O animal branco é o animal vazio, fera
sem sinal de espírito, máscara vocabular que deita a palavra do
mal, preda por ser torpe, dissimula e seduz, sua fealdade é
infecção, existe no mundo aos mil, certamente dez vezes mil,
semelhante aos sagrados abaeté mas torto, vocacionado para devorar e
matar, o branco não é alguém, imitador dos que soam, é o abismo
num corpo erguido e abeira para conter tudo quanto não lhe pertence,
o lugar e a carne dos outros, a paz e a fertilidade dos outros, os
que acordaram por eternidades seus compromissos para maturarem no
esplendor da criação, ele não permite a confiança, seus acordos
são a traição, a morte da gentileza. Sem intenção de maturar, a
fera branca é sem sentido. Deriva em suas navegações e assombra a
mata, azarando e solicitando a guerra aos que soam. Os que soam fazem
a guerra para que aquilo que é certo seja na mira da esperança. Os
desesperançados não são abaeté. O animal branco aconteceu de uma
zanga. Ele é o podre da zanga que não se conversa. É oposto ao
diálogo porque aquilo que entoa mente.
Nas ilhas dos três mares, pelas duas
aldeias, todos se alegraram com a notícia de que tombara um inimigo
e o dignificariam ao entardecer, como de hábito. Foi dada notícia e
imediatamente se escutaram as canoras alegrias, canções que ensinam
o rigor dos rituais, o mais firme das oferendas devidas.
Era um branco indiferente. Fogueava no
areal junto da piroga gigante, e seus companheiros cuspiram sobre os
abaeté o grito de ferro e partiram. Os abaeté viram partir a
navegação e o corpo inimigo sobrou tombado. Era morto. Fizeram a
tristeza gentil. Rodearam o animal e fizeram a tristeza. Depois,
chefiaram a tarefa de o carregar, enquanto mereciam a alegria.
Era entre o areal e a aldeia litoral a
Pedra que Soa, mas não se via por inteiro. Apenas os que haveriam de
ser escolhidos para a morte poderiam afirmar com certeza onde estava,
como era, seu tamanho e sua cor muito brilhante. Aos plenamente
vivos, ela mostrava um promontório pequeno onde pousavam certas aves
à pressa. Os abaeté jamais passariam sem um aceno, e alguém sempre
escutava sua Voz Coral.
Que entoou.
Perguntavam os outros.
A gratidão.
Respondia o intuitivo.
E mais caminhavam para abeirar o cerco da
aldeia, e destrinçavam a entrada escondida e propagava até ao pajé
a notícia de que voltavam em importante caça. O santo assomava ao
terreiro, junto ao coto da figueira, e orgulhava-se de seu bravo
povo. Levantava os braços e as penas gesticulavam num suave vento.
Era o ouvido da ancestralidade, nunca erraria entre o direito e o
torto. Sorriu primeiro, mas severo entoou:
comecem os rituais de abrigo. Jamais
ofenderemos a boca do inimigo, toca do espírito, não a faremos
esperar. Eduquemo-lo para a nossa encantaria, eduquemo-lo para a
nossa morte. Colham vossas pedras, agradeçam a lucidez. Juntem.
Acendam os fumos. Adornem os rostos. Alindem vossas peles para a paz.
A comunidade mais cantou.
Pai Todo se prostrou solicitando a Voz
Coral, e a ancestralidade foi entoando seus elogios ao povo,
explicando como convencera o sol a brilhar de novo, como resfolegavam
as águas pejadas de peixe, como sustentavam as aves no pouco vento a
liberdade prometida. A Voz Coral muito conversou com o santo
pacificado no chão, e a comunidade já dançando aumentava o alarido
e aguardava por saber que nome teria o inimigo. Que nome haveria de
abrir sobre seu corpo para o dignificar com um espírito que
aninhasse para sempre na encantaria abaeté.
À chegada do luar, incansável o povo, o
inimigo era dividido entre porcarias e bons pedaços, para organizar
sua morte conforme a sabedoria benigna. Os guerreiros traçavam os
cortes, as femininas traziam águas e faziam lavagens para expor o
triunfante galho ósseo que subiam nas mãos. Todos se alegravam. As
ilhas de três mares deitariam para dormir mais tarde, muito mais
tarde, em noites assim.
Havia os que decidiam suas duplas, os que
enamoravam justamente pela euforia, os que caçavam originalidades, a
entoar palavras que serviam apenas por imaginação, muito se
imaginava nas festas dos abaeté. E duravam as iluminações dos
fogos onde também se preparavam peixes e carnes, e onde se juntavam
até os curumins e as curatãs sem quererem dormir. Queriam ver tudo
e alegrar, queriam aprender as canções e sabiam-nas bem antes de
poderem significar seus sentidos. As femininas apressando para que os
transparentes deitassem no sono, os guerreiros apressando para que os
transparentes deitassem no sono. E usavam cada vez mais imaginação
e a euforia inventava exuberâncias. A comunidade inteira exuberava e
celebrava o guerreiro caçador, aquele que abatera o inimigo para
manter a graça pacífica do povo.
Pai Todo chefiou que mais levantassem os
fogos. As maiores folhas de palmeira ampararam o santo, seus
guerreiros mais tardios seguraram, quando ele solenemente entoou:
povo da Verdadeiríssima Divindade, nossa
sorte é o amor da mata. A mata encontrou o inimigo e o inimigo será
salvo.
Com aquelas palavras começavam as
canções.
Ansiosos, os abaeté preparavam a
comoção. Juntavam mãos, seguravam os filhos, muitos ajoelhavam,
careciam. Por tanto aguardarem o enternecimento comum, comoviam-se
alguns bem antes dos outros. Até que Pai Todo chefiava para a
comunidade chorar. E a comunidade chorava.
Tomavam suas flautas, era importante
abrir os pulmões, agradeciam. Os espíritos abeiravam e todos
intuíam com abundância. A ancestralidade era sempre presente.
Jamais abandonaria seus vivos dignos, belos, gentis, alegres.
Valter Hugo Mãe, in As doenças do Brasil
Nenhum comentário:
Postar um comentário