Minha
mãe lia devagar, numa toada inexpressiva, fazendo pausas absurdas,
engolindo vírgulas e pontos, abolindo esdrúxulas, alongando ou
encurtando as palavras. Não compreendia bem o sentido delas. E, com
tal prosódia e tal pontuação, os textos mais simples se
obscureciam. Essas deturpações me afastaram do exercício penoso,
verdadeiro enigma. Isso e o aspecto desagradável do romance de
quatro volumes, enxovalhado e roto, que as vizinhas soletravam,
achando intenções picarescas nas gravuras soltas, onde a tinta
esmorecia, sob nódoas. “Um grupo estranho e por igual...” Falta
o adjetivo que rematava a legenda de uma das ilustrações.
Julgo
que era vistoso.
Várias pessoas numa caixa com rodas, puxada por dois cavalos,
diferente dos carros de bois que chiavam nos caminhos sertanejos. Em
cima da caixa emproava-se um tipo de chicote e bigode, um cocheiro,
segundo me disseram, nome inadequado, na minha opinião. Cocheiro
devia tratar de cochos, objetos que não se viam no livro. Tudo ali
discordava da nossa linguagem familiar. “Um grupo estranho e por
igual vistoso.” Parecia cantiga.
Minha
mãe repetiu isso até decorar a história de Adélia e D. Rufo.
Cansou-se,
transferiu-se para uns folhetos de capa amarela, publicação dos
salesianos. Passava horas no marquesão preto da sala de visitas, os
olhos esbugalhados, atenta, a boca franzida, volvendo de longe em
longe, com saliva, a página piedosa. Enchia-se de milagres ingênuos,
parábolas, biografias de santos, lendas, conselhos exigentes,
ofertas indefinidas e ameaças. Extasiava-se com as ações de D.
Bosco, ótimo velhinho, semelhante a Frei Caetano, o missionário que
andou pelo Nordeste, elevando as almas caboclas.
Abandonava
essas alturas, tomava-se de pavores, metia-se na camarinha, a
esconder-se dos castigos eternos. Excitava-se, desanimava,
encontrando talvez na consciência qualquer miudeza censurada na
brochura de capa amarela. Fugia da Terra espiava o além. Em seguida
se ausentava da prova severa, caía no vulgar, comentava os mexericos
da vila, repreendia os moleques, resmungando, largando muxoxos. Não
admitia que falássemos em muxoxo. Era uma birra esquisita. Se um de
nós soltava a expressão condenada, ela se zangava e corrigia:
tunco.
Não gostávamos da onomatopeia:
insistíamos no vocábulo perseguido, sabendo que isto nos rendia
desgosto.
A
existência ordinária, entregue a negócios terrestres e caseiros,
durava duas, três semanas, até o correio trazer o fornecimento
mensal de literatura religiosa. Surgiam as beatas estigmatizadas, D.
Bosco, diálogos singelos, casos edificantes, delícias vagas do céu
e torturas minuciosas do inferno.
Purificando-se
nessa boa fonte, minha mãe às vezes necessitava expansão:
transmitia-me arroubos e sustos. Uma tarde, reunindo sílabas
penosamente, na gemedeira habitual, teve um sobressalto, chegou o
rosto ao papel. Releu a passagem — e os beiços finos
contraíram-se, os olhos abotoados cravaram-se no espelho de cristal.
Certamente se inteirava de um sucesso mau e recusava aceitá-lo.
Antes de mergulhar no pesadelo, segurava-se aos trastes mesquinhos —
o espelho, o relógio, as cadeiras — e buscava amparar-se em
alguém.
Atraiu-me,
segredou queixas sumidas e insensatas. Perplexa, ora se voltava para
as janelas, ora examinava o livrinho aberto na sola do marquesão,
negra e côncava. Não se conservou muito tempo indecisa. Na doentia
curiosidade, arrojou-se à leitura, desperdiçou uma hora
afligindo-se em demasia.
Levantou-se,
atravessou o corredor, a sala de jantar, arriou na prensa de farinha
do alpendre. Seguia-a, sentei-me perto, calado, esperei que ela me
chamasse. As nossas desavenças morreram. Julguei-a fraca e boa,
desejei poder aliviá-la, dizer qualquer coisa oportuna. Sentia o
coração pesado, um bolo na garganta, e propendia a alarmar-me
também. Odiei a brochura, veio-me a ideia
de furtá-la, escondê-la ou rasgá-la.
