quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

Mas vai você lá entender o coração do homem!

[...]
Ela não tinha ainda transposto o cabo quando gritos estridentes e choros se ouviram na praia.
Levantei-me e pus-me a correr. Lá embaixo, na outra extremidade, mulheres davam gritos, com se cantassem um lamento mortuário. Trepei num rochedo e pus a observar. Da aldeia chegavam correndo homens e mulheres e atrás deles cachorros latiam. Dois ou três cavaleiros iam à frente, levantando espessa nuvem de poeira.
Aconteceu uma desgraça, pensei, e desci a toda para o cabo.
O rumor era cada vez mais intenso.
No poente, duas ou três nuvens cor-de-rosa, da primavera, imobilizavam-se no céu. A figueira da donzela de tenras folhas verdes.
Madame Hortência voltava para trás, descabelada, sufocada, sem um dos sapatos, que trazia na mão, e corria, chorando.
Meu Deus... Meu Deus... — gritou-me ela.
Tropeçou e quase caiu em cima de mim. Segurei-a.
Mas, por que está chorando? Que aconteceu?
E ajudei-a a calçar o sapato acalcanhado.
Tenho medo... tenho medo...
De que?
Da morte.
Tinha sentido no ar o cheiro da morte e o terror a dominara.
Segurei-lhe pelo braço flácido, mas o velho corpo resistia e tremia.
Eu não quero... eu não quero... — gritava.
A infeliz temia aproximar-se de um local onde a morte aparecera. Era preciso que Caronte não a visse e não se lembrasse dela... como todos os velhos, a nossa pobre sereia tentava dissimular-se na erva da terra, tomando sua cor castanho-escura, para que Caronte não a pudesse distinguir. E tremia, a cabeça entre os ombros gordos e curvados.
Arrastou-se para junto de uma oliveira e tirou o casaco surrado.
Cubra-me, meu amigo, e vá ver o que houve.
Você está com frio?
Estou sim, cubra-me.
Eu a cobri, o mais habilmente que pude, para que ela se confundisse com a terra e fui-me embora.
Aproximava-se do cavo e já distinguia os cantos fúnebres.
Mimito passou por mim correndo.
Que é que há, Mimito? — gritei.
Ele se afogou! Ele se afogou! — respondeu-me, sem se deter.
Quem?
Pavli, o filho de Mavrandoni.
Por quê?
A viúva...
A palavra ficou pairando no ar. Surgiu da noite o corpo leve e perigoso da viúva.
Eu tinha chegado aos rochedos onde toda a aldeia estava reunida. Os homens se mantinham, silenciosos, de cabeça descoberta; as mulheres, com lenços nos ombros, puxavam os cabelos, soltando gritos estridentes. Lívido e inchado, jazia um corpo na areia. De pé, imóvel, contemplava-o o velho Mavrandoni. Apoiava-se na bengala, com a mão direita. A esquerda cofiava a barba crespa e grisalha.
Maldita sejas, criminosa — diz de súbito um voz penetrante, hás de pagar isto ao bom Deus!
Uma mulher levantou-se, de repente, e virou-se para os homens:
Então, não há um homem entre vocês para degolá-la como um carneiro? Puxa! Que bando de frouxos.
E cuspiu para os homens que a olhavam sem dizer nada.
Kondomanolio, o dono do café, retrucou:
Não precisa nos humilhar, Delicaterina — gritou ele, — não precisa, há homens corajosos na nossa aldeia, e você vai ver!
Não me contive:
Que vergonha, meus amigos! — disse eu. — qual é a responsabilidade desta mulher? Estava escrito. Será que vocês não creem em Deus?
Mas ninguém respondeu.
Manolakas, primo do morto, curvando o enorme corpo, tomou nos braços o cadáver e partiu para a aldeia.
As mulheres se esganiçavam, puxando os cabelos. Quando viram que levavam o corpo, precipitaram-se para agarrá-lo. Mas o velho Mavrandoni, brandindo o bastão, afastou-as, tomando a frente do cortejo. Então, elas os seguiram, entoando lamentações. Atrás, silenciosos, vinham os homens.
Desapareceram no crepúsculo. Ouvia-se de novo a tranquila respiração do mar. Olhei em torno. Estava só.
Vou voltar para casa, disse comigo. Mais um dia que teve seu quinhão de amargura!
Tomei a estrada, pensativo. Admirava essa gente, tão estreita e tão calorosamente ligada ao sofrimento humano: Madame Hortência, Zorba, a viúva e o pálido Pavli que jogaram corajosamente no mar para extinguir suas mágoas. E Delicaterina que mandava degolar a viúva como um carneiro, e Mavrandoni que se recusava a chorar ou mesmo falar diante dos outros. Somente eu era impotente e comedido, meu sangue não fervia, não amava nem odiava com paixão. Ainda agora queria arranjar as coisas, pondo a culpa, covardemente, no destino.
