sábado, 19 de novembro de 2022

O Lobo do Mar | Capítulo 20


O resto do dia transcorreu sem incidentes. O princípio de temporal molhou nossas ventas e depois amenizou. O maquinista e os três graxeiros, depois de uma entrevista amena com Wolf Larsen, foram vestidos com os uniformes disponíveis no bazar do barco, destacados para funções chefiadas pelos caçadores nos diversos botes ou períodos de vigia da embarcação, e despachados para o castelo de proa. Foram para lá protestando, mas em voz baixa. Já estavam impressionados o bastante com o que tinham visto do caráter de Wolf Larsen, e a triste história que logo ouviram no castelo de proa abafou suas últimas centelhas de rebeldia.
A srta. Brewster (o maquinista nos disse seu nome) dormia sem parar. Durante o jantar, pedi aos caçadores que baixassem o tom de voz para não molestá-la, e ela só foi aparecer na manhã seguinte. Eu tinha a intenção de servir as refeições dela à parte, mas Wolf Larsen bateu o pé. Quem era ela para não ser considerada digna da mesa e do convívio na cabine?
Sua chegada à mesa, contudo, teve um aspecto divertido. Os caçadores ficaram quietinhos como mariscos. Apenas Jock Horner e Smoke não se deixaram abalar e ficaram lançando olhares ocasionais, chegando a participar da conversa. Os outros quatro grudaram os olhos no prato e ficaram mastigando com regularidade e compenetração, com as orelhas se mexendo e abanando no mesmo ritmo da mandíbula, como acontece com tantos animais.
No início, Wolf Larsen pouco tinha a dizer e se limitava a responder quando era interpelado. Não que estivesse abalado. Longe disso. Aquele era um tipo de mulher novo para ele, uma espécie diferente de todas que já tinha visto, e ele ficou curioso. Dedicou-se a estudá-la e seus olhos só desviavam do rosto dela para acompanhar o movimento de suas mãos e ombros. Eu próprio também a estudava e, embora coubesse a mim manter a conversa andando, tinha a consciência de estar um pouco tímido, um pouco fora de controle. A postura dele era perfeita, de suprema confiança em si mesmo, totalmente inabalável, demonstrando diante da mulher a mesma falta de timidez exibida em batalhas e tempestades.
E quando chegaremos a Yokohama? — ela perguntou, voltando-se para ele e olhando bem nos seus olhos.
Pronto, ali estava a pergunta colocada de forma direta. As mandíbulas pararam de mastigar, as orelhas pararam de abanar e, apesar de seguirem com os olhos grudados nos pratos, todos os homens aguardavam a resposta com ansiedade.
Daqui a quatro meses, talvez três, se a temporada encerrar mais cedo — disse Wolf Larsen.
Ela respirou fundo e gaguejou:
Eu… eu achava… me deram a entender que Yokohama estava a apenas um dia daqui. Isso… — Ela fez uma pausa e deu uma olhada ao redor da mesa repleta de rostos insensíveis fitando seus pratos. — Isso não é direito — concluiu.
Essa é uma questão a ser resolvida com o sr. Van Weyden ali — ele respondeu, acenando para mim com uma piscadinha travessa. — O sr. Van Weyden é o que se pode chamar de autoridade nessa coisa de direitos. Mas eu, que sou apenas um marinheiro, veria a situação de maneira um pouco diferente. Ser obrigada a passar tempo conosco pode ser um infortúnio para você, mas para nós é certamente uma sorte.
Ele abriu um sorriso e a encarou. Ela baixou os olhos mas logo em seguida voltou a erguê-los, desafiadores, em direção aos meus. Percebi a pergunta embutida neles: aquilo era direito? Mas eu tinha decidido que o papel que me cabia desempenhar era neutro, portanto não respondi.
O que você acha disso? — ela perguntou.
Acho que é uma pena, principalmente se você tiver compromissos nos próximos meses. Mas, como disse que estava viajando para o Japão por motivos de saúde, posso garantir que em lugar nenhum haverá uma melhora tão grande quanto aqui no Ghost.
Vi seus olhos faiscarem de indignação, e dessa vez fui eu que baixei os meus, ao mesmo tempo em que sentia meu rosto avermelhar diante do olhar dela. Era covardia, mas o que eu podia ter feito?
O sr. Van Weyden fala com conhecimento de causa — Wolf Larsen riu.
Concordei com a cabeça e ela, já recuperada, ficou aguardando com curiosidade.
