A
mãe é eterna, o pai é imortal.
Dizer
de Luar-do-Chão
A
anónima carta me atirava para um assunto que, em mim, nunca teve
resolução: meu velhote, Fulano Malta, segundo filho de Dito
Mariano. Que sabia eu dele? Era mais o adivinhado que o confirmado.
Em miúdo tinha sido sacristão. Padre Nunes, um sacerdote português,
dele ganhara amizade.
Contudo,
um dia meu pai bebeu o vinho que se guardava por trás do altar.
Quando acendia as velas no altar acabou pegando fogo à igreja.
Aquelas chamas se fixaram na lembrança dele como se fossem labaredas
dos infernos.
Aos
poucos se foi afastando das obrigações religiosas. Nunes ainda o
tentou dissuadir. E nunca mais raspou joelho pelo chão. O padre
ainda insistiu: – Qual a valia dessa devoção? Se a pedra é
pontuda você já não ajoelha? Ninguém nunca me contou como ele e
minha mãe se conheceram. Era assunto interdito em nossa casa. Como
também era proibido falar-se no modo como a mãe veio a falecer. Que
se tinha afogado, isso sabia-se vagamente.
A
paixão adolescente de Fulano por Mariavilhosa não foi capaz de lhe
trazer venturas. Nem o casamento lhe foi suficiente. Pois seu viver
se foi amargando e ele, mal escutou que havia guerrilheiros lutando
por acabar com o regime colonial, se lançou rio afora para se juntar
aos independentistas. A família ficou sem saber dele durante anos.
Já derrubado o governo colonial, Fulano Malta regressou. Vinha
fardado e todos o olhavam como herói de muitas glórias. Seguiu-se
um ano de transição, um longo exercício na entrega dos poderes da
administração portuguesa para a nova governação.
Nesse
enquanto, minha mãe engravidara. Em seu rosto se anunciavam as
gerais felicidades. Até que um dia aconteceram os ensaios para os
festejos da independência que seria declarada dali a um mês.
Treinava-se para o verdadeiro desfile a ter lugar na capital, aquando
das cerimónias centrais. Minha mãe, Dona Mariavilhosa, gabava as
belezas de seu marido enquanto dava brilho aos seus fardamentos. Até
peúga nova ela aprontara para o seu homem. Seu Fulano seria o mais
elegante no ensaio da parada militar, anunciada para essa tarde.
Não
aconteceu assim, afinal. Enquanto, nas ruas da vila, as tropas
desfilaram as pré-vitórias, meu pai despiu a sua farda e se guardou
em casa. Mariavilhosa, triste, desistiu de argumentar. Juca Sabão,
que acorria para se juntar à multidão, nem acreditava que o herói
libertador se sombreava no resguardo do lar, alheio ao mundo e ao
glorioso momento.
– Que
faz, Fulano? Não vai desfilar?
– Porquê?
– Porquê?
Você não devia estar no ensaio das comemorações?
– Para
comemorar o quê?
– A
independência! Ou não está feliz com a independência?
Meu
pai não respondeu. Ele queria dizer que a independência que mais
vale é aquela que está dentro de nós. O que lhe apetecia celebrar
era o vivermos por nosso mando e gosto. Em vez disso, porém, meu
velho apenas encolheu os ombros: – Estou feliz, sim. Muito feliz.
– E
então?
– Mas
vou ficar aqui, a fazer companhia a minha mulher. Faz anos que não
assisto um poente junto com ela.
A
mão dele pousou sobre a barriga da mulher. Ela demorou um instante,
em silêncio. Depois, sorriu, orgulhosa pela escolha dele.
Mais
noite, porém, minha mãe insistiu que ele fosse aos preparativos da
festa. Não tardaria que, nos céus da Ilha, se erguesse a bandeira,
mastroada, altiprumada. Mas Fulano escusou-se. A esposa,
Mariavilhosa, vincou palavra: como seria possível ficar indiferente
com a subida da bandeira, o pano de toda espera, o desfraldar de toda
esperança? Fulano não se esforçou a explicar. Palavras foram estas
poucas: – Se é para aclamar bandeira eu escolho o redondo de sua
barriga.
A
esposa entendia? Ela sacudiu vagamente a cabeça. Ainda disse: –
Daqui a um mês a bandeira vai subir. Quem sabe se isso acontece
quando eu estiver a dar à luz este nosso filho? Nenhum dos dois,
contudo, podia adivinhar o que estava guardado para esse anunciado
dia. Naquele momento, meu velho se sentou, grave. E falou. Aqueles
que, naquela tarde, desfilavam bem na frente, esses nunca se tinham
sacrificado na luta.
