[...]
Ela não tinha ainda transposto o cabo
quando gritos estridentes e choros se ouviram na praia.
Levantei-me e pus-me a correr. Lá
embaixo, na outra extremidade, mulheres davam gritos, com se
cantassem um lamento mortuário. Trepei num rochedo e pus a observar.
Da aldeia chegavam correndo homens e mulheres e atrás deles
cachorros latiam. Dois ou três cavaleiros iam à frente, levantando
espessa nuvem de poeira.
Aconteceu uma desgraça, pensei, e desci
a toda para o cabo.
O rumor era cada vez mais intenso.
No poente, duas ou três nuvens
cor-de-rosa, da primavera, imobilizavam-se no céu. A figueira da
donzela de tenras folhas verdes.
Madame Hortência voltava para trás,
descabelada, sufocada, sem um dos sapatos, que trazia na mão, e
corria, chorando.
— Meu Deus... Meu Deus... — gritou-me
ela.
Tropeçou e quase caiu em cima de mim.
Segurei-a.
— Mas, por que está chorando? Que
aconteceu?
E ajudei-a a calçar o sapato
acalcanhado.
— Tenho medo... tenho medo...
— De que?
— Da morte.
Tinha sentido no ar o cheiro da morte e o
terror a dominara.
Segurei-lhe pelo braço flácido, mas o
velho corpo resistia e tremia.
— Eu não quero... eu não quero... —
gritava.
A infeliz temia aproximar-se de um local
onde a morte aparecera. Era preciso que Caronte não a visse e não
se lembrasse dela... como todos os velhos, a nossa pobre sereia
tentava dissimular-se na erva da terra, tomando sua cor
castanho-escura, para que Caronte não a pudesse distinguir. E
tremia, a cabeça entre os ombros gordos e curvados.
Arrastou-se para junto de uma oliveira e
tirou o casaco surrado.
— Cubra-me, meu amigo, e vá ver o que
houve.
— Você está com frio?
— Estou sim, cubra-me.
Eu a cobri, o mais habilmente que pude,
para que ela se confundisse com a terra e fui-me embora.
Aproximava-se do cavo e já distinguia os
cantos fúnebres.
Mimito passou por mim correndo.
— Que é que há, Mimito? — gritei.
Ele se afogou! Ele se afogou! —
respondeu-me, sem se deter.
— Quem?
— Pavli, o filho de Mavrandoni.
— Por quê?
— A viúva...
A palavra ficou pairando no ar. Surgiu da
noite o corpo leve e perigoso da viúva.
Eu tinha chegado aos rochedos onde toda a
aldeia estava reunida. Os homens se mantinham, silenciosos, de cabeça
descoberta; as mulheres, com lenços nos ombros, puxavam os cabelos,
soltando gritos estridentes. Lívido e inchado, jazia um corpo na
areia. De pé, imóvel, contemplava-o o velho Mavrandoni. Apoiava-se
na bengala, com a mão direita. A esquerda cofiava a barba crespa e
grisalha.
— Maldita sejas, criminosa — diz de
súbito um voz penetrante, hás de pagar isto ao bom Deus!
Uma mulher levantou-se, de repente, e
virou-se para os homens:
— Então, não há um homem entre vocês
para degolá-la como um carneiro? Puxa! Que bando de frouxos.
E cuspiu para os homens que a olhavam sem
dizer nada.
Kondomanolio, o dono do café, retrucou:
— Não precisa nos humilhar,
Delicaterina — gritou ele, — não precisa, há homens corajosos
na nossa aldeia, e você vai ver!
Não me contive:
— Que vergonha, meus amigos! — disse
eu. — qual é a responsabilidade desta mulher? Estava escrito. Será
que vocês não creem em Deus?
Mas ninguém respondeu.
Manolakas, primo do morto, curvando o
enorme corpo, tomou nos braços o cadáver e partiu para a aldeia.
As mulheres se esganiçavam, puxando os
cabelos. Quando viram que levavam o corpo, precipitaram-se para
agarrá-lo. Mas o velho Mavrandoni, brandindo o bastão, afastou-as,
tomando a frente do cortejo. Então, elas os seguiram, entoando
lamentações. Atrás, silenciosos, vinham os homens.
Desapareceram no crepúsculo. Ouvia-se de
novo a tranquila respiração do mar. Olhei em torno. Estava só.
Vou voltar para casa, disse comigo. Mais
um dia que teve seu quinhão de amargura!
Tomei a estrada, pensativo. Admirava essa
gente, tão estreita e tão calorosamente ligada ao sofrimento
humano: Madame Hortência, Zorba, a viúva e o pálido Pavli que
jogaram corajosamente no mar para extinguir suas mágoas. E
Delicaterina que mandava degolar a viúva como um carneiro, e
Mavrandoni que se recusava a chorar ou mesmo falar diante dos outros.
