Em
9 de maio de 1971 a cavalaria do exército confederado atravessou o
rio Tennessee sob o comando do general James Stuart, que ato contínuo
apontou seus canhões contra o forte Anderson. Chamei o Luiz Haroldo
para assistir ao ataque final, mas ele estava de castigo e não pôde
vir. Quando veio, dias depois, a investida da infantaria era na
Bélgica e durou menos de quinze minutos. Tive de acelerar o avanço
das tropas alemãs, porque o Luiz Haroldo estava impaciente,
ultimamente só queria saber de futebol. De qualquer modo ele não me
faria tanta falta, porque com o tempo aprendi a guerrear sozinho. No
começo ele trazia suas Forças Armadas para passarmos tardes
inteiras no meu quarto, só não ficava para o jantar porque achava a
comida da minha mãe muito ruim. Quando ela estava para servir a mesa
ele recolhia as brigadas num estojo antigo de madeira, não sem antes
cheirar e limpar com flanela as peças que eu tinha manejado. Uma
vez, no meio de uma fuzilaria, escondi debaixo do travesseiro um
tenente da Legião Estrangeira para passar a noite comigo. Como o
Luiz Haroldo não deu por falta do tenente, no dia seguinte roubei um
general, depois um centurião, depois um jipe, e eu já possuía
quase um pelotão quando minha mãe me flagrou invadindo a Normandia
debaixo do lençol. Talvez por estar num mau dia, ela foi me delatar
ao meu pai, logo ela que em brigas de casal volta e meia o chamava de
otário; meu pai se gabava de, em trinta anos de carreira militar,
nunca ter se locupletado, nem um cigarro de um subalterno jamais
filou. Por isso ele me arrancou da cama, me xingou de escroque e
ladravaz, me deu quatro tapas na cara e dois murros na boca, me
passou uma rasteira na perna boa e me fez cair com o queixo na quina
da mesa, fazendo jorrar sangue e me deixando uma cicatriz. Não sei
se por sugestão da minha mãe, ou por sincero arrependimento, no dia
seguinte ele me deu de presente uma caixa de cartolina com seis
soldados. Mas eram uns bonecos do Exército brasileiro, muito
mequetrefes, chumbados num pedestal de madeira, um deles tocando
corneta, outro batendo continência.
Pouco
depois desse incidente as visitas do Luiz Haroldo foram se espaçando.
Cansei de lhe telefonar para vir em casa, a poucas quadras da sua,
mas ele dizia que a distância era a mesma. Queria com isso dizer
que, em vez de ele caminhar meia hora carregando um estojo pesado,
fazia mais sentido eu ir ao seu encontro de mãos abanando. O Luiz
Haroldo às vezes se fazia de bobo, sabia muito bem que minha mãe
não me deixava atravessar a rua, temendo que eu morresse atropelado
com minhas muletas. Minha mãe tinha medo de tudo; instalou em casa
uma porta blindada, além de grades nas janelas como as de uma cadeia
e eletrificação no muro que nem o de Berlim. Em frente de casa me
fazia passar vergonha, me dava a mão sem necessidade para eu subir e
descer do ônibus escolar. Só permitia que eu saísse sozinho para
dar a volta no quarteirão, e assim mesmo me seguia alguns passos
atrás. Exceto pela parada na sorveteria da esquina, não me
agradavam esses passeios, as outras crianças faziam comentários.
Para ser chamado de manquitó, eu preferia ficar em casa e me
distrair com palitos de fósforo que simulavam soldados de chumbo.
Minha mãe tinha um pouco de pena de mim, e um dia no clube contou ao
pai do Luiz Haroldo da minha paixão por soldados de chumbo, na
esperança de que ele me emprestasse a coleção que o filho
abandonara no fundo do armário. Mas o major fez mais: numa de suas
viagens internacionais comprou para mim um jogo com duzentas peças
de estanho, mais modernas e realistas que as de chumbo: em 21 de
julho de 1970, ao pé das pirâmides, as tropas de Napoleão
desbarataram o exército de mamelucos, derrubando todos os cavalos e
avançando rumo ao Cairo.
