sábado, 19 de novembro de 2022

O poeta

Disse o homem:
Teus cabelos são como trigais ao vento, tanta beleza eu não aguento. A mulher sorriu. Era a primeira vez que iam para a cama. Ela não sabia que ele fazia versos.
Ainda mais numa situação daquelas. Ele continuou:
Tua fronte, amada, tem o frescor da madrugada. Teus olhos límpidos e sensuais são como tépidos mananciais. Esses lábios lindos de que és dona, como pétalas de anemona...
Ela hesitou, depois disse:
Acho que é anêmona.
Como é?
Não é anemona, é anêmona.
Tem certeza?
Não tem importância. Continua.
Espera. O que é que rima com anêmona?
Deixa pra lá.
Mas ele tinha sentado na cama e agora, em vez de acariciá-la, espremia a própria cabeça.
Anêmona, anêmona...
Sêmola.
Hein?
Sêmola rima com anêmona.
Pois é... — hesitou ele.
Era um desafio. Ele levantou-se da cama e deu algumas voltas, nu, pelo quarto.
Sêmola, sêmola...
De repente estalou os dedos. Tinha encontrado. Voltou rapidamente para a cama e retomou a mulher nos braços.
Onde nós estávamos?
Na boca.
Tua boca tem gosto de sêmola, teus lábios são pétalas de anêmona.
Você é um poeta mesmo.
Todo o teu rosto tão raro do nosso amor é o labaro.
Não é...
Ele parou e afastou-se.
Não é o quê?
Nada, não. Continua, continua — disse ela, puxando-o de volta.

Luís Fernando Veríssimo, in Sexo na cabeça

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