Não que ele esteja grande coisa agora — continuou Wolf Larsen —, mas é verdade que melhorou esplendidamente. Precisava tê-lo visto quando chegou a bordo. Seria impossível conceber um espécime humano mais triste e desmilinguido. Não é mesmo, Kerfoot?
Kerfoot, ao ser interpelado dessa maneira, ficou tão surpreso que deixou a faca cair no chão, mas ainda assim conseguiu grunhir afirmativamente.
Melhorou seu estado descascando batatas e lavando pratos. Hein, Kerfoot?
De novo o grunhido.
Dê uma olhada nele. Ninguém diria que é musculoso, é claro, mas ainda assim possui músculos, o que não se podia dizer dele quando chegou a bordo. Além disso, tem pernas para ficar em pé sozinho. Olhando agora, não dá para dizer, mas no início ele não tinha condições de ficar em pé sozinho.
Os caçadores davam risadinhas, mas ela me dirigia um olhar cúmplice que compensava com folga as provocações de Wolf Larsen. Na verdade, fazia tanto tempo que eu não recebia alguma cumplicidade alheia que amoleci na mesma hora e me tornei, de bom grado, seu escravo. Mas eu estava com raiva de Wolf Larsen. Ele estava pondo em dúvida a minha hombridade com suas calúnias, pondo em dúvida as mesmas pernas que, de acordo com o que alegava, eu só tinha adquirido graças a ele.
Posso ter aprendido a ficar em pé com as próprias pernas — retruquei. — Mas ainda não comecei a usá-las para pisar nos outros.
Ele me lançou um olhar de superioridade.
Então sua educação continua incompleta — disse em tom seco, e em seguida dirigiu-se a ela.
Somos muito hospitaleiros aqui no Ghost. O sr. Van Weyden descobriu isso. Fazemos de tudo para que nossos hóspedes se sintam em casa, não é mesmo, sr. Van Weyden?
Sobretudo na hora de descascar batatas e lavar pratos — respondi —, isso quando não lhe torcem o pescoço por pura camaradagem.
Peço que não fique com uma má impressão nossa por causa do sr. Van Weyden — ele interrompeu com uma afobação afetada. — Você deve ter reparado que ele carrega um punhal na cintura, uma… — ele pigarreou — uma coisa um tanto incomum para um oficial de marinha. Embora seja de fato uma pessoa muito estimável, às vezes o sr. Van Weyden pode ser um pouco… como posso dizer? Hum… briguento, e nesse caso medidas severas podem ser necessárias. É um homem razoável e justo em seus momentos de calma, e, como está calmo agora, não negará que ameaçou minha vida ontem mesmo.
Eu estava quase sufocando, e devia estar soltando fogo pelos olhos. Ele fez com que todos prestassem atenção em mim.
Vejam como está agora. Mal consegue se controlar na sua presença. Não está acostumado à presença de uma dama, de todo modo. É melhor eu estar armado quando ousar subir ao convés ao mesmo tempo que ele.
Ele balançou a cabeça com pesar, murmurando:
É uma pena, uma pena.
Os caçadores deixavam escapar golfadas de riso.
As vozes desses homens em águas profundas, berrando e fazendo barulho dentro do ambiente apertado, produziam um efeito furioso. Toda a situação era cheia de fúria e, pela primeira vez, vendo aquela estranha mulher e me dando conta de como ela era incongruente com seu entorno, tive a consciência de que eu já fazia parte daquilo tudo. Conhecia os homens e seus processos mentais, eu próprio era um deles, vivendo como um caçador de focas, comendo como um caçador de focas, pensando quase o tempo todo como um caçador de focas. Nada daquilo me era estranho, as roupas rudimentares, as faces ásperas, o riso descontrolado, as lamparinas balançando nas paredes oscilantes da cabine.
Enquanto passava manteiga em um pedaço de pão, meus olhos se detiveram em minhas mãos. Os nós dos dedos estavam esfolados e inflamados, os dedos em si inchados, as unhas estriadas de preto. Senti o volume acolchoado da barba em meu pescoço e sabia que uma das mangas do meu casaco estava rasgada e que um botão da gola de minha camisa azul estava faltando. A adaga mencionada por Wolf Larsen estava na bainha presa à minha cintura. Sua presença ali era natural, e eu não tinha me dado conta da dimensão dessa naturalidade até então, quando a vi pelos olhos dela e percebi como a adaga e tudo mais deveria lhe parecer estranho.
Todavia, ela detectou a zombaria na fala de Wolf Larsen e me presenteou mais uma vez com um olhar cúmplice. Além disso, havia um toque de confusão em seu olhar. Por tratar-se de zombaria, a situação se afigurava ainda mais enigmática para ela.
