quarta-feira, 7 de abril de 2021

Fazenda Modelo / V

Abá não é mais criança. Já pretendeu, sim, organizar um mundo a partir do sentimento que a sua gente tem dentro sem conhecer. Quis descobrir a nova forma de vida, uma norma nossa que não fosse essa nem aquela e não dá para explicar, porque a gente tem isso muito dentro, muito sem conhecer mas tem. Um tumor benigno que, localizado, é pedra filosofal que transforma o ouro em chocolate, em qualquer coisa útil ou amável. Uma ideia gorda e talvez uma ideia incômoda porque absorve ou rejeita ideias velhas, algo assim ou não como uma sabedoria mulata. Nada da mulata que inglês viu e bolinou. Outra surpresa tão mestiça que única, total, tutano que inglês não realiza nem supõe, teme o contágio. Mas percebe-se que tais conceitos sempre se confundiam no momento exato da expressão. No dia D, na hora H, no X do problema Abá tropeçava misteriosamente. Gaguejava, engasgava, ficava zarolho, insistia. Retomava do princípio, o sentimento, a pedra, o tumor, o tutano, o sonho coletivo, o nexo sem palavra, a antegíria, anteginga mulata. E esbarrava na antessala do carnaval, a explosão abafada sob a redoma invisível. Enquanto isso os invisíveis se divertiam da gente andar meio de lado, sacudindo, balanço que não é dança, é o desengonço da nossa bitola nos trilhos que não são nossos. Os invisíveis gostavam. Riam de nós plantando goiaba e comendo só goiabada. Riam muito da gente ser risonha até quando pega fogo. E agora os indizíveis, que sempre se interessaram na nossa bagunça, resolvem patrocinar a nova ordem, que não é nova nem nossa. Os indivisíveis gozam de haveres e poderes na Fazenda, se não por escritura, ao menos por usucapião. Juvenal, preposto, preboste, convoca Abá. Abá já não é criança, paga para ver.
Bem-posto na Estância Castelã, Juvenal recebeu com encanto a adesão de Abá. Aliás, todas as classes ditas produtoras manifestaram sua imediata solidariedade, como era de se esperar. Fazendas limítrofes e antípodas enviavam flores e telegramas, o que é protocolar. Os inspetores estavam de prontidão, o que não é mais que sua rotina. Mas o notável, entre tantos inacontecimentos, é que no descampado ninguém mais reagia à desmama, à descorna e à emasculação. Até parece que de repente o povo da nossa Fazenda se civilizou. Novos parênteses para acentuar que Juvenal só soube dos resultados. E o resultado incontestável é que não se ouvem mais a lamúrias de outrora no seio da Fazenda Modelo.
Mas vamos lá. O primeiro cuidado de um administrador deve ser a escolha rigorosa do semental. El tipo, tamaño, rusticidad, constitución, raza, masculinidad, pedigree, certificados de salud, reputación, son los factores principales al seleccionar un reproductor. Traduzindo: Abá. “Um semental que transfira seus dotes à prole, estampando nela sua cor.” Juvenal atualizava seus conhecimentos com os livros que fizera importar. Conforme as recomendações mais recentes, instalou Abá no planalto central, a cem metros da Estância, distante milhas de todas as vacas e tentações. Em touril seco, bem construído, amplo, dotado de bebedouro, curral adjacente para exercícios, boas cercas, orientação favorável ao eixo norte-sul, consoante os ensinamentos do livro.
Abá paga para ver de perto os movimentos da alta administração. Não é verdade que ele se impressione com títulos e honrarias, com a condição de quase ministro que lhe confere a vizinhança da Estância Castelã. Não o comove ser promovido de garanhão a cortesão, ou classe produtora. E os novos caminhos da Fazenda não são certamente os que ele traçaria, se é que traçaria caminhos. Mas ele assume o posto com altruísmo e muito amor à sua terra, jamais como cúmplice da ordem reinante. Diz Abá que, se existe semelhante cargo, e se alguém o deve ocupar, antes ele que algum aventureiro. Que seja um dos nossos, diz ele sozinho. Quisera apenas a oportunidade de expor o caso pessoalmente a Aurora mas Juvenal, malicioso, proíbe: “Os touros devem trabalhar no período limitado denominado estação da monta: de abril a junho”. Ora, estamos em janeiro e Abá fica muito excitado com o calor. Fica querendo encontrar Aurora para lhe jurar que não tem nada a ver com aquilo, que está vigilante e fiscal, que ama Aurora e Aurora não o mal-entenda. Pois sim, lê Juvenal, o clima proporciona forrageiras de boa qualidade sob a ação das