domingo, 20 de novembro de 2022

Capítulo cinco | A morte anunciada do pai imortal


A mãe é eterna, o pai é imortal.
Dizer de Luar-do-Chão

A anónima carta me atirava para um assunto que, em mim, nunca teve resolução: meu velhote, Fulano Malta, segundo filho de Dito Mariano. Que sabia eu dele? Era mais o adivinhado que o confirmado. Em miúdo tinha sido sacristão. Padre Nunes, um sacerdote português, dele ganhara amizade.
Contudo, um dia meu pai bebeu o vinho que se guardava por trás do altar. Quando acendia as velas no altar acabou pegando fogo à igreja. Aquelas chamas se fixaram na lembrança dele como se fossem labaredas dos infernos.
Aos poucos se foi afastando das obrigações religiosas. Nunes ainda o tentou dissuadir. E nunca mais raspou joelho pelo chão. O padre ainda insistiu: – Qual a valia dessa devoção? Se a pedra é pontuda você já não ajoelha? Ninguém nunca me contou como ele e minha mãe se conheceram. Era assunto interdito em nossa casa. Como também era proibido falar-se no modo como a mãe veio a falecer. Que se tinha afogado, isso sabia-se vagamente.
A paixão adolescente de Fulano por Mariavilhosa não foi capaz de lhe trazer venturas. Nem o casamento lhe foi suficiente. Pois seu viver se foi amargando e ele, mal escutou que havia guerrilheiros lutando por acabar com o regime colonial, se lançou rio afora para se juntar aos independentistas. A família ficou sem saber dele durante anos. Já derrubado o governo colonial, Fulano Malta regressou. Vinha fardado e todos o olhavam como herói de muitas glórias. Seguiu-se um ano de transição, um longo exercício na entrega dos poderes da administração portuguesa para a nova governação.
Nesse enquanto, minha mãe engravidara. Em seu rosto se anunciavam as gerais felicidades. Até que um dia aconteceram os ensaios para os festejos da independência que seria declarada dali a um mês. Treinava-se para o verdadeiro desfile a ter lugar na capital, aquando das cerimónias centrais. Minha mãe, Dona Mariavilhosa, gabava as belezas de seu marido enquanto dava brilho aos seus fardamentos. Até peúga nova ela aprontara para o seu homem. Seu Fulano seria o mais elegante no ensaio da parada militar, anunciada para essa tarde.
Não aconteceu assim, afinal. Enquanto, nas ruas da vila, as tropas desfilaram as pré-vitórias, meu pai despiu a sua farda e se guardou em casa. Mariavilhosa, triste, desistiu de argumentar. Juca Sabão, que acorria para se juntar à multidão, nem acreditava que o herói libertador se sombreava no resguardo do lar, alheio ao mundo e ao glorioso momento.
Que faz, Fulano? Não vai desfilar?
Porquê?
Porquê? Você não devia estar no ensaio das comemorações?
Para comemorar o quê?
A independência! Ou não está feliz com a independência?
Meu pai não respondeu. Ele queria dizer que a independência que mais vale é aquela que está dentro de nós. O que lhe apetecia celebrar era o vivermos por nosso mando e gosto. Em vez disso, porém, meu velho apenas encolheu os ombros: – Estou feliz, sim. Muito feliz.
E então?
Mas vou ficar aqui, a fazer companhia a minha mulher. Faz anos que não assisto um poente junto com ela.
A mão dele pousou sobre a barriga da mulher. Ela demorou um instante, em silêncio. Depois, sorriu, orgulhosa pela escolha dele.
Mais noite, porém, minha mãe insistiu que ele fosse aos preparativos da festa. Não tardaria que, nos céus da Ilha, se erguesse a bandeira, mastroada, altiprumada. Mas Fulano escusou-se. A esposa, Mariavilhosa, vincou palavra: como seria possível ficar indiferente com a subida da bandeira, o pano de toda espera, o desfraldar de toda esperança? Fulano não se esforçou a explicar. Palavras foram estas poucas: – Se é para aclamar bandeira eu escolho o redondo de sua barriga.
A esposa entendia? Ela sacudiu vagamente a cabeça. Ainda disse: – Daqui a um mês a bandeira vai subir. Quem sabe se isso acontece quando eu estiver a dar à luz este nosso filho? Nenhum dos dois, contudo, podia adivinhar o que estava guardado para esse anunciado dia. Naquele momento, meu velho se sentou, grave. E falou. Aqueles que, naquela tarde, desfilavam bem na frente, esses nunca se tinham sacrificado na luta.