A
pobre mulher desesperava em silêncio. Apertava as mãos ossudas,
inofensivas; o peito magro subia e descia; limitando a mancha
vermelha da testa, uma veia engrossava. Diversas pessoas da família
tinham a mancha curiosa. Em momentos de excitação ela se avivava,
quase roxa, da sobrancelha à raiz do cabelo — e essas criaturas se
enfureciam, avizinhavam-se da loucura.
Afinal
minha mãe rebentou em soluços altos, num choro desabalado.
Agarrou-me,
abraçou-me violentamente, molhou-me de lágrimas. Tentei livrar-me
das
carícias ásperas. Por que não se aquietava, não me deixava em
paz?
A
exaltação diminuiu, o pranto correu manso, estancou, e uma vozinha
triste confessou-me, entre longos suspiros, que o mundo ia acabar.
Estremeci e pedi explicações. Ia acabar. Estava escrito nos
desígnios da Providência, trazidos regularmente pelo correio. Na
passagem do século um cometa brabo percorreria o céu e extinguiria
a criação: homens, bichos, plantas. Riachos e açudes se
converteriam em fumaça, as pedras se derreteriam. Antigamente a
cólera de Deus exterminara a vida com água; determinava agora
suprimi-la a fogo.
Eu
ignorava o século, os cometas, a tradição. E estendia
fraternalmente a minha ignorância a todos os indivíduos. Não
percebendo o mistério das letras, achava difícil que elas se
combinassem para narrar a infeliz notícia.
Provavelmente
minha mãe se tinha equivocado, supondo ver na folha desastres
imaginários. Expus esta conjectura, que foi repelida. A desgraça
estava anunciada com muita clareza. Olhei o muro de tijolo,
considerei-o indestrutível.
Algum
tempo depois eu e minha irmã brincávamos junto dele. Corríamos daí
para o copiar, voltávamos, descansávamos um instante na sombra,
corríamos de novo. Numa dessas viagens, alcançando a prensa de
farinha, ouvimos grande barulho. Viramo-nos. O muro tinha
desaparecido. Vimos entulho, barro, uma nuvem de poeira, árvores no
quintal subitamente crescido, fundos de casas, o descaroçador do
Cavalo-Morto.
Enquanto
não se fez outra parede, habituamo-nos a saltar os escombros,
admirar ferrinhos caprichosos, a máquina a devorar capulhos, pasta
de algodão a esvoaçar, lentas, formando uma saraiva grossa e fofa.
A diligência do motor, os giros das rodas, da polia, da correia, das
serras, substituíam os rumores que nos embalavam durante a safra.
Ganhamos experiência, discutimos. E a minha confiança nas
construções minguou.
Naquela
tarde, porém, informando-me da profecia, eu ainda não acreditava
nos desmoronamentos. O muro estava inabalável. Convenci-me de que um
fenômeno duvidoso e afastado, quase sem nome, não teria força para
derrubá-lo. Também achei que Deus não eliminaria por atacado, sem
motivo, Seu Afro, Carcará, José da Luz, André Laerte, mestre
Firmo, Seu Acrísio, Rosenda, os meninos de Teotoninho Sabiá. E
Padre João Inácio. Quem tinha contado ao sujeito do livro que Deus
resolvera matar Padre João Inácio? Padre João Inácio era
poderoso. Recusei o vaticínio, firme. Conversa: o mundo não ia
acabar. Um mundo tão vasto, onde se arrumavam desafogadamente a vila
e a fazenda, resistiria.
Minha
mãe estranhou a manifestação rebelde, tentou provar-me que os
doutores conheciam as trapalhadas do céu e adivinhavam as
consequências
delas. Mas queria certificar-se de que se enganava, pelo menos na
parte relativa ao enorme incêndio. Refutou a minha afirmação com
descomposturas enérgicas lançadas em tom amável. Foi serenando,
terminou o debate como se nos referíssemos a visões de sonho.
Teimava em declarar-me um animal. Não conseguiu intimidar-me. E era
essa ausência de medo, indiferença aos perigos distantes, ao fogo,
ao extermínio, que a tranquilizava.
Esteve
alguns dias apreensiva, folheando a brochura, os olhos arregalados,
séria. Enfim abandonou o cataclismo, embrenhou-se em novos temores.
O
cometa veio ao cabo de, uns dois anos e comportou-se bem. Minha mãe
foi observá-lo da porta da igreja, sem nenhum receio, esquecida
inteiramente da predição. Nesse tempo nós nos tínhamos mudado,
vivíamos longe da vila. O mundo estava imenso, com muitas léguas de
comprimento — e desafiava, seguro, profecias e cometas.
Graciliano Ramos,
in Infância
o inferno graciliano ramos
ResponderExcluir