Abá não é mais criança. Já
pretendeu, sim, organizar um mundo a partir do sentimento que a sua
gente tem dentro sem conhecer. Quis descobrir a nova forma de vida,
uma norma nossa que não fosse essa nem aquela e não dá para
explicar, porque a gente tem isso muito dentro, muito sem conhecer
mas tem. Um tumor benigno que, localizado, é pedra filosofal que
transforma o ouro em chocolate, em qualquer coisa útil ou amável.
Uma ideia gorda e talvez uma ideia incômoda porque absorve ou
rejeita ideias velhas, algo assim ou não como uma sabedoria mulata.
Nada da mulata que inglês viu e bolinou. Outra surpresa tão mestiça
que única, total, tutano que inglês não realiza nem supõe, teme o
contágio. Mas percebe-se que tais conceitos sempre se confundiam no
momento exato da expressão. No dia D, na hora H, no X do problema
Abá tropeçava misteriosamente. Gaguejava, engasgava, ficava
zarolho, insistia. Retomava do princípio, o sentimento, a pedra, o
tumor, o tutano, o sonho coletivo, o nexo sem palavra, a antegíria,
anteginga mulata. E esbarrava na antessala do carnaval, a explosão
abafada sob a redoma invisível. Enquanto isso os invisíveis se
divertiam da gente andar meio de lado, sacudindo, balanço que não é
dança, é o desengonço da nossa bitola nos trilhos que não são
nossos. Os invisíveis gostavam. Riam de nós plantando goiaba e
comendo só goiabada. Riam muito da gente ser risonha até quando
pega fogo. E agora os indizíveis, que sempre se interessaram na
nossa bagunça, resolvem patrocinar a nova ordem, que não é nova
nem nossa. Os indivisíveis gozam de haveres e poderes na Fazenda, se
não por escritura, ao menos por usucapião. Juvenal, preposto,
preboste, convoca Abá. Abá já não é criança, paga para ver.
Bem-posto na Estância Castelã, Juvenal
recebeu com encanto a adesão de Abá. Aliás, todas as classes ditas
produtoras manifestaram sua imediata solidariedade, como era de se
esperar. Fazendas limítrofes e antípodas enviavam flores e
telegramas, o que é protocolar. Os inspetores estavam de prontidão,
o que não é mais que sua rotina. Mas o notável, entre tantos
inacontecimentos, é que no descampado ninguém mais reagia à
desmama, à descorna e à emasculação. Até parece que de repente o
povo da nossa Fazenda se civilizou. Novos parênteses para acentuar
que Juvenal só soube dos resultados. E o resultado incontestável é
que não se ouvem mais a lamúrias de outrora no seio da Fazenda
Modelo.
Mas vamos lá. O primeiro cuidado de um
administrador deve ser a escolha rigorosa do semental. El tipo,
tamaño, rusticidad, constitución, raza, masculinidad, pedigree,
certificados de salud, reputación, son los factores principales al
seleccionar un reproductor. Traduzindo: Abá. “Um semental que
transfira seus dotes à prole, estampando nela sua cor.” Juvenal
atualizava seus conhecimentos com os livros que fizera importar.
Conforme as recomendações mais recentes, instalou Abá no planalto
central, a cem metros da Estância, distante milhas de todas as vacas
e tentações. Em touril seco, bem construído, amplo, dotado de
bebedouro, curral adjacente para exercícios, boas cercas, orientação
favorável ao eixo norte-sul, consoante os ensinamentos do livro.
Abá paga para ver de perto os movimentos
da alta administração. Não é verdade que ele se impressione com
títulos e honrarias, com a condição de quase ministro que lhe
confere a vizinhança da Estância Castelã. Não o comove ser
promovido de garanhão a cortesão, ou classe produtora. E os novos
caminhos da Fazenda não são certamente os que ele traçaria, se é
que traçaria caminhos. Mas ele assume o posto com altruísmo e muito
amor à sua terra, jamais como cúmplice da ordem reinante. Diz Abá
que, se existe semelhante cargo, e se alguém o deve ocupar, antes
ele que algum aventureiro. Que seja um dos nossos, diz ele sozinho.
Quisera apenas a oportunidade de expor o caso pessoalmente a Aurora
mas Juvenal, malicioso, proíbe: “Os touros devem trabalhar no
período limitado denominado estação da monta: de abril a junho”.