E
nunca mais Fulano falou de políticas. O que dele a vida foi fazendo,
gato sem sapato? Saí da Ilha, minha mãe faleceu. E ele mais se
internou em seu amargor. Eu entendia esse sofrimento. Fulano Malta
passara por muito. Em moço se sentira estranho em sua terra.
Acreditara que a razão desse sofrimento era uma única e exclusiva:
o colonialismo. Mas depois veio a Independência e muito da sua
despertença se manteve. E hoje comprovava: não era de um país que
ele era excluído. Era estrangeiro não numa nação, mas no mundo.
Poucos
foram os momentos que conversámos. No sempre, meu pai foi severa
descompanhia: nenhuma ternura, nenhum gesto protector. Quando me
retirei de Luar-do-Chão, ele não se foi despedir. – Despedida é
coisa de mulher – ainda lhe escutei dizer.
Na
cidade, permaneci anos seguidos. Dele não tinha notícia.
– Dar
notícias é coisa de homem fraco – assim dizia Fulano Malta.
Anos
depois, inexplicavelmente, ele surgiu na cidade. E se instalou no meu
quarto. Ainda pensei que ele vinha diferente, mais dado, mais pai.
Mas não. Fulano permanecia o que sempre fora: calado, cismado, em si
vertido. Evitando, sobretudo, o gesto paternal.
Meu
velho vinha à cidade pedir apoio a seu irmão, o enriquecido
Ultímio. Não imagino o que ele acreditava ser seu direito: se um
emprego, um negócio, uma facilidade de parente. Sei que, logo na
primeira tarde, visitou o Tio Ultímio. O que os dois falaram nunca
se soube. O que se passara, no entanto, rasgara o coração de meu
velho. Uma última porta nele se fechara.
Regressado
a casa, meu pai se costurou em silêncio. Dias seguidos ele se
conservou fechado no quarto. Impossivelmente, os dois desconvíviamos.
Nos evitávamos, existindo em turnos.
Certa
vez, ele anunciou que ia visitar os Lopes, meus padrinhos
portugueses. Tarde de mais. Meu velho desconhecia que eles já tinham
regressado a Portugal. Razões de discordância com o novo regime,
assim se acreditava. Ninguém sabia de outros, mais privados,
motivos. Enquanto vivi em casa dos Lopes testemunhei que Dona
Conceição sempre que podia regressava à nossa Ilha. Nem pretexto
carecia: volta e não-volta, lá estava ela no ferry-boat cruzando o
rio rumo a Luar-do-Chão. O que a fazia regressar? Um roer de
saudade? Para Frederico Lopes, o marido, aquilo era pretexto de zanga
e desconfiança. Pairava entre o casal uma tensão de que eu só
fugazmente me apercebia. Recordo que, certa vez, deparei com uma
fotografia de minha mãe na mesa-de-cabeceira do casal. Me espantei
por ver ali, emoldurado, o rosto de Mariavilhosa. Dona Conceição me
passou o braço enquanto apontava o retrato: – Era linda, não era?
O seu marido Frederico acabara de entrar no aposento e interrompeu a
conversa. A voz lhe estremecia quando falou: – Era linda mas não é
aqui o lugar onde essa foto deve estar...
– Você
sabe muito bem, Frederico, o motivo desta fotografia estar aqui. Ou
não sabe? Uma tensão quase insuportável dominava o quarto. Esse
mal-estar tornou-se numa carga explosiva na iminência de deflagrar.
Até que Conceição compareceu, uma noite, lágrima escorrendo no
rosto escurecido. A mancha sob o olho não deixava dúvida sobre a
causa do escondido soluço dela. Lopes me deu ordem para que os
deixasse a sós e fosse entreter horas no jardim vizinho.
– E
leve essa foto que é a da sua mãe.
No
dia seguinte, juntei à moldura todos os meus haveres e saí de casa
dos portugueses. Não tardou a que eles se retirassem do país,
retomando a Lisboa para sempre. Tudo isso meu pai desconhecia, longe
que estava da cidade. Fulano Malta escutou as novidades sobre os
Lopes e, desde então, pareceu ficar mais ausente, mais enclausurado
em seu aposento.
