sexta-feira, 18 de novembro de 2022

Anos de chumbo

Em 9 de maio de 1971 a cavalaria do exército confederado atravessou o rio Tennessee sob o comando do general James Stuart, que ato contínuo apontou seus canhões contra o forte Anderson. Chamei o Luiz Haroldo para assistir ao ataque final, mas ele estava de castigo e não pôde vir. Quando veio, dias depois, a investida da infantaria era na Bélgica e durou menos de quinze minutos. Tive de acelerar o avanço das tropas alemãs, porque o Luiz Haroldo estava impaciente, ultimamente só queria saber de futebol. De qualquer modo ele não me faria tanta falta, porque com o tempo aprendi a guerrear sozinho. No começo ele trazia suas Forças Armadas para passarmos tardes inteiras no meu quarto, só não ficava para o jantar porque achava a comida da minha mãe muito ruim. Quando ela estava para servir a mesa ele recolhia as brigadas num estojo antigo de madeira, não sem antes cheirar e limpar com flanela as peças que eu tinha manejado. Uma vez, no meio de uma fuzilaria, escondi debaixo do travesseiro um tenente da Legião Estrangeira para passar a noite comigo. Como o Luiz Haroldo não deu por falta do tenente, no dia seguinte roubei um general, depois um centurião, depois um jipe, e eu já possuía quase um pelotão quando minha mãe me flagrou invadindo a Normandia debaixo do lençol. Talvez por estar num mau dia, ela foi me delatar ao meu pai, logo ela que em brigas de casal volta e meia o chamava de otário; meu pai se gabava de, em trinta anos de carreira militar, nunca ter se locupletado, nem um cigarro de um subalterno jamais filou. Por isso ele me arrancou da cama, me xingou de escroque e ladravaz, me deu quatro tapas na cara e dois murros na boca, me passou uma rasteira na perna boa e me fez cair com o queixo na quina da mesa, fazendo jorrar sangue e me deixando uma cicatriz. Não sei se por sugestão da minha mãe, ou por sincero arrependimento, no dia seguinte ele me deu de presente uma caixa de cartolina com seis soldados. Mas eram uns bonecos do Exército brasileiro, muito mequetrefes, chumbados num pedestal de madeira, um deles tocando corneta, outro batendo continência.
Pouco depois desse incidente as visitas do Luiz Haroldo foram se espaçando. Cansei de lhe telefonar para vir em casa, a poucas quadras da sua, mas ele dizia que a distância era a mesma. Queria com isso dizer que, em vez de ele caminhar meia hora carregando um estojo pesado, fazia mais sentido eu ir ao seu encontro de mãos abanando. O Luiz Haroldo às vezes se fazia de bobo, sabia muito bem que minha mãe não me deixava atravessar a rua, temendo que eu morresse atropelado com minhas muletas. Minha mãe tinha medo de tudo; instalou em casa uma porta blindada, além de grades nas janelas como as de uma cadeia e eletrificação no muro que nem o de Berlim. Em frente de casa me fazia passar vergonha, me dava a mão sem necessidade para eu subir e descer do ônibus escolar. Só permitia que eu saísse sozinho para dar a volta no quarteirão, e assim mesmo me seguia alguns passos atrás. Exceto pela parada na sorveteria da esquina, não me agradavam esses passeios, as outras crianças faziam comentários. Para ser chamado de manquitó, eu preferia ficar em casa e me distrair com palitos de fósforo que simulavam soldados de chumbo. Minha mãe tinha um pouco de pena de mim, e um dia no clube contou ao pai do Luiz Haroldo da minha paixão por soldados de chumbo, na esperança de que ele me emprestasse a coleção que o filho abandonara no fundo do armário. Mas o major fez mais: numa de suas viagens internacionais comprou para mim um jogo com duzentas peças de estanho, mais modernas e realistas que as de chumbo: em 21 de julho de 1970, ao pé das pirâmides, as tropas de Napoleão desbarataram o exército de mamelucos, derrubando todos os cavalos e avançando rumo ao Cairo.