Na meia claridade distinguia o tio Anagnosti que ainda estava lá, sentado numa pedra. Tinha o queixo apoiado no seu grande bastão e olhava o mar.
Chamei-o, não me ouviu. Aproximei-me, e então, me vendo, balançou a cabeça:
Pobre humanidade! — murmurou. — uma juventude perdida!
Mas o coitado não podia suportar o seu desgosto, jogou-se n’água e morreu afogado. Está salvo.
Salvo?
Salvo, meu filho. Que é que ele podia fazer na vida?
Se casasse com a viúva, as brigas não tardariam e quem sabe até a desonra. Ela é tal qual uma égua, a sem-vergonha. Quando vê um homem, começa a relinchar. E se não se casasse, ficava atormentado o resto da vida, metia na cabeça que tinha perdido uma grande felicidade. Abismo na frente, precipício atrás.
Não fale assim, tio Anagnosti, você desanima quem ouve.
Vamos, não tenha medo, que ninguém está me ouvindo. E se estivesse, não acreditaria em mim. Olhe aqui, já houve homem com mais sorte do que eu? Tive terras, vinhas, oliveiras, uma casa de dois andares, era rico. Achei uma mulher boa e dócil que me deu só filhos homens. Nunca levantou os olhos para me encarar e meus rapazes são todos bons pais de família. Não me queixo, tenho também netos.
Não queria mais nada. Deitei raízes profundas. Entretanto, se fosse recomeçar, amarrava uma pedra no pescoço, como Pavli, e me jogava no mar. A vida é dura; mesmo para os que tem sorte, ela é dura, a suja!
Mas, que lhe falta, tio Anagnosti? De que se queixa?
Não me falta nada, confesso. Mas vai você lá entender o coração do homem!
Calou-se um instante, olhou de novo o mar e começava a escurecer:
Então, Pavli, você fez muito bem! — exclamou, agitando o bastão. — deixa as mulheres gritarem, são mulheres, não tem cérebro.
Você está salvo, Pavli, e seu pai sabe disso muito bem; foi por isso que não deu um ai.
Seu olhar percorreu o céu e as montanhas que já se esfumavam.
A noite chegou, vamos embora.
Parou de repente, parecendo arrependido das palavras que deixara escapar, como se houvesse traído um grande segredo que tentava agora recuperar.
Pôs a mão mirrada no meu ombro:
Você é moço — disse sorrindo, — não ouça os velhos. Se o mundo ouvisse os velhos, ia logo à ruína. Se passar uma viúva no seu caminho, atire-se a ela, case com ela, faça filhos, não hesite. Os aborrecimentos são para os jovens sentimentais.
Cheguei à minha praia, acendi o fogo e preparei o chá da noite.
Estava fatigado, com fome, pus-me a comer vorazmente, entregando-me todo a este prazer animal.
Foi quando Mimito, passando pela janela sua cabecinha chata e me vendo comer, agachado perto do fogo, sorriu maliciosamente.
Que quer você, Mimito?
Patrão, eu lhe trago uma coisa, da parte da viúva...
Uma cesta de laranjas. Ela manda dizer que são as últimas de seu pomar.
Da parte da viúva? — disse eu, perturbado. — e por que ela me manda isto?
Ela diz que é pelas boas palavras que o senhor disse esta tarde ao pessoal da aldeia.
Que palavras?
Sei lá! Eu só estou repetindo o que ela disse.
E despejou a cesta na cama. A casa ficou toda perfumada.
Diga-lhe que agradeço o presente, e que ela se feche em casa, que não apareça na aldeia, ouviu? Que fique em casa algum tempo, até que o povo esqueça a desgraça! Está entendendo, Mimito?
É só, patrão?
É. Vá embora.
Mimito piscou o olho.
É só mesmo?
Vá duma vez.
Ele se foi. Descasquei uma laranja, suculenta e doce como mel.
Deitei-me e dormi, e a noite toda passei debaixo das laranjeiras; soprava um vento quente, meu peito nu respirava fundo; tinha um raminho de manjericão atrás da orelha. Era um jovem camponês de vinte anos, ia e vinha do laranjal e esperava assoviando. Quem eu esperava, não sei. Meu coração quase arrebentava de alegria. Torcia o bigode e escutava, atrás das laranjeiras, o mar que suspirava como uma mulher.

Nikos Kazantzakis, in Zorba, o Grego

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