sábado, 4 de junho de 2022

450 quilos

Eric Knowles acordou no quarto de motel e olhou em volta. Lá estavam Louie e Gloria agarrados na outra metade da cama tamanho família. Eric encontrou uma garrafa de cerveja quente, abriu-a, levou-a para o banheiro e tomou-a debaixo do chuveiro. Sentiu-se enjoado como o diabo. Já ouvira os especialistas falarem em cerveja quente. Não dava certo. Saiu do chuveiro e vomitou no toalete. Depois voltou para debaixo do chuveiro. Esse era o problema de ser escritor, o problema principal – ócio, ócio demais. A gente tinha de esperar que a coisa crescesse até poder escrever, e enquanto esperava ficava doido, e enquanto ficava doido bebia, e quanto mais bebia, mais doido ficava. Não havia nada de glorioso na vida de um escritor nem na vida de um bebedor. Eric enxugou-se com a toalha, enfiou a cueca e saiu para o outro quarto. Louie e Gloria acordavam.
Ah, merda – disse Louie –, deus do céu.
Louie era outro escritor. Não pagava o aluguel com isso, mas Gloria pagava, Gloria pagava o aluguel de Louie. Três quartos dos escritores que Eric conhecia em Los Angeles e Hollywood eram sustentados por mulheres; eles não eram tão talentosos com a máquina de escrever como eram com suas mulheres. Vendiam-se às suas mulheres, espiritual e fisicamente.
Ele ouviu Louie vomitando no banheiro, e ouvir isso o fez começar de novo. Pegou uma sacola de papel, e toda vez que Louie vomitava, ele vomitava. Uma estreita harmonia.
Gloria era mais ou menos legal. Acabara de arranjar um emprego como professora assistente numa universidade do norte da Califórnia. Ela esticou-se na cama e disse:
Caras, vocês são uma coisa mesmo. Os gêmeos do vômito.
Louie saiu do banheiro.
Ei, está me gozando?
De jeito nenhum, garoto. Só que foi uma noite braba pra mim.
Foi uma noite braba pra todos nós.
Acho que vou tentar o tratamento da cerveja quente de novo – disse Eric. Torceu a tampa da garrafa e tentou de novo.
Foi um barato, o jeito que você a dominou – disse Louie.
Que quer dizer?
Quer dizer, quando ela se aproximou de você por cima da mesinha de café, você fez tudo em câmera lenta. Não estava nem excitado. Simplesmente pegou ela por um dos braços, depois pelo outro, e virou ela. Depois montou e disse: “Que diabos está acontecendo com você?”
Esta cerveja está funcionando – disse Eric. – Você devia experimentar.
Louie torceu a tampa de uma garrafa e se sentou na borda da cama. Ele editava uma revistinha, Motim dos Ratos. Mimeografada. Como revistinha, não era melhor nem pior que o resto. Todas acabavam ficando muito chatas; o talento era ralo e inconsistente. Louie já estava no 15o ou 16o número.
A casa era dela – disse Louie, pensando na noite passada. – Ela disse que a casa era dela, e que a gente se mandasse.
Opiniões e ideais divergentes. Sempre causam problemas, e sempre há opiniões e ideais divergentes. Além disso, era a casa dela – disse Eric.
Acho que vou experimentar uma cerveja dessas – disse Gloria.
Levantou-se, vestiu-se e pegou uma cerveja quente. Professora bonitona, pensou Eric.
Ficaram ali sentados, tentando forçar a cerveja a descer.
Alguém quer ver televisão? – perguntou Louie.
Não se atreva – disse Gloria.
De repente, houve uma enorme explosão, as paredes estremeceram.
Nossa! – disse Eric.
Que foi isso? – perguntou Gloria.
Louie foi até a porta e abriu-a. Estavam no segundo andar. Havia uma sacada, e o hotel era construído em torno de uma piscina. Louie olhou para baixo.
Vocês não vão acreditar, mas tem um cara de uns duzentos e cinquenta quilos lá embaixo na piscina. A explosão que ouviram foi quando ele caiu na água. Nunca vi um cara tão grande. É enorme. E está com alguém, de uns duzentos quilos. Parece filho dele. O filho vai pular. Aguentem!
Houve outra explosão. As paredes voltaram a tremer. Fontes de água saltaram da piscina.
Agora estão nadando lado a lado. Que espetáculo!