Os pais do Luiz Haroldo e os meus, que se viam esporadicamente no Clube Militar, ficaram mais próximos por ocasião da minha poliomielite. A mãe dele, em especial, chegava em nossa casa de manhã cedo, me trazia umas balas de hortelã e passava os dias sentada a cochichar com minha mãe num canto do quarto. O Luiz Haroldo vinha depois das aulas, se sentava na minha cama e com um pouco de nojo roçava o dedo na minha perna paralítica. Nos fins de semana o pai dele aparecia para um uísque com meu pai e os dois casais ficavam até tarde jogando canastra. Posso dizer que, mesmo de cama, foi esse o período mais feliz da minha infância, por causa de todo o movimento lá em casa e sobretudo porque foi então que o Luiz Haroldo me apresentou seus soldados. Também me enrabichei pela fisioterapeuta, que me lembrava a miniatura da enfermeira da Cruz Vermelha, e não tardei a dar meus primeiros passos no andador até me adaptar à muleta. Passada a convalescença, foi mais penoso me adaptar ao silêncio na falta dos médicos, da fisioterapeuta e mesmo da mãe do Luiz Haroldo, que parou de nos visitar, embora o marido não dispensasse o uísque com meu pai. Mais tarde, ele passou a vir mesmo nas noites em que meu pai dava plantão no quartel, e antes de dormir eu vinha cumprimentar os dois, tentando me enxerir um pouco nos assuntos deles. Assim eu soube que era ele, o major, quem delegava ao capitão, meu pai, missões especiais que deveriam nos orgulhar, à minha mãe e a mim. Era uma tarefa dura e perigosa, porque ele enfrentava um inimigo traiçoeiro, e aqui não estávamos falando de soldados de chumbo. Pelo que pude depreender, meu pai lidava com prisioneiros de guerra, criminosos que tinham sangue de verdade nas mãos. Tamanha tensão devia mexer com seus nervos, pois ele voltava para casa com a mandíbula travada e sem mais nem menos pegava a bater na minha mãe. Acho que batia com mais força por lhe dar razão, pois assumia aos berros ser de fato um grande otário. Nesses rompantes, também me parecia que ele tinha alguma bronca do pai do Luiz Haroldo, seu colega de academia e de caserna, que era condecorado sem disparar um tiro, era destacado para missões secretas no exterior e em breve seria promovido a tenente-coronel, enquanto ele marcava passo na carreira, fazendo o serviço sujo nos porões. Quando o major chegava para o uísque, porém, ele lhe trazia o balde de gelo, lhe oferecia a poltrona de veludo e um pufe para esticar as pernas.
É possível que tais maledicências tenham chegado aos ouvidos do major. Sem explicações ele deixou de vir tomar seu uísque com meu pai, o que não o impedia de ver minha mãe toda semana. O Luiz Haroldo deve ter precavido o pai contra a comida da casa, pois nessas visitas ele mandava vir jantares e vinhos de bons restaurantes. Eu também me servia dessas iguarias, com exceção do vinho e dos queijos mofados, e ficava por ali até minha mãe me mandar para a cama. Sempre peguei no sono com facilidade, mas numa madrugada dessas acordei com câimbras na perna atrofiada e fui pedir uma massagem à minha mãe. Diante da porta dela, parei a tempo; a voz sussurrada que vinha lá de dentro era do major e a respiração era da minha mãe. Havia umas pausas, aqui e ali uma risada contida, depois novamente os sussurros do major com menções elogiosas ao meu pai: o senso do dever, a disciplina, o respeito à hierarquia, o patriotismo, a honestidade a toda prova. Depois de novas risadinhas dos dois, o major citava o prestígio que meu pai gozava entre os subordinados. A todo o oficialato ele se impunha pelo exemplo, como ao sacrificar suas horas de repouso e lazer no recesso do lar para se ocupar dos seus prisioneiros noite adentro. O major explicava à minha mãe que esses delinquentes, tanto homens quanto mulheres, ficavam horas pendurados numa barra de ferro, mais ou menos como frangos no espeto. Daí meu pai ensinava à sua equipe como introduzir adequadamente objetos naquelas criaturas. Ele enfiava objetos no ânus e na vagina dos prisioneiros, e aquelas palavras eu não conhecia, mas adivinhava, se não pelo sentido, pela sonoridade: não podia ser mais feminina a palavra vagina, enquanto ânus soava a algo mais soturno. Em seguida o major e minha mãe foram se aquietando, e eu escutava apenas o arfar dos dois, depois a voz gemente da minha mãe a falar ânus, vagina, ânus, vagina. Voltei ao meu quarto, porque já estava bom das câimbras, mas senti que naquela noite não ia mais dormir: em 5 de agosto de 1972, na Namíbia, o general alemão Lothar von Trotha dizimou os negros hererós na Batalha de Waterberg.