chuvas de outubro a abril e de qualidade bastante inferior e escassas no período de maio a setembro. Abá quer vê-la um minuto só, trocar duas palavras, mas há índices satisfatórios de ganho de peso dos animais no primeiro período, enquanto se dá uma paralisação ou perda de peso no segundo chegando muitas vezes a 20 ou 30% de perda em relação ao peso atingido em abril, ver gráfico, dane-se o gráfico, pois em meados de fevereiro Abá já dava mostras de exasperação sexual, ou crise existencial, como se diz. Atirava-se contra as baias, chifrava-se, mergulhava no bebedouro, mugia contra a lua, fazia greve de fome, comia terra. Pois não, insistia Juvenal, é preciso deixar essa mania de nascer bezerro antes do fim de ano. “A inconveniência concretiza-se no desenvolvimento do animal que, além de sofrer o impacto da desmama, encontra pastagens inqualificáveis, paralisando-se o seu desenvolvimento nos seis meses subsequentes. É portanto muito pouco recomendável o nascimento de bezerros no segundo semestre, ocorrência aceita por muitos como fenômeno natural em nosso trópico.” Maldizendo os trópicos, Juvenal ia tangendo os dias. Ia enganando Abá com calendários adulterados, bulas, sermões, salitres, barbitúricos e outros tranquilizantes. Por isso, no primeiro de abril, quando Aurora entrou no touril, Abá fez um estrago nela, no touril e em Juvenal que experimentou apartá-los após a terceira ejaculação.
1.º de abril. Juvenal me explicava o tal do tronco, uma espécie de pedestal onde eu deveria apoiar as dianteiras na hora do coito. Uma cópula mais científica, explicava Juvenal. Mas quando vi entrar Aurora, pisquei vi entrar, pisquei vi entrar, pisquei vi Aurora, me belisquei e achei que era o dia da mentira. Nem justifiquei a minha posição, minha solenidade, meu pedestal. Quando vi aquela mulher que era uma catedral, mergulhei de cabeça em sua vagina gótica. Amei-a e amassei-a feito um condenado, sendo ela a minha viúva. Dobrei e desdobrei Aurora em sessenta e quatro poses diferentes. Perdi a conta das pernas que tínhamos, quantas línguas, quantos delírios, quantas vezes morremos e que horas são. Nem vi por que porta ela saiu e entraram outras e mais outras que eu adorei devotando as colunas de Aurora, no que se chama união sexual de amor transferido.
Aurora despachada entra Beleza sai Beleza entra Balbina sai Balbina entra Betina sai Bidu entra Bigodes entra sai sai entra Bailarina entra Calu meia-volta entra Ciranda volta e meia Desirê passo à frente arretê girê um sorvete colore sai Doralia entra você vira volta rodopia visavis com Doralia balance changê Delicada Diabinha traversê tem boi na linha anavã galope tur e o magote de vaquinhas se acabou executado no primeiro paredón libidinoso da Fazenda Modelo, para aleluia e asco de Juvenal.
Mês que veio, porém, Abá já se mostrava outra vez irrequieto. Especialmente quando soprava o sudoeste lembrando ares de Aurora. Talvez ela não tivesse entendido bem o papel de Abá naquela história toda, suas relações com a Estância, sua inocência. Em sonhos Abá se defendia, testemunhava, arrolava argumentos, pedia clemência e aproveitava a absolvição para repetir as sessenta e quatro proezas com aquela charolesa na charneca. Sonhava o tempo da charneca, quando os crimes e dívidas pareciam irrelevantes, eram escusados juris e justificações. E enlouquecia no seu labirinto, mergulhando contra as baias, chifrando a lua, mugindo para a terra, mijando no bebedouro. Para tamanho desvario, Juvenal não encontrava antídoto em nenhum dos modernos compêndios técnicos. Antes, só foi decifrar um paliativo em antigas brochuras. Muito a contragosto, pois, sacrificou sete virgens, vaquinhas lá do descampado, para saciar a voracidade de Abá. Um desperdício, lamentava Juvenal, gastar vela tão boa com armento ruim. E ao mesmo tempo recolhia dados sobre as excelências da inseminação artificial. “Considere-se, por exemplo, o magnífico touro da raça holandesa da fig. 5.2 cujo nome completo é WH-57 Spruceleigh Monogram Rag Apple 1119686 S. M. P. Até 1963, com a idade de 13 anos, Rag Apple tinha fornecido sêmen para mais de 100.000 reprodutoras.” Juvenal olhava a fig. 5.2 e olhava Abá, olhava um e olhava outro, e o famoso Rag Apple era a figura de uma mula, perto de Abá.

Chico Buarque de Holanda, in Fazenda Modelo

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