Eric e Louie foram até a porta e olharam.
É uma situação perigosa – disse Eric.
Que quer dizer?
Quer dizer, olhando toda aquela gordura lá embaixo, a gente pode gritar alguma coisa pra eles. Coisa infantil, você sabe. Mas numa ressaca dessas, qualquer coisa pode acontecer.
E eu já vejo eles correndo cá pra cima e batendo na porta – disse Louie. – Como vamos controlar quase meia tonelada?
Não tem como, mesmo em boa forma.
Em má forma, nem pensar.
Certo.
EI, GORDUCHO! – Louie gritou para baixo.
Oh, não – disse Eric. – Oh, não, por favor. Vou vomitar...
Os dois gordos olharam para cima, da piscina. Usavam calções azuis claros.
Ei, gorducho! – gritou Louie. – Aposto que, se você peidasse, ia espalhar sargaço daqui até as Bermudas!
Louie – disse Eric –, não tem sargaço lá embaixo.
Não tem sargaço aí embaixo, gorducho! – berrou Louie. – Você deve ter sugado tudo com o rabo!
Oh, meu deus – disse Eric –, eu sou escritor porque sou covarde, e agora me vejo diante da morte súbita e violenta.
O homem maior saiu da piscina e o menor acompanhou-o. Eles os ouviram subindo a escada, plo-co-tó, plo-co-tó, plo-co-tó. As paredes tremiam.
Louie fechou a porta e passou a corrente.
Que é que tudo isso tem a ver com uma literatura decente e duradoura? – perguntou Eric.
Nada, imagino – respondeu Louie.
Você e a porra de sua revistinha mimeografada – disse Eric.
Estou com medo – disse Gloria.
Estamos todos – disse Louie.
E então eles estavam na porta. BAM, BAM, BAM, BAM!
Sim? – respondeu Louie. – Que é?
Abram a porra dessa porta!
Não tem ninguém aqui – disse Eric.
Vou ensinar a vocês, seus filhos da puta!
Oh, por favor, ensine a mim, senhor! – disse Eric.
Ora, por que você disse isso? – perguntou Gloria.
Porra – disse Eric –, só estou querendo concordar com ele.
Abram ou eu arrombo!
É melhor deixar você fazer o esforço – disse Louie. – Vamos ver o que pode fazer.
Ouviram o som de carne forçando a porta. Viram a porta curvar-se e ceder.
Você e a porra do seu mimeógrafo – disse Eric.
Era uma boa máquina.
Me ajuda a escorar a porta – disse Eric.
Ficaram escorando a porta contra o peso maciço. A porta enfraquecia. Então ouviram outra voz.
Ei, que diabos está acontecendo aqui?
Vou dar uma lição nesses vagabundos, é isso que está acontecendo.
Se você arrombar essa porta, eu chamo a polícia!
Quê?
Houve mais um baque, depois silêncio. A não ser pelas vozes.
Estou em condicional por agressão e espancamento. Talvez seja melhor esfriar um pouco.
É, esfria, não vai querer machucar ninguém.
Mas eles estragaram meu banho de piscina.
Têm coisas mais importantes que nadar, cara.
É, comer, por exemplo – disse Louie, do outro lado da porta.
BAM! BAM! BAM! BAM!
Que é que você quer? – perguntou Eric.
Escutem, caras! Se eu ouvir mais um som de vocês, só um som, eu vou entrar!
Eric e Louie ficaram calados. Ouviram os dois gordos descendo a escada.
Acho que a gente podia ter enfrentado eles – disse Eric.
Esses caras gordos não se movem. São fáceis.
É – disse Louie –, acho que a gente podia ter enfrentado eles. Quer dizer, se a gente quisesse mesmo.
Estamos sem cerveja – disse Gloria. – Eu sem dúvida preciso de uma cerveja gelada. Estou com os nervos em pedaços.
Tudo bem – disse Eric –, saia e vá buscar as cervejas, eu pago.
Não – disse Louie –, você vai buscar, eu pago.
Eu pago – disse Eric –, e a gente manda Gloria.
Tudo bem – disse Louie.
Eric deu o dinheiro e as instruções a Gloria e abriram a porta para ela sair. A piscina estava vazia. Era uma bela manhã da Califórnia, poluída, rançosa e apática.
Você e a porra do seu mimeógrafo – disse Eric.
É uma boa revista – disse Louie –, tão boa quanto a maioria.
Acho que tem razão.
E levantaram-se e sentaram-se, e sentaram-se e levantaram-se, esperando que Gloria voltasse com a cerveja gelada.

Charles Bukowski, in Numa Fria

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