E nunca mais Fulano falou de políticas. O que dele a vida foi fazendo, gato sem sapato? Saí da Ilha, minha mãe faleceu. E ele mais se internou em seu amargor. Eu entendia esse sofrimento. Fulano Malta passara por muito. Em moço se sentira estranho em sua terra. Acreditara que a razão desse sofrimento era uma única e exclusiva: o colonialismo. Mas depois veio a Independência e muito da sua despertença se manteve. E hoje comprovava: não era de um país que ele era excluído. Era estrangeiro não numa nação, mas no mundo.
Poucos foram os momentos que conversámos. No sempre, meu pai foi severa descompanhia: nenhuma ternura, nenhum gesto protector. Quando me retirei de Luar-do-Chão, ele não se foi despedir. – Despedida é coisa de mulher – ainda lhe escutei dizer.
Na cidade, permaneci anos seguidos. Dele não tinha notícia.
Dar notícias é coisa de homem fraco – assim dizia Fulano Malta.
Anos depois, inexplicavelmente, ele surgiu na cidade. E se instalou no meu quarto. Ainda pensei que ele vinha diferente, mais dado, mais pai. Mas não. Fulano permanecia o que sempre fora: calado, cismado, em si vertido. Evitando, sobretudo, o gesto paternal.
Meu velho vinha à cidade pedir apoio a seu irmão, o enriquecido Ultímio. Não imagino o que ele acreditava ser seu direito: se um emprego, um negócio, uma facilidade de parente. Sei que, logo na primeira tarde, visitou o Tio Ultímio. O que os dois falaram nunca se soube. O que se passara, no entanto, rasgara o coração de meu velho. Uma última porta nele se fechara.
Regressado a casa, meu pai se costurou em silêncio. Dias seguidos ele se conservou fechado no quarto. Impossivelmente, os dois desconvíviamos. Nos evitávamos, existindo em turnos.
Certa vez, ele anunciou que ia visitar os Lopes, meus padrinhos portugueses. Tarde de mais. Meu velho desconhecia que eles já tinham regressado a Portugal. Razões de discordância com o novo regime, assim se acreditava. Ninguém sabia de outros, mais privados, motivos. Enquanto vivi em casa dos Lopes testemunhei que Dona Conceição sempre que podia regressava à nossa Ilha. Nem pretexto carecia: volta e não-volta, lá estava ela no ferry-boat cruzando o rio rumo a Luar-do-Chão. O que a fazia regressar? Um roer de saudade? Para Frederico Lopes, o marido, aquilo era pretexto de zanga e desconfiança. Pairava entre o casal uma tensão de que eu só fugazmente me apercebia. Recordo que, certa vez, deparei com uma fotografia de minha mãe na mesa-de-cabeceira do casal. Me espantei por ver ali, emoldurado, o rosto de Mariavilhosa. Dona Conceição me passou o braço enquanto apontava o retrato: – Era linda, não era? O seu marido Frederico acabara de entrar no aposento e interrompeu a conversa. A voz lhe estremecia quando falou: – Era linda mas não é aqui o lugar onde essa foto deve estar...
Você sabe muito bem, Frederico, o motivo desta fotografia estar aqui. Ou não sabe? Uma tensão quase insuportável dominava o quarto. Esse mal-estar tornou-se numa carga explosiva na iminência de deflagrar. Até que Conceição compareceu, uma noite, lágrima escorrendo no rosto escurecido. A mancha sob o olho não deixava dúvida sobre a causa do escondido soluço dela. Lopes me deu ordem para que os deixasse a sós e fosse entreter horas no jardim vizinho.
E leve essa foto que é a da sua mãe.
No dia seguinte, juntei à moldura todos os meus haveres e saí de casa dos portugueses. Não tardou a que eles se retirassem do país, retomando a Lisboa para sempre. Tudo isso meu pai desconhecia, longe que estava da cidade. Fulano Malta escutou as novidades sobre os Lopes e, desde então, pareceu ficar mais ausente, mais enclausurado em seu aposento.
