terça-feira, 30 de agosto de 2022

História real (Outubro de 2013)

A primeira vez que eu fumei maconha foi no aterro do Flamengo, depois de uma pelada. Éramos quatro pernas de pau do liceu francês. Perdemos de muito a zero. Sentamos debaixo de uma árvore e o Marcio apertou (mal) um baseado pra atenuar a derrota. “Tomamos um esculacho.” O esculacho maior estava por vir. O beque mal apertado ainda não tinha dado uma volta completa quando brotaram, do nada, dois PMs trincados: “Cadê o flagrante?”. O flagrante, a essas alturas, estava longe. Bruno tinha isolado o beque pro mato. O PM bom disse que se a gente não achasse o tal flagrante eles levariam a gente para Bangu 2, onde “bandidos comeriam o nosso cu”. Argumentei, me sentindo Mel Gibson em Coração Valente, que, se eles não achassem o flagrante, não haveria prisão, porque só pode haver prisão com flagrante. E que nós éramos menores de idade e não iríamos pra Bangu.
Mas esta última frase eu não cheguei a dizer, porque o PM mau me deu um soco no peito e eu fui parar no chão. Se eu fosse Mel Gibson, teria revidado. Se eu fosse Mel Gibson, eu estava morto. A sorte é que eu não sou Mel Gibson e a garganta apertou. Comecei a chorar. Bruno, Marcio e Antonio, que tampouco eram Mel Gibson, começaram a procurar o flagrante no chão, de quatro. Acharam. Pronto, não tinha mais o que fazer. Ou melhor: tinha. Esvaziamos nossas carteiras, que, juntas, deram dez reais. Naquela época, o ônibus custava noventa centavos. Achamos dez reais, era uma fortuna. O PM mau não achou. Marcio disse que morava ali perto.
Eles ficaram com a nossa carteira de identidade, pra gente não sumir (“Retenção de documentos não é crime?”, teria dito Mel Gibson). A mãe do Marcio estava vendo TV na sala da casa dele. Atravessamos cabisbaixos. “Boa noite, mãe.” Saímos do quarto dele com uma mochila pesada, e dentro dela tudo o que o Marcio tinha de mais valioso na vida: uma nota de cinquenta reais, um PlayStation velho, meia dúzia de jogos de PlayStation, um videocassete, algumas fitas de VHS, os controles do PlayStation. “A gente já volta, mãe.” Deixamos a mochila na viatura, com muita dor e vergonha. No dia seguinte, rachamos o prejuízo: uns duzentos reais pra cada um. E uma raiva que eu iria levar pra vida.

Gregório Duvivier, in Put some farofa

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