Certa
noite, ao chegar a casa deparei com Tio Ultímio. Tinha vindo
visitar-nos. Trouxera uma garrafa de uísque e uma lata de castanha
de caju. Saudei-o, com reservado espanto. Nunca ele batera em minha
porta. Anunciou-se: viera encontrar-se com seu irmão Fulano,
entendera acalorar palavra com ele. Meu pai estava afundado no velho
sofá, um copo com gelo tilintando na sua mão. Era óbvio que já
tinham trocado azedumes, havia uma atmosfera que ainda pesava. Um
silêncio se demorou, óleo viscoso fazendo emperrar as falas.
Ultímio levantou-se para se servir de castanha.
Ficou
de pé, mastigando ruidosamente. Meu pai lhe atirou, então: – Esse
caju não lhe faz lembrar nada? – Nada...
Fulano
ergueu-se, parecia projectado por demónios. Os olhos dele tinham mau
hálito, tais eram as fúrias. Que a ele a castanha de caju lhe fazia
lembrar a mãe, Dulcineusa. E lhe dava um aperto recordar como as
mãos dela foram perdendo formato, dissolvidas pela grande fábrica,
sacrificadas para seus filhos se tornarem homens.
– Você
ainda consegue mastigar isso?
Num
encontrão fez tombar as castanhas. Depois, pisou-as uma por uma.
– Saia
daqui, já. Saia, Ultímio! Aquele era o quarto do seu filho. Lugar
modesto que Ultímio nunca tinha visitado, nem para saber quanto eu
necessitaria de ajuda.
– Este
aqui é um cantinho remediado, não é como a casa dos seus filhos.
– Meus
filhos estão a estudar no estrangeiro, como é que você, Fulano,
pode falar da casa deles?
– Exactamente,
eu não posso falar nem da casa nem da vida deles. Porque seus filhos
são meninos de luxo. Não cabem nesta casa que é o país inteiro.
– Não
quero ouvir mais merda. Eu vim aqui para lhe oferecer ajuda, somos
família...
– Não
somos família. Esse é que é o ponto, Ultímio.
Tio
Ultímio saiu, batendo a porta. Quis rectificar, mas a voz de Fulano
Malta se impôs, alta e sonante.
– E
não venha nunca mais! Jantámos em silêncio. Meu velho se ajeitou
com uns magros restos. Escutei-lhe o mastigar, depois o engordado
bocejar. Comecei a arrumar os bolsos, anunciando sem palavra minha
intenção de sair. Já quando cruzava a porta, meu pai me dirigiu as
falas. Era um raspar de voz, envergonhado.
– Filho,
você que tem experiências na vida, me ajude.
– O
que passa, pai? – Me leve, lá.
– Lá
onde? – Lá, às putas.
– Como
diz?
– É
que eu nunca fui às meninas, nem sei como é. Lá em Luar-do-Chão
não há.
Nem
acreditava no que escutava. Depois, me veio o riso, incontível. O
que sucedia naquela velha cabeça? Será que a viuvez lhe descera aos
órgãos? Olhei o meu pai ali, no meio da sala, com calças de pijama
e camisola interior, parecia ser ele o órfão da casa. E me pesou,
pela primeira vez, o tamanho da solidão daquele homem. Senti um
remorso por não ter notado antes aquela sombra derrubando meu velho.
– Às
putas, pai?
– Sim.
Me conduza lá onde elas se mostram todas despeladas. E me explique
como se faz.
– Mas
há doenças, isso tudo. Os tempos são outros, pai.
– Eu
não tenho nenhuma doença.
– O
pai não tem, mas essas moças costumam ter.
Fulano
Malta não se resignava. Não aceitei prolongar o assunto e fechei a
porta. A noite me escondeu, a salvo da conversa.
Esperava
que fosse assunto passado. Na noite seguinte, porém, a mesma
requerência. Ele insistiu, já com chantagem. Se eu não o
orientasse nessa excursão, ele iria por sua conta e dano. A
discussão azedou, até que lhe gritei: – Devia ter vergonha pai,
ser eu, seu filho, a deitar-lhe juízo.
Não
respondeu. Com vigor se levantou e abriu uma gaveta. As duas mãos
esgravataram as entranhas do armário, rosto desviado em outra
atenção. Os gestos bruscos se desenhavam às cegas. O tom era grave
quando falou: – Veja esses papéis.
Atirou
tudo para cima da mesa. Recolhi os documentos e, gelado, fui tomando
conhecimento: ali se escrevia a morte dele. Em letra apressada se
rabiscava o prognóstico médico: lhe cabiam quando muito uns
escassos dias de vida.
– Quem
escreveu isto? – a voz me estremeceu.
– Foi
o Amílcar Mascarenha, esse que é muitíssimo doutor.