Certa noite, ao chegar a casa deparei com Tio Ultímio. Tinha vindo visitar-nos. Trouxera uma garrafa de uísque e uma lata de castanha de caju. Saudei-o, com reservado espanto. Nunca ele batera em minha porta. Anunciou-se: viera encontrar-se com seu irmão Fulano, entendera acalorar palavra com ele. Meu pai estava afundado no velho sofá, um copo com gelo tilintando na sua mão. Era óbvio que já tinham trocado azedumes, havia uma atmosfera que ainda pesava. Um silêncio se demorou, óleo viscoso fazendo emperrar as falas. Ultímio levantou-se para se servir de castanha.
Ficou de pé, mastigando ruidosamente. Meu pai lhe atirou, então: – Esse caju não lhe faz lembrar nada? – Nada...
Fulano ergueu-se, parecia projectado por demónios. Os olhos dele tinham mau hálito, tais eram as fúrias. Que a ele a castanha de caju lhe fazia lembrar a mãe, Dulcineusa. E lhe dava um aperto recordar como as mãos dela foram perdendo formato, dissolvidas pela grande fábrica, sacrificadas para seus filhos se tornarem homens.
Você ainda consegue mastigar isso?
Num encontrão fez tombar as castanhas. Depois, pisou-as uma por uma.
Saia daqui, já. Saia, Ultímio! Aquele era o quarto do seu filho. Lugar modesto que Ultímio nunca tinha visitado, nem para saber quanto eu necessitaria de ajuda.
Este aqui é um cantinho remediado, não é como a casa dos seus filhos.
Meus filhos estão a estudar no estrangeiro, como é que você, Fulano, pode falar da casa deles?
Exactamente, eu não posso falar nem da casa nem da vida deles. Porque seus filhos são meninos de luxo. Não cabem nesta casa que é o país inteiro.
Não quero ouvir mais merda. Eu vim aqui para lhe oferecer ajuda, somos família...
Não somos família. Esse é que é o ponto, Ultímio.
Tio Ultímio saiu, batendo a porta. Quis rectificar, mas a voz de Fulano Malta se impôs, alta e sonante.
E não venha nunca mais! Jantámos em silêncio. Meu velho se ajeitou com uns magros restos. Escutei-lhe o mastigar, depois o engordado bocejar. Comecei a arrumar os bolsos, anunciando sem palavra minha intenção de sair. Já quando cruzava a porta, meu pai me dirigiu as falas. Era um raspar de voz, envergonhado.
Filho, você que tem experiências na vida, me ajude.
O que passa, pai? – Me leve, lá.
Lá onde? – Lá, às putas.
Como diz?
É que eu nunca fui às meninas, nem sei como é. Lá em Luar-do-Chão não há.
Nem acreditava no que escutava. Depois, me veio o riso, incontível. O que sucedia naquela velha cabeça? Será que a viuvez lhe descera aos órgãos? Olhei o meu pai ali, no meio da sala, com calças de pijama e camisola interior, parecia ser ele o órfão da casa. E me pesou, pela primeira vez, o tamanho da solidão daquele homem. Senti um remorso por não ter notado antes aquela sombra derrubando meu velho.
Às putas, pai?
Sim. Me conduza lá onde elas se mostram todas despeladas. E me explique como se faz.
Mas há doenças, isso tudo. Os tempos são outros, pai.
Eu não tenho nenhuma doença.
O pai não tem, mas essas moças costumam ter.
Fulano Malta não se resignava. Não aceitei prolongar o assunto e fechei a porta. A noite me escondeu, a salvo da conversa.
Esperava que fosse assunto passado. Na noite seguinte, porém, a mesma requerência. Ele insistiu, já com chantagem. Se eu não o orientasse nessa excursão, ele iria por sua conta e dano. A discussão azedou, até que lhe gritei: – Devia ter vergonha pai, ser eu, seu filho, a deitar-lhe juízo.
Não respondeu. Com vigor se levantou e abriu uma gaveta. As duas mãos esgravataram as entranhas do armário, rosto desviado em outra atenção. Os gestos bruscos se desenhavam às cegas. O tom era grave quando falou: – Veja esses papéis.
Atirou tudo para cima da mesa. Recolhi os documentos e, gelado, fui tomando conhecimento: ali se escrevia a morte dele. Em letra apressada se rabiscava o prognóstico médico: lhe cabiam quando muito uns escassos dias de vida.
Quem escreveu isto? – a voz me estremeceu.