Somente eu era impotente e comedido, meu sangue não fervia, não
amava nem odiava com paixão. Ainda agora queria arranjar as coisas,
pondo a culpa, covardemente, no destino.
Na meia claridade distinguia o tio
Anagnosti que ainda estava lá, sentado numa pedra. Tinha o queixo
apoiado no seu grande bastão e olhava o mar.
Chamei-o, não me ouviu. Aproximei-me, e
então, me vendo, balançou a cabeça:
— Pobre humanidade! — murmurou. —
uma juventude perdida!
Mas o coitado não podia suportar o seu
desgosto, jogou-se n’água e morreu afogado. Está salvo.
— Salvo?
— Salvo, meu filho. Que é que ele
podia fazer na vida?
Se casasse com a viúva, as brigas não
tardariam e quem sabe até a desonra. Ela é tal qual uma égua, a
sem-vergonha. Quando vê um homem, começa a relinchar. E se não se
casasse, ficava atormentado o resto da vida, metia na cabeça que
tinha perdido uma grande felicidade. Abismo na frente, precipício
atrás.
— Não fale assim, tio Anagnosti, você
desanima quem ouve.
— Vamos, não tenha medo, que ninguém
está me ouvindo. E se estivesse, não acreditaria em mim. Olhe aqui,
já houve homem com mais sorte do que eu? Tive terras, vinhas,
oliveiras, uma casa de dois andares, era rico. Achei uma mulher boa e
dócil que me deu só filhos homens. Nunca levantou os olhos para me
encarar e meus rapazes são todos bons pais de família. Não me
queixo, tenho também netos.
Não queria mais nada. Deitei raízes
profundas. Entretanto, se fosse recomeçar, amarrava uma pedra no
pescoço, como Pavli, e me jogava no mar. A vida é dura; mesmo para
os que tem sorte, ela é dura, a suja!
— Mas, que lhe falta, tio Anagnosti? De
que se queixa?
— Não me falta nada, confesso. Mas vai
você lá entender o coração do homem!
Calou-se um instante, olhou de novo o mar
e começava a escurecer:
— Então, Pavli, você fez muito bem! —
exclamou, agitando o bastão. — deixa as mulheres gritarem, são
mulheres, não tem cérebro.
Você está salvo, Pavli, e seu pai sabe
disso muito bem; foi por isso que não deu um ai.
Seu olhar percorreu o céu e as montanhas
que já se esfumavam.
— A noite chegou, vamos embora.
Parou de repente, parecendo arrependido
das palavras que deixara escapar, como se houvesse traído um grande
segredo que tentava agora recuperar.
Pôs a mão mirrada no meu ombro:
— Você é moço — disse sorrindo, —
não ouça os velhos. Se o mundo ouvisse os velhos, ia logo à ruína.
Se passar uma viúva no seu caminho, atire-se a ela, case com ela,
faça filhos, não hesite. Os aborrecimentos são para os jovens
sentimentais.
Cheguei à minha praia, acendi o fogo e
preparei o chá da noite.
Estava fatigado, com fome, pus-me a comer
vorazmente, entregando-me todo a este prazer animal.
Foi quando Mimito, passando pela janela
sua cabecinha chata e me vendo comer, agachado perto do fogo, sorriu
maliciosamente.
— Que quer você, Mimito?
— Patrão, eu lhe trago uma coisa, da
parte da viúva...
Uma cesta de laranjas. Ela manda dizer
que são as últimas de seu pomar.
— Da parte da viúva? — disse eu,
perturbado. — e por que ela me manda isto?
— Ela diz que é pelas boas palavras
que o senhor disse esta tarde ao pessoal da aldeia.
— Que palavras?
— Sei lá! Eu só estou repetindo o que
ela disse.
E despejou a cesta na cama. A casa ficou
toda perfumada.
— Diga-lhe que agradeço o presente, e
que ela se feche em casa, que não apareça na aldeia, ouviu? Que
fique em casa algum tempo, até que o povo esqueça a desgraça! Está
entendendo, Mimito?
— É só, patrão?
— É. Vá embora.
Mimito piscou o olho.
— É só mesmo?
— Vá duma vez.
Ele se foi. Descasquei uma laranja,
suculenta e doce como mel.
Deitei-me e dormi, e a noite toda passei
debaixo das laranjeiras; soprava um vento quente, meu peito nu
respirava fundo; tinha um raminho de manjericão atrás da orelha.
Era um jovem camponês de vinte anos, ia e vinha do laranjal e
esperava assoviando. Quem eu esperava, não sei. Meu coração quase
arrebentava de alegria. Torcia o bigode e escutava, atrás das
laranjeiras, o mar que suspirava como uma mulher.
Nikos Kazantzakis, in Zorba, o Grego
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