Deixei-me
abater na cadeira, os papéis me sobrando dos dedos. Aquelas folhas
pareciam crescer, já não se via nada senão os gatafunhos mal
desenhados do médico. O chão do mundo todo rabiscado em sentença
fúnebre. A letra do indiano me travava a voz quando quis falar. Tive
que repetir: – Amanhã, pai, amanhã vamos.
– Promete?
Abanei a cabeça e saí. Na noite seguinte, meu velho estava de fato
e gravata, tinha-se esfregado com pétalas de chimunha-munhuane,
essas florzinhas que cercam as casas suburbanas. Sacudi algumas
folhas que tinham ficado presas na sua barba.
– Estou
de mais bonito?
– De
mais, pai. Se eu fosse mulher…
evei-o
pela avenida, cruzámos luzes, semáforos, anúncios. Eu seguia
atrás, tímido, quase medroso. Finalmente, na desiluminada esquina
lá estava ela. O vestido reluzente lhe marcava as saliências,
convidando aos tresvarios. O velhote deu uns passos tímidos em
direcção à moça. E logo se trepadeirou nela.
Fiquei
ali, um tempo, como se receasse nunca mais o ver. Depois regressei a
casa. O velho reapareceu, pela madrugada, feliz de cantar. E nas
outras madrugadas também.
E
semanas passaram. No desfiar do tempo, o pai repetindo as nocturnas
excursões, nessa felicidade que é, de uma só vez, ter o mundo todo
dentro de nós. Se havia lição, o velho aprendeu-a num abrir de
olhos e fechar de zipe. Já não necessitava conselho. Noite após
noite, lá estava ele, pontualíssimo, espreitando a porta. E saindo
assim que o escuro ganhava espessura.
Pior
que as prostitutas, porém: começou a desaparecer dinheiro de casa.
Custava-me aceitar, mas só podia ser obra de meu pai. Ele passara a
roubar, e já não era apenas dinheiro. Desapareciam bens,
recordações de sentimento. Quando evaporaram as pequenas heranças
de minha falecida mãe eu me desabri, severo: – Acabou, pai. O
senhor vai sair desta casa, já amanhã.
Ele
não deu luta. Arrumou as suas coisas numa mala e pediu para ficar
apenas aquela última noite. A madrugada já se anunciava quando
escutei ruídos na cozinha. Era meu velho, debruçado no lavatório.
Parecia aflito, respirava mal, uma baba lhe escorria pelo pescoço.
– Estou
morrendo, meu filho.
Amparei-o
para o sofá da sala. Ali ficou, num fiorrapo.
– Amanhã
vou-me embora – suspirou. A mão na garganta parecia ajudar o
trânsito dos ares. – Amanhã saio, me deixe só respirar um pouco.
Ficámos
os dois em silêncio. Um frio me percorria como se antevisse o
velório. Depois, com voz ainda gemente, ele falou: – Sabe o que
foi o melhor disto?
– As
miúdas?
– O
melhor disto tudo foi você.
– Como
eu?
– Foi
ter andado consigo aí pelas vidas. Parecíamos quase manos, sabe?
Nestes dias, não fui pai, nem tive idade nenhuma. Entende? Depois,
adormeceu. A manhã já ia alta e eu ainda ali, cabeceirando o meu
velho pai. Espreitei a cidade pela janela entreaberta. Lá fora, a
vida desfilava, impávida. Injustiça é o mundo prosseguir assim
mesmo quando desaparece quem mais amamos. Será que em Luar-do-Chão
alguém adivinharia o estado de meu pai? Foi quando, entre a
multidão, notei que passava o Doutor Mascarenha. Lá ia ele
sobraçando sua inevitável pasta preta. Saí, correndo pelas ruas.
Quando o interceptei pedi-lhe explicação sobre o diagnóstico que
destinara em meu pai.
– Diagnóstico?
Qual diagnóstico?
– O
senhor não previu a morte do meu velho?
– Mas
que morte? Ele está melhor que nós ambos juntos.
Nem
sabia se era estar contente aquele bater no meu peito. Acelerei o
regresso a casa. Já adivinhava o que me iria esperar. Nada. Era nada
o que me aguardava. Meu pai já havia saído. A porta aberta,
definitiva. E apenas um rasto desse perfume que ele usava quando se
incursionava pelas noitadas.
Ainda
hoje aquela porta se conservava assim: aberta. Como se, desse modo,
houvesse menos obstáculo para que meu pai regressasse.
Mia Couto, in Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra

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