quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

O pai do computador

  
Alan e a Máquina de Turing

Alan Turing era motivo de piadas por não ser um cara durão, um He-Man com pelos no peito.
Ele choramingava, grasnava, gaguejava. Ele usava uma velha gravata como cinto. Ele raramente dormia e passava dias sem se barbear. E ele corria de uma ponta da cidade para outra enquanto juntava complicadas fórmulas matemáticas em sua mente.
Trabalhando para a inteligência britânica, ele ajudou a encurtar a Segunda Guerra Mundial ao inventar uma máquina que decifrava os impenetráveis códigos militares usados pelo alto comando alemão.
Nesse ponto, ele já tinha sonhado com um protótipo para um computador eletrônico e já tinha estabelecido as fundações teóricas para os sistemas de informações atuais. Depois disso, ele liderou a equipe que construiu o primeiro computador a operar com programas integrados. Ele jogou intermináveis partidas de xadrez contra o computador e perguntava a ele questões que enlouqueceram a máquina. Ele insistia que o computador lhe escrevesse cartas de amor. A máquina respondeu emitindo mensagens que eram bem incompreensíveis.
Mas foi a polícia de carne e osso de Manchester que o prendeu em 1952 por indecência.
No julgamento, Turing alegou ser culpado por ser homossexual.
Para ficar fora da cadeia, ele aceitou passar por um tratamento médico que o curasse de sua aflição. O bombardeio de drogas o deixou impotente. Seios cresceram nele. Ele ficou recluso e deixou de ir à universidade. Ele ouvia sussurros, sentia olhares às suas costas.
Ele tinha o hábito de comer uma maçã antes de ir dormir.
Em uma noite, ele injetou a maçã com cianeto.
Eduardo Galeano, in Espelhos – uma história quase universal

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