Foi o Amílcar Mascarenha, esse que é muitíssimo doutor.
Deixei-me abater na cadeira, os papéis me sobrando dos dedos. Aquelas folhas pareciam crescer, já não se via nada senão os gatafunhos mal desenhados do médico. O chão do mundo todo rabiscado em sentença fúnebre. A letra do indiano me travava a voz quando quis falar. Tive que repetir: – Amanhã, pai, amanhã vamos.
Promete? Abanei a cabeça e saí. Na noite seguinte, meu velho estava de fato e gravata, tinha-se esfregado com pétalas de chimunha-munhuane, essas florzinhas que cercam as casas suburbanas. Sacudi algumas folhas que tinham ficado presas na sua barba.
Estou de mais bonito?
De mais, pai. Se eu fosse mulher…
evei-o pela avenida, cruzámos luzes, semáforos, anúncios. Eu seguia atrás, tímido, quase medroso. Finalmente, na desiluminada esquina lá estava ela. O vestido reluzente lhe marcava as saliências, convidando aos tresvarios. O velhote deu uns passos tímidos em direcção à moça. E logo se trepadeirou nela.
Fiquei ali, um tempo, como se receasse nunca mais o ver. Depois regressei a casa. O velho reapareceu, pela madrugada, feliz de cantar. E nas outras madrugadas também.
E semanas passaram. No desfiar do tempo, o pai repetindo as nocturnas excursões, nessa felicidade que é, de uma só vez, ter o mundo todo dentro de nós. Se havia lição, o velho aprendeu-a num abrir de olhos e fechar de zipe. Já não necessitava conselho. Noite após noite, lá estava ele, pontualíssimo, espreitando a porta. E saindo assim que o escuro ganhava espessura.
Pior que as prostitutas, porém: começou a desaparecer dinheiro de casa. Custava-me aceitar, mas só podia ser obra de meu pai. Ele passara a roubar, e já não era apenas dinheiro. Desapareciam bens, recordações de sentimento. Quando evaporaram as pequenas heranças de minha falecida mãe eu me desabri, severo: – Acabou, pai. O senhor vai sair desta casa, já amanhã.
Ele não deu luta. Arrumou as suas coisas numa mala e pediu para ficar apenas aquela última noite. A madrugada já se anunciava quando escutei ruídos na cozinha. Era meu velho, debruçado no lavatório. Parecia aflito, respirava mal, uma baba lhe escorria pelo pescoço.
Estou morrendo, meu filho.
Amparei-o para o sofá da sala. Ali ficou, num fiorrapo.
Amanhã vou-me embora – suspirou. A mão na garganta parecia ajudar o trânsito dos ares. – Amanhã saio, me deixe só respirar um pouco.
Ficámos os dois em silêncio. Um frio me percorria como se antevisse o velório. Depois, com voz ainda gemente, ele falou: – Sabe o que foi o melhor disto?
As miúdas?
O melhor disto tudo foi você.
Como eu?
Foi ter andado consigo aí pelas vidas. Parecíamos quase manos, sabe? Nestes dias, não fui pai, nem tive idade nenhuma. Entende? Depois, adormeceu. A manhã já ia alta e eu ainda ali, cabeceirando o meu velho pai. Espreitei a cidade pela janela entreaberta. Lá fora, a vida desfilava, impávida. Injustiça é o mundo prosseguir assim mesmo quando desaparece quem mais amamos. Será que em Luar-do-Chão alguém adivinharia o estado de meu pai? Foi quando, entre a multidão, notei que passava o Doutor Mascarenha. Lá ia ele sobraçando sua inevitável pasta preta. Saí, correndo pelas ruas. Quando o interceptei pedi-lhe explicação sobre o diagnóstico que destinara em meu pai.
Diagnóstico? Qual diagnóstico?
O senhor não previu a morte do meu velho?
Mas que morte? Ele está melhor que nós ambos juntos.
Nem sabia se era estar contente aquele bater no meu peito. Acelerei o regresso a casa. Já adivinhava o que me iria esperar. Nada. Era nada o que me aguardava. Meu pai já havia saído. A porta aberta, definitiva. E apenas um rasto desse perfume que ele usava quando se incursionava pelas noitadas.
Ainda hoje aquela porta se conservava assim: aberta. Como se, desse modo, houvesse menos obstáculo para que meu pai regressasse.

Mia Couto, in Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra

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