Após uma batalha cruenta, nem sempre eu tinha paciência para cuidar dos feridos, que dirá dos mortos espalhados debaixo da minha cama. Só naquele fim de tarde me dei conta dos ossos do ofício de um verdadeiro comandante como o meu pai, que chegou em casa inconformado e se fechou com minha mãe no quarto. Pensei que ele fosse bater nela, mas não, vinha se queixar da traição do seu melhor amigo. Parece que o major havia proposto ao Alto-Comando uma série de medidas que reduziriam bastante o número de prisioneiros sob a guarda do meu pai. Tratava-se de um plano ultraconfidencial, mas o meu pai não fazia questão de moderar o tom de voz. Ele jamais suspeitaria que eu fosse dado à espionagem, nem que seus assuntos fossem interessantes ou inteligíveis para uma criança. Estava enganado, mas na verdade, como eu não dava de comer aos meus soldados, nunca parei para pensar em que medida as diligências do meu pai oneravam o orçamento do Estado. Agora, pelo que entendi, o major defendia uma drástica redução das despesas com alimentação, vestuário e atendimento médico dos detentos. Para tanto, meu pai deveria se ater aos interrogatórios efetivamente úteis aos serviços de inteligência. Não havia por que gastar tempo e recursos com prisioneiros inflexíveis, como que feitos de estanho, nem com aqueles que já tinham dado o que tinham para dar, os que enlouqueceram, os que viraram zumbis. Eram todos velhos conhecidos do meu pai, que tinha como que se afeiçoado ao sofrimento deles. Mas caso a Aeronáutica fechasse o acordo, aquelas criaturas seriam jogadas de avião em alto-mar, e essa parte não sei se entendi bem. Minha mãe deu um suspiro e procurou consolar o marido, lembrando-o de quanto ele era admirado no oficialato pelo senso do dever, a disciplina, o respeito à hierarquia, o patriotismo, a honestidade a toda prova.
Em 30 de abril de 1973 a expedição do general Custer tomou de assalto a aldeia dos Sioux, e a fim de imitar as cabanas dos índios montei vários cones com guardanapos de papel. Risquei uns fósforos, e o fogo nas cabanas cresceu mais do que eu previa, criando um efeito formidável. Só que as chamas pegaram numa franja da colcha e começaram a se alastrar, me obrigando a buscar um cobertor no armário para abafar o fogaréu. O cobertor também se inflamou, meu quarto se encheu de fumaça e ainda bem que meus pais tinham adormecido, senão eu ia apanhar na certa. Passei correndo pela sala, abri a porta blindada da rua e não sei o que tinha na cabeça quando a tranquei por fora. Pensei em ir à casa do Luiz Haroldo, mas já estava escuro, o trânsito era intenso e tive medo de atravessar a rua. Fui à sorveteria, e chupando um picolé de limão virei à esquerda, e de novo à esquerda, de novo e de novo, e quando completei a volta no quarteirão, minha casa inteira pegava fogo. As labaredas lambiam as cortinas, e contra o fundo flamejante da sala de visitas julgo ter visto a silhueta dos meus pais agarrados nas grades das janelas. Ainda ouvi a sirene dos bombeiros, que ficaram presos no trânsito e chegaram tarde demais.

Chico Buarque, in Anos de chumbo e outros contos

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