Os
pais do Luiz Haroldo e os meus, que se viam esporadicamente no Clube
Militar, ficaram mais próximos por ocasião da minha poliomielite. A
mãe dele, em especial, chegava em nossa casa de manhã cedo, me
trazia umas balas de hortelã e passava os dias sentada a cochichar
com minha mãe num canto do quarto. O Luiz Haroldo vinha depois das
aulas, se sentava na minha cama e com um pouco de nojo roçava o dedo
na minha perna paralítica. Nos fins de semana o pai dele aparecia
para um uísque com meu pai e os dois casais ficavam até tarde
jogando canastra. Posso dizer que, mesmo de cama, foi esse o período
mais feliz da minha infância, por causa de todo o movimento lá em
casa e sobretudo porque foi então que o Luiz Haroldo me apresentou
seus soldados. Também me enrabichei pela fisioterapeuta, que me
lembrava a miniatura da enfermeira da Cruz Vermelha, e não tardei a
dar meus primeiros passos no andador até me adaptar à muleta.
Passada a convalescença, foi mais penoso me adaptar ao silêncio na
falta dos médicos, da fisioterapeuta e mesmo da mãe do Luiz
Haroldo, que parou de nos visitar, embora o marido não dispensasse o
uísque com meu pai. Mais tarde, ele passou a vir mesmo nas noites em
que meu pai dava plantão no quartel, e antes de dormir eu vinha
cumprimentar os dois, tentando me enxerir um pouco nos assuntos
deles. Assim eu soube que era ele, o major, quem delegava ao capitão,
meu pai, missões especiais que deveriam nos orgulhar, à minha mãe
e a mim. Era uma tarefa dura e perigosa, porque ele enfrentava um
inimigo traiçoeiro, e aqui não estávamos falando de soldados de
chumbo. Pelo que pude depreender, meu pai lidava com prisioneiros de
guerra, criminosos que tinham sangue de verdade nas mãos. Tamanha
tensão devia mexer com seus nervos, pois ele voltava para casa com a
mandíbula travada e sem mais nem menos pegava a bater na minha mãe.
Acho que batia com mais força por lhe dar razão, pois assumia aos
berros ser de fato um grande otário. Nesses rompantes, também me
parecia que ele tinha alguma bronca do pai do Luiz Haroldo, seu
colega de academia e de caserna, que era condecorado sem disparar um
tiro, era destacado para missões secretas no exterior e em breve
seria promovido a tenente-coronel, enquanto ele marcava passo na
carreira, fazendo o serviço sujo nos porões. Quando o major chegava
para o uísque, porém, ele lhe trazia o balde de gelo, lhe oferecia
a poltrona de veludo e um pufe para esticar as pernas.
É
possível que tais maledicências tenham chegado aos ouvidos do
major. Sem explicações ele deixou de vir tomar seu uísque com meu
pai, o que não o impedia de ver minha mãe toda semana. O Luiz
Haroldo deve ter precavido o pai contra a comida da casa, pois nessas
visitas ele mandava vir jantares e vinhos de bons restaurantes. Eu
também me servia dessas iguarias, com exceção do vinho e dos
queijos mofados, e ficava por ali até minha mãe me mandar para a
cama. Sempre peguei no sono com facilidade, mas numa madrugada dessas
acordei com câimbras na perna atrofiada e fui pedir uma massagem à
minha mãe. Diante da porta dela, parei a tempo; a voz sussurrada que
vinha lá de dentro era do major e a respiração era da minha mãe.
Havia umas pausas, aqui e ali uma risada contida, depois novamente os
sussurros do major com menções elogiosas ao meu pai: o senso do
dever, a disciplina, o respeito à hierarquia, o patriotismo, a
honestidade a toda prova. Depois de novas risadinhas dos dois, o
major citava o prestígio que meu pai gozava entre os subordinados. A
todo o oficialato ele se impunha pelo exemplo, como ao sacrificar
suas horas de repouso e lazer no recesso do lar para se ocupar dos
seus prisioneiros noite adentro. O major explicava à minha mãe que
esses delinquentes, tanto homens quanto mulheres, ficavam horas
pendurados numa barra de ferro, mais ou menos como frangos no espeto.
