Disse
o homem:
— Teus
cabelos são como trigais ao vento, tanta beleza eu não aguento. A
mulher sorriu. Era a primeira vez que iam para a cama. Ela não sabia
que ele fazia versos.
Ainda
mais numa situação daquelas. Ele continuou:
— Tua
fronte, amada, tem o frescor da madrugada. Teus olhos límpidos e
sensuais são como tépidos mananciais. Esses lábios lindos de que
és dona, como pétalas de anemona...
Ela
hesitou, depois disse:
— Acho
que é anêmona.
— Como
é?
— Não
é anemona, é anêmona.
— Tem
certeza?
— Não
tem importância. Continua.
— Espera.
O que é que rima com anêmona?
— Deixa
pra lá.
Mas
ele tinha sentado na cama e agora, em vez de acariciá-la, espremia a
própria cabeça.
— Anêmona,
anêmona...
— Sêmola.
— Hein?
— Sêmola
rima com anêmona.
— Pois
é... — hesitou ele.
Era
um desafio. Ele levantou-se da cama e deu algumas voltas, nu, pelo
quarto.
— Sêmola,
sêmola...
De
repente estalou os dedos. Tinha encontrado. Voltou rapidamente para a
cama e retomou a mulher nos braços.
— Onde
nós estávamos?
— Na
boca.
— Tua
boca tem gosto de sêmola, teus lábios são pétalas de anêmona.
— Você
é um poeta mesmo.
— Todo
o teu rosto tão raro do nosso amor é o labaro.
— Não
é...
Ele
parou e afastou-se.
— Não
é o quê?
— Nada,
não. Continua, continua — disse ela, puxando-o de volta.
Luís Fernando Veríssimo, in Sexo na cabeça
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