Posso ser levada por algum outro barco que passar, talvez — ela sugeriu.
Nenhum outro barco passará, somente outras escunas de caça à foca — disse Wolf Larsen.
Não tenho roupas nem nada — ela protestou. — Acho que o senhor não consegue enxergar que não sou um homem e que não estou acostumada à vida errante e desleixada que o senhor e seus homens parecem levar.
Quanto mais cedo se acostumar a ela, melhor — ele disse, e então acrescentou: — Posso lhe oferecer panos, linha e agulha. Fazer um par de vestidos não será um fardo insuportável para você, espero.
Ela retorceu a boca, contrariada, como se quisesse comunicar sua ignorância com respeito à confecção de vestidos. Era evidente, para mim, que estava assustada e confusa, e que tentava arduamente disfarçar isso.
Suponho que você seja como o sr. Van Weyden ali, acostumada a ter as coisas feitas para você. Bem, acredito que fazer uma coisa ou outra sozinha não vai deslocar nenhuma junta. Falando nisso, como você ganha a vida?
Ela o encarou sem disfarçar o espanto.
Não quero ofender, acredite. As pessoas comem, portanto precisam obter sustento. Esses homens atiram em focas para poder continuar vivendo. Pelo mesmo motivo, eu comando essa escuna. E o sr. Van Weyden, pelo menos por enquanto, trabalha como meu ajudante para pagar o grude que come. E você, faz o quê?
Ela ergueu os ombros.
Você se alimenta sozinha? Ou é alimentada pelos outros?
Tenho de admitir que fui alimentada pelos outros durante a maior parte da minha vida — ela riu, tentando bravamente aderir ao tom com que era questionada, embora não me fosse difícil vislumbrar o terror surgindo e crescendo em seus olhos à medida que ela observava Wolf Larsen.
E suponho que alguém arruma a cama para você.
Eu sei arrumar camas — ela respondeu.
E faz isso com frequência?
Ela balançou a cabeça para os lados, fingindo lamentar o fato.
Sabe o que fazem nos Estados Unidos com os pobres coitados que, assim como você, não trabalham para ganhar a vida?
Sou muito ignorante — ela assumiu. — O que fazem com os pobres coitados como eu?
Mandam para a cadeia. O crime de não trabalhar para ganhar a vida, no caso deles, se chama vadiagem. Se eu fosse como o sr. Van Weyden, que repisa eternamente questões sobre o certo e o errado, eu perguntaria até que ponto você tem direito de viver, já que não faz nada para merecer a vida.
Mas como o senhor não é o sr. Van Weyden, não preciso responder, não é?
Ela manteve os olhos cheios de terror cravados nos dele, e o páthos da cena me rasgou o coração. Eu precisava dar um jeito de me intrometer e levar a conversa para outros rumos.
Já ganhou algum dólar com o próprio trabalho? — ele perguntou, convencido de já saber a resposta, com um toque triunfante de espírito vingativo na voz.
Sim, ganhei — ela respondeu devagar, e eu quase ri em voz alta da expressão de desapontamento no rosto dele. — Lembro que uma vez meu pai me deu um dólar, quando eu era pequena, por conseguir ficar absolutamente quieta durante cinco minutos.
Ele abriu um sorriso indulgente.
Mas isso foi há muito tempo — ela prosseguiu. — E não seria adequado pedir a uma menina de nove anos que trabalhasse para ganhar a vida. — Depois de uma breve pausa, continuou: — Hoje em dia, porém, ganho cerca de mil e oitocentos dólares por ano.
Como se previamente combinado, todos os olhares saíram dos pratos e se concentraram nela. Uma mulher que ganhava mil e oitocentos dólares por ano era algo que valia a pena olhar. Wolf Larsen não pôde disfarçar sua admiração.
Salário ou por empreitada? — ele perguntou.
Por empreitada — ela respondeu sem titubear.
Mil e oitocentos — ele calculou. — São cento e cinquenta dólares por mês. Bem, srta. Brewster, não somos sovinas no Ghost. Considere-se assalariada enquanto permanecer conosco.
Ela não agradeceu. Ainda não havia lidado o suficiente com os caprichos daquele homem para aceitá-los com tranquilidade.
Esqueci de indagar — ele continuou com um tom amável — a respeito da natureza da sua ocupação. O que a senhorita produz? E de que ferramentas e materiais necessita?
Papel e tinta — ela riu. — Ah, e uma máquina de escrever, também.