Daí meu pai ensinava à sua equipe como introduzir adequadamente
objetos naquelas criaturas. Ele enfiava objetos no ânus e na vagina
dos prisioneiros, e aquelas palavras eu não conhecia, mas
adivinhava, se não pelo sentido, pela sonoridade: não podia ser
mais feminina a palavra vagina, enquanto ânus soava a algo mais
soturno. Em seguida o major e minha mãe foram se aquietando, e eu
escutava apenas o arfar dos dois, depois a voz gemente da minha mãe
a falar ânus, vagina, ânus, vagina. Voltei ao meu quarto, porque já
estava bom das câimbras, mas senti que naquela noite não ia mais
dormir: em 5 de agosto de 1972, na Namíbia, o general alemão Lothar
von Trotha dizimou os negros hererós na Batalha de Waterberg.
Após
uma batalha cruenta, nem sempre eu tinha paciência para cuidar dos
feridos, que dirá dos mortos espalhados debaixo da minha cama. Só
naquele fim de tarde me dei conta dos ossos do ofício de um
verdadeiro comandante como o meu pai, que chegou em casa inconformado
e se fechou com minha mãe no quarto. Pensei que ele fosse bater
nela, mas não, vinha se queixar da traição do seu melhor amigo.
Parece que o major havia proposto ao Alto-Comando uma série de
medidas que reduziriam bastante o número de prisioneiros sob a
guarda do meu pai. Tratava-se de um plano ultraconfidencial, mas o
meu pai não fazia questão de moderar o tom de voz. Ele jamais
suspeitaria que eu fosse dado à espionagem, nem que seus assuntos
fossem interessantes ou inteligíveis para uma criança. Estava
enganado, mas na verdade, como eu não dava de comer aos meus
soldados, nunca parei para pensar em que medida as diligências do
meu pai oneravam o orçamento do Estado. Agora, pelo que entendi, o
major defendia uma drástica redução das despesas com alimentação,
vestuário e atendimento médico dos detentos. Para tanto, meu pai
deveria se ater aos interrogatórios efetivamente úteis aos serviços
de inteligência. Não havia por que gastar tempo e recursos com
prisioneiros inflexíveis, como que feitos de estanho, nem com
aqueles que já tinham dado o que tinham para dar, os que
enlouqueceram, os que viraram zumbis. Eram todos velhos conhecidos do
meu pai, que tinha como que se afeiçoado ao sofrimento deles. Mas
caso a Aeronáutica fechasse o acordo, aquelas criaturas seriam
jogadas de avião em alto-mar, e essa parte não sei se entendi bem.
Minha mãe deu um suspiro e procurou consolar o marido, lembrando-o
de quanto ele era admirado no oficialato pelo senso do dever, a
disciplina, o respeito à hierarquia, o patriotismo, a honestidade a
toda prova.
Em
30 de abril de 1973 a expedição do general Custer tomou de assalto
a aldeia dos Sioux, e a fim de imitar as cabanas dos índios montei
vários cones com guardanapos de papel. Risquei uns fósforos, e o
fogo nas cabanas cresceu mais do que eu previa, criando um efeito
formidável. Só que as chamas pegaram numa franja da colcha e
começaram a se alastrar, me obrigando a buscar um cobertor no
armário para abafar o fogaréu. O cobertor também se inflamou, meu
quarto se encheu de fumaça e ainda bem que meus pais tinham
adormecido, senão eu ia apanhar na certa. Passei correndo pela sala,
abri a porta blindada da rua e não sei o que tinha na cabeça quando
a tranquei por fora. Pensei em ir à casa do Luiz Haroldo, mas já
estava escuro, o trânsito era intenso e tive medo de atravessar a
rua. Fui à sorveteria, e chupando um picolé de limão virei à
esquerda, e de novo à esquerda, de novo e de novo, e quando
completei a volta no quarteirão, minha casa inteira pegava fogo. As
labaredas lambiam as cortinas, e contra o fundo flamejante da sala de
visitas julgo ter visto a silhueta dos meus pais agarrados nas grades
das janelas. Ainda ouvi a sirene dos bombeiros, que ficaram presos no
trânsito e chegaram tarde demais.
Chico Buarque, in Anos de chumbo e outros contos
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