quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

A véspera de Pearl Harbor

À minha casa chegavam os espanhóis Wenceslao Roces, de Salamanca, e Constancia de la Mora, republicana, parente do Duque de Maura, cujo livro In Place of Splendor foi um best seller na América do Norte; León Felipe, Juan Rejano, Moreno Villa, Herrera Petere, poetas; Miguel Prieto, Rodríguez Luna, pintores; - todos espanhóis. Os italianos Vittorio Vidale, famoso por ter sido o Comandante Carlos do 5º Regimento, e Mario Montagnana, italianos desterrados, cheios de lembranças, de histórias assombrosas e de cultura sempre em movimento. Por aí andavam também Jacques Soustelle e Gilbert Medioni, que eram os chefes gaullistas, representantes da França livre. Além desses, pululavam