Você é Maud Brewster — falei devagar e com convicção, quase como se a estivesse acusando de um crime.
Seus olhos curiosos procuraram os meus.
Como você sabe?
É ou não é? — insisti.
Ela confirmou a identidade com um aceno de cabeça. Agora foi a vez de Wolf Larsen ficar confuso. Para ele, aquele nome e sua magia nada significavam. O fato de que significavam muito para mim me encheu de orgulho, e pela primeira vez em muito tempo tive a consciência convicta de minha superioridade em relação a ele.
Lembro de ter escrito uma resenha de um volume bem fininho… — comecei a dizer sem pensar muito, e ela logo me interrompeu.
Você! — ela gritou. — Você é…
Agora era ela que me encarava com olhos esbugalhados de espanto.
Foi a minha vez de confirmar minha identidade com um aceno.
Humphrey van Weyden — ela concluiu, e então acrescentou com um suspiro de alívio, sem saber que esse alívio dizia respeito a Wolf Larsen: — Fico encantada em saber. Lembro da sua resenha — ela prosseguiu, subitamente consciente da falta de jeito do comentário. — Uma resenha elogiosa, até em excesso.
Nada disso — neguei com firmeza. — Você impede meu juízo sensato e faz meus cânones terem pouco valor. Além disso, todos os meus colegas críticos estavam de acordo. Se não me engano, Lang incluiu o seu “Beijo suportado” entre os quatro maiores sonetos da língua inglesa escritos por mulheres, não é mesmo?
Mas você disse que eu era a sra. Meynell dos Estados Unidos!
Não era verdade? — perguntei.
Não, isso não — ela respondeu. — Fiquei sentida.
Só podemos medir o que não conhecemos com o que conhecemos — respondi no meu melhor estilo acadêmico. — Como crítico, me vi na obrigação de classificá-la. Agora você mesma se tornou um parâmetro. Minha estante contém sete de seus pequenos volumes, e há também dois volumes mais grossos, os de ensaios, que estão, se me perdoa a comparação, à mesma altura dos versos, e ao dizê-lo não sei se estou elogiando mais os primeiros ou os últimos. Não estamos distantes do dia em que uma desconhecida surgirá na Inglaterra e será chamada pelos críticos de Maud Brewster inglesa.
Você é generoso demais, tenho certeza — ela murmurou, e a própria formalidade do seu tom e de suas palavras, capaz de evocar uma multidão de associações com a velha existência do outro lado do mundo, despertou em mim uma breve empolgação que vinha repleta de boas lembranças e pontadas doídas de saudade.
E você é Maud Brewster — pronunciei em tom solene, olhando para ela.
E você é Humphrey van Weyden — ela disse, me encarando com o mesmo espanto e solenidade. — Que improvável! Não entendo. Duvido que se possa esperar de sua pena uma aventura marítima cheia de romantismo.
Nada disso, não estou pesquisando material, posso lhe garantir — respondi. — Não tenho talento nem inclinação para escrever ficção.
Vamos, me diga, por que se enterrou na Califórnia? — ela quis saber em seguida. — Não foi gentil da sua parte. Nós, da Costa Leste, pouco pudemos desfrutar de sua presença.
Fazem falta as visitas do Expoente das Letras Americanas.
Fiz uma mesura e em seguida rejeitei o elogio.
Quase a encontrei uma vez na Filadélfia, em algum evento relacionado a Browning. Você ia dar uma palestra. Meu trem chegou quatro horas atrasado.
E então quase nos esquecemos do lugar em que estávamos e deixamos Wolf Larsen abandonado e mudo no meio da nossa torrente de fofocas. Os caçadores deixaram a mesa e foram para o convés, e nós continuamos conversando. Somente Wolf Larsen ficou ali. De repente, me lembrei de sua presença ao vê-lo reclinado na cadeira, afastado da mesa, escutando com interesse aquele diálogo estranho a respeito de um mundo que ele não conhecia.
Parei bruscamente no meio de uma frase. O presente, com todos os seus perigos e ansiedades, me atropelou com uma força devastadora. A srta. Brewster foi igualmente atingida, e seus olhos, ao pousarem em Wolf Larsen, se encheram de um terror vago e indefinido.
Ele ficou em pé e deu uma risada desajeitada. A sonoridade era metálica.
Oh, não se preocupem comigo — ele disse com um gesto autodepreciativo. — Eu não me importo. Continuem, continuem, eu lhes peço.
Mas os portões da fala tinham sido fechados e nós também levantamos da mesa e rimos sem jeito.

Jack London, in O Lobo do Mar

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