentindo calor, sem disposição para tirar os sapatos que esquentam seus pés.
Não sabe há quanto tempo está arriado na cadeira, mas não pode ficar sentado sem fazer nada, se lamentando como um choramingas. Levanta-se, vai até a geladeira, pega uma garrafa de champanhe. Merda, merda. Procura, em torno, um lugar adequado. Quebra a garrafa na borda da pia. Os cacos da garrafa se espalham pelo recinto, uma parte do líquido molha sua roupa.
Volta a sentar-se no mesmo lugar, na sala. Se tirar os sapatos, evitar ir à cozinha. Curativos no pé, só faltava isso. Se for andar na rua vai ficar com raiva dos transeuntes, o cinema está cheio de cretinos, telefonar pedindo uma pizza vai dar enjoo depois, telefonar pedindo uma puta vai broxar, telefonar pedindo veneno, muito engraçado, está inventando para quem? Dormir? Amanhã nunca é outro dia, amanhã vai ser pior, é melhor nem dormir, de qualquer forma ainda é muito cedo.
Se surgisse um rato, ali, perto do seu pé, seria interessante. Nem ratos há nesta casa, nem baratas, nenhum outro ser vivo. Teve um cachorro, e um gato, em outra época. Teve também um rato, mas isso quando era criança. E uma lagartixa, recentemente. Isso não é uma das suas invencionices. Quando foi que tudo virou uma merda?
Não quer pensar nisso, não vou pensar nisso. Quando tem insônia, decide não vou pensar nisso, o que for que cause a insônia, se pensar nisso não durmo, e não pensa no que for. Então não vou pensar o porquê de tudo estar uma merda.
O telefone toca, ele atende.
Estou arrependida de ter brigado com você, o champanhe está na geladeira?”
Eu, eu estava achando tudo uma merda, tanto tempo sem você.”
Mas nós brigamos hoje de manhã, não se passaram nem cinco horas.”
Eu estava achando tudo uma merda e quebrei a garrafa.”
Você quebrou uma garrafa daquele champanhe?”
Quebrei, estava achando tudo horrível, sem você.”
Não é uma das suas invencionices?”
Não, nem a lagartixa é uma das minhas invencionices, quebrei mesmo.”
Você não tem jeito, estou indo para aí.”
Na cozinha, José esmigalha com a sola do sapato cacos da garrafa, que ruído agradável, odeio champanhe, pisar nos cacos da garrafa dá uma boa sensação. Vou deixar os cacos no chão, vou ficar com a roupa molhada, para ela ver. Eu amo essa mulher, sem ela fica tudo uma merda.
Fica em pé na porta, esperando Sylvia chegar. Os dois se abraçam, carinhosamente.
Vai trocar essa roupa, José.”
Sylvia vê os estragos na cozinha. Pega uma pá e uma vassoura, cata os cacos, coloca-os na lata do lixo. Depois passa um pano no chão.
Vamos conversar, José. Senta aqui. Agora você vive falando merda a toda hora, merda isso, merda aquilo. Eu não gosto, acho vulgar.”
Não falo mais, nunca mais. Vamos tomar champanhe, tem outra garrafa na geladeira. Você adora champanhe.”
Depois. Agora vamos conversar. Você, hoje de manhã, disse que queria me ver todos os dias e eu perguntei se não era melhor morarmos juntos e você respondeu secamente, não.”
Também achei vulgar a maneira que você falou depois.”
Eu disse: você quer me ver todos os dias apenas para me foder?”
Não gostei do que você disse.”
Querido, foder é vulgar, mas é uma palavra bonita. Nós falamos sempre.”
Mas foi o jeito que você falou, o som da sua voz.”
E o que você disse, em seguida? Merda, mais uma vez merda. Aliás você disse: merda, vamos encerrar o assunto.”
E você brigou comigo por causa de uma palavra? Merda?”
Você sabe que briguei por causa de outra palavra.”
Que palavra foi essa?”
Foi aquele não, definitivo, da sua resposta.”
O que eu devia ter dito?”
Vou pensar. Você devia ter dito, vou pensar. Era normal eu perguntar se você não achava melhor morarmos juntos, já que quer me ver todos os dias.”
Ver todos os dias é uma coisa. Morar juntos é outra. Você também quer me ver todos os dias, não quer?”
Quero, mas não quero fazer amor todos os dias. Uma mulher não pensa só nisso.”
Mas quer dormir com o namorado todos os dias, dormir mesmo, como as mães gostam de fazer com os bebezinhos que acabaram de parir.”
Talvez seja um sentimento parecido, quando a mulher ama, como eu te amo.”
E o próximo passo é ter o bebezinho.”
Sou uma mulher normal.”
Então na verdade você não quer morar comigo. Quer ter um filho comigo. E colocar a merda do bebezinho no meu lugar.”
Deixa de ser infantil.”
Não existe um lugar para bebezinho entre um homem e uma mulher apaixonados, deixa de bancar a parideira instintiva.”
Está vendo? A bobagem que você está falando?”
E o seu tom de voz? Imagino depois de morar aqui e ter um filho: vai me tratar como um cachorro.”
Deixa de ser idiota.”
Infantil, idiota, o que mais?”
Neurótico.”
O neurótico sou eu? Quem teve um irmão maluco internado numa clínica?”
Ele não era maluco. Era alcoólatra. E ficou bom.”
Isso é o que você diz.”
Acho melhor eu ir embora.”
Pode ir.”
Sylvia sai, sem se despedir. José permanece sentado na poltrona.
Ela já deve estar na rua, em frente ao prédio, indo embora, José pensa.
Repentinamente, levanta-se da poltrona, abre a janela, grita desesperado, o mais alto que consegue, pois seu apartamento fica no décimo segundo andar:
Sylvia, Sylvia, me perdoe, eu te amo.”
Mas Sylvia não pode ouvi-lo. José mora num apartamento de fundos, sua janela abre para um pátio interno, cheio de carros estacionados.
José vai à geladeira e pega a outra garrafa de champanhe.
Merda, merda.

Rubem Fonseca, in Pequenas Criaturas

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