sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

O branco | Capítulo um


O animal branco é o animal vazio, fera sem sinal de espírito, máscara vocabular que deita a palavra do mal, preda por ser torpe, dissimula e seduz, sua fealdade é infecção, existe no mundo aos mil, certamente dez vezes mil, semelhante aos sagrados abaeté mas torto, vocacionado para devorar e matar, o branco não é alguém, imitador dos que soam, é o abismo num corpo erguido e abeira para conter tudo quanto não lhe pertence, o lugar e a carne dos outros, a paz e a fertilidade dos outros, os que acordaram por eternidades seus compromissos para maturarem no esplendor da criação, ele não permite a confiança, seus acordos são a traição, a morte da gentileza. Sem intenção de maturar, a fera branca é sem sentido. Deriva em suas navegações e assombra a mata, azarando e solicitando a guerra aos que soam. Os que soam fazem a guerra para que aquilo que é certo seja na mira da esperança. Os desesperançados não são abaeté. O animal branco aconteceu de uma zanga. Ele é o podre da zanga que não se conversa. É oposto ao diálogo porque aquilo que entoa mente.
Nas ilhas dos três mares, pelas duas aldeias, todos se alegraram com a notícia de que tombara um inimigo e o dignificariam ao entardecer, como de hábito. Foi dada notícia e imediatamente se escutaram as canoras alegrias, canções que ensinam o rigor dos rituais, o mais firme das oferendas devidas.
Era um branco indiferente. Fogueava no areal junto da piroga gigante, e seus companheiros cuspiram sobre os abaeté o grito de ferro e partiram. Os abaeté viram partir a navegação e o corpo inimigo sobrou tombado. Era morto. Fizeram a tristeza gentil. Rodearam o animal e fizeram a tristeza. Depois, chefiaram a tarefa de o carregar, enquanto mereciam a alegria.
Era entre o areal e a aldeia litoral a Pedra que Soa, mas não se via por inteiro. Apenas os que haveriam de ser escolhidos para a morte poderiam afirmar com certeza onde estava, como era, seu tamanho e sua cor muito brilhante. Aos plenamente vivos, ela mostrava um promontório pequeno onde pousavam certas aves à pressa. Os abaeté jamais passariam sem um aceno, e alguém sempre escutava sua Voz Coral.
Que entoou.
Perguntavam os outros.
A gratidão.
Respondia o intuitivo.
E mais caminhavam para abeirar o cerco da aldeia, e destrinçavam a entrada escondida e propagava até ao pajé a notícia de que voltavam em importante caça. O santo assomava ao terreiro, junto ao coto da figueira, e orgulhava-se de seu bravo povo. Levantava os braços e as penas gesticulavam num suave vento. Era o ouvido da ancestralidade, nunca erraria entre o direito e o torto. Sorriu primeiro, mas severo entoou:
comecem os rituais de abrigo. Jamais ofenderemos a boca do inimigo, toca do espírito, não a faremos esperar. Eduquemo-lo para a nossa encantaria, eduquemo-lo para a nossa morte. Colham vossas pedras, agradeçam a lucidez. Juntem. Acendam os fumos. Adornem os rostos. Alindem vossas peles para a paz.
A comunidade mais cantou.
Pai Todo se prostrou solicitando a Voz Coral, e a ancestralidade foi entoando seus elogios ao povo, explicando como convencera o sol a brilhar de novo, como resfolegavam as águas pejadas de peixe, como sustentavam as aves no pouco vento a liberdade prometida. A Voz Coral muito conversou com o santo pacificado no chão, e a comunidade já dançando aumentava o alarido e aguardava por saber que nome teria o inimigo. Que nome haveria de abrir sobre seu corpo para o dignificar com um espírito que aninhasse para sempre na encantaria abaeté.
À chegada do luar, incansável o povo, o inimigo era dividido entre porcarias e bons pedaços, para organizar sua morte conforme a sabedoria benigna. Os guerreiros traçavam os cortes, as femininas traziam águas e faziam lavagens para expor o triunfante galho ósseo que subiam nas mãos. Todos se alegravam. As ilhas de três mares deitariam para dormir mais tarde, muito mais tarde, em noites assim.
Havia os que decidiam suas duplas, os que enamoravam justamente pela euforia, os que caçavam originalidades, a entoar palavras que serviam apenas por imaginação, muito se imaginava nas festas dos abaeté. E duravam as iluminações dos fogos onde também se preparavam peixes e carnes, e onde se juntavam até os curumins e as curatãs sem quererem dormir. Queriam ver tudo e alegrar, queriam aprender as canções e sabiam-nas bem antes de poderem significar seus sentidos. As femininas apressando para que os transparentes deitassem no sono, os guerreiros apressando para que os transparentes deitassem no sono. E usavam cada vez mais imaginação e a euforia inventava exuberâncias. A comunidade inteira exuberava e celebrava o guerreiro caçador, aquele que abatera o inimigo para manter a graça pacífica do povo.
Pai Todo chefiou que mais levantassem os fogos. As maiores folhas de palmeira ampararam o santo, seus guerreiros mais tardios seguraram, quando ele solenemente entoou:
povo da Verdadeiríssima Divindade, nossa sorte é o amor da mata. A mata encontrou o inimigo e o inimigo será salvo.
Com aquelas palavras começavam as canções.
Ansiosos, os abaeté preparavam a comoção. Juntavam mãos, seguravam os filhos, muitos ajoelhavam, careciam. Por tanto aguardarem o enternecimento comum, comoviam-se alguns bem antes dos outros. Até que Pai Todo chefiava para a comunidade chorar. E a comunidade chorava.
Tomavam suas flautas, era importante abrir os pulmões, agradeciam. Os espíritos abeiravam e todos intuíam com abundância. A ancestralidade era sempre presente. Jamais abandonaria seus vivos dignos, belos, gentis, alegres.

Valter Hugo Mãe, in As doenças do Brasil

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