Tem
seus 23 anos, e eu a conheço desde os oito ou nove, sempre assim,
meio gordinha, engraçada, de cabelos ruivos. Foi criada, a bem
dizer, na areia do Arpoador; nasceu e viveu em uma daquelas ruas que
vão de Copacabana a Ipanema, de praia a praia. A família mudou-se
quando a casa foi comprada para a construção de um edifício.
Certa
vez me contou: — Em meu quarteirão não há uma só casa de meu
tempo de menina. Se eu tivesse passado anos fora do Rio e voltasse
agora, acho que não acertaria nem com a minha rua. Tudo acabou: as
casas, os jardins, as árvores. É como se eu não tivesse tido
infância…
Falta-lhe
uma base física para a saudade. Tudo o que parecia eterno sumiu.
Outra
senhora disse então que se lembrava muito de que, quando era menina,
apanhava pitangas em Copacabana; depois, já moça, colhia pitangas
na Barra da Tijuca; e hoje não há mais pitangas. Disse isso com uma
certa animação, e depois ficou um instante com o ar meio triste —
a melancolia de não ter mais pitangas, ou, quem sabe, a saudade
daquela manhã em que foi com o namorado colher pitangas.
Também
em minha infância há pitangueiras de praia. Não baixinhas, em
moitas, como aquelas de Cabo Frio, que o vento não deixa crescer;
mas altas; e suas copas se tocavam e faziam uma sombra varada por
pequenos pontos de sol. O que foi dito em um soneto lido na
adolescência (acho que o soneto é de B. Lopes) “onde o sol bordava a
pino, sobre a areia, um crivo de ouro num cendal de prata”, o que
pode ser um tanto precioso mas é lindo, mesmo a gente não sabendo o
que é cendal. Nesse soneto havia um bando alegre de gente moça —
esqueci as palavras, mas me lembro que as moças colhiam pitangas e
os rapazes, namoradas.
E
lembrei-me de meu espanto de menino quando ouvi dizer que uma família
conhecida nossa, de Cachoeiro, estava querendo vender a casa.
Vender
a casa... Casa, para mim, era alguma coisa que fazia parte da própria
família, algo que existia desde sempre e para sempre com a mesma
família. Fiz uma pergunta ingênua e alguém respondeu: “É, eles
vão vender a casa porque vão-se mudar para Minas.”
Fiquei
quieto, mas também não entendi. Como é que uma família que mora
em uma casa, em uma rua, em uma cidade, pensava eu confusamente no
íntimo, pode mudar para outra? Aquilo me parecia contra a ordem
natural das coisas.
Também
me lembro de achar estranho que casas pudessem ser alugadas. Mas
também me lembro de que a primeira vez que tive notícia da
existência de edifícios de apartamentos, com umas pessoas morando
em cima das outras e sem precisar subir escada porque havia elevador,
achei a ideia genial, e pensei comigo mesmo: “Eu vou querer morar
no último andar.” Mas pensei, confesso, sem nenhuma esperança,
como quem pensa em fazer uma coisa que deve ser boa mas, com certeza,
a gente mesmo não vai fazer, como, por exemplo, andar de balão.
Como um menino pobre pensa em ser rei.
Rubem Braga, in A traição das elegantes
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