Será este um epitáfio para um amigo morto e irônico? Atrás dos óculos, a bondade. Atrás do peito, o coração já doente. Este foi o seu egoísmo sarcástico: sua morte era problema dos vivos. Onde está ele, se na sobrevivência não acreditava? Como se acreditar fosse uma direção. A falta que ele faz é de uma presença quase incômoda. E com que ironia este paradoxo ele leria. “Com rima ainda?”, diria. Sim, rima também serve para não se chorar. Onde está o que nele pensava? doendo em outras cabeças. Pena ser tolo dizer: meu braço direito pela vossa vida. Desta vez sem rima para poder enfim chorar. Ele, que não deixou chorar.
Clarice Lispector, in Todas as crônicas
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