Ora, estamos em janeiro e Abá fica muito excitado com o calor. Fica
querendo encontrar Aurora para lhe jurar que não tem nada a ver com
aquilo, que está vigilante e fiscal, que ama Aurora e Aurora não o
mal-entenda. Pois sim, lê Juvenal, o clima proporciona forrageiras
de boa qualidade sob a ação das chuvas de outubro a abril e de
qualidade bastante inferior e escassas no período de maio a
setembro. Abá quer vê-la um minuto só, trocar duas palavras, mas
há índices satisfatórios de ganho de peso dos animais no primeiro
período, enquanto se dá uma paralisação ou perda de peso no
segundo chegando muitas vezes a 20 ou 30% de perda em relação ao
peso atingido em abril, ver gráfico, dane-se o gráfico, pois em
meados de fevereiro Abá já dava mostras de exasperação sexual, ou
crise existencial, como se diz. Atirava-se contra as baias,
chifrava-se, mergulhava no bebedouro, mugia contra a lua, fazia greve
de fome, comia terra. Pois não, insistia Juvenal, é preciso deixar
essa mania de nascer bezerro antes do fim de ano. “A inconveniência
concretiza-se no desenvolvimento do animal que, além de sofrer o
impacto da desmama, encontra pastagens inqualificáveis,
paralisando-se o seu desenvolvimento nos seis meses subsequentes. É
portanto muito pouco recomendável o nascimento de bezerros no
segundo semestre, ocorrência aceita por muitos como fenômeno
natural em nosso trópico.” Maldizendo os trópicos, Juvenal ia
tangendo os dias. Ia enganando Abá com calendários adulterados,
bulas, sermões, salitres, barbitúricos e outros tranquilizantes.
Por isso, no primeiro de abril, quando Aurora entrou no touril, Abá
fez um estrago nela, no touril e em Juvenal que experimentou
apartá-los após a terceira ejaculação.
1.º de abril. Juvenal me explicava o tal
do tronco, uma espécie de pedestal onde eu deveria apoiar as
dianteiras na hora do coito. Uma cópula mais científica, explicava
Juvenal. Mas quando vi entrar Aurora, pisquei vi entrar, pisquei vi
entrar, pisquei vi Aurora, me belisquei e achei que era o dia da
mentira. Nem justifiquei a minha posição, minha solenidade, meu
pedestal. Quando vi aquela mulher que era uma catedral, mergulhei de
cabeça em sua vagina gótica. Amei-a e amassei-a feito um condenado,
sendo ela a minha viúva. Dobrei e desdobrei Aurora em sessenta e
quatro poses diferentes. Perdi a conta das pernas que tínhamos,
quantas línguas, quantos delírios, quantas vezes morremos e que
horas são. Nem vi por que porta ela saiu e entraram outras e mais
outras que eu adorei devotando as colunas de Aurora, no que se chama
união sexual de amor transferido.
Aurora despachada entra Beleza sai Beleza
entra Balbina sai Balbina entra Betina sai Bidu entra Bigodes entra
sai sai entra Bailarina entra Calu meia-volta entra Ciranda volta e
meia Desirê passo à frente arretê girê um sorvete colore sai
Doralia entra você vira volta rodopia visavis com Doralia balance
changê Delicada Diabinha traversê tem boi na linha anavã galope
tur e o magote de vaquinhas se acabou executado no primeiro paredón
libidinoso da Fazenda Modelo, para aleluia e asco de Juvenal.
Mês que veio, porém, Abá já se
mostrava outra vez irrequieto. Especialmente quando soprava o
sudoeste lembrando ares de Aurora. Talvez ela não tivesse entendido
bem o papel de Abá naquela história toda, suas relações com a
Estância, sua inocência. Em sonhos Abá se defendia, testemunhava,
arrolava argumentos, pedia clemência e aproveitava a absolvição
para repetir as sessenta e quatro proezas com aquela charolesa na
charneca. Sonhava o tempo da charneca, quando os crimes e dívidas
pareciam irrelevantes, eram escusados juris e justificações. E
enlouquecia no seu labirinto, mergulhando contra as baias, chifrando
a lua, mugindo para a terra, mijando no bebedouro. Para tamanho
desvario, Juvenal não encontrava antídoto em nenhum dos modernos
compêndios técnicos. Antes, só foi decifrar um paliativo em
antigas brochuras. Muito a contragosto, pois, sacrificou sete
virgens, vaquinhas lá do descampado, para saciar a voracidade de
Abá. Um desperdício, lamentava Juvenal, gastar vela tão boa com
armento ruim. E ao mesmo tempo recolhia dados sobre as excelências
da inseminação artificial. “Considere-se, por exemplo, o
magnífico touro da raça holandesa da fig. 5.2 cujo nome completo é
WH-57 Spruceleigh Monogram Rag Apple 1119686 S. M. P. Até 1963, com
a idade de 13 anos, Rag Apple tinha fornecido sêmen para mais de
100.000 reprodutoras.” Juvenal olhava a fig. 5.2 e olhava Abá,
olhava um e olhava outro, e o famoso Rag Apple era a figura de uma
mula, perto de Abá.
Chico Buarque de Holanda, in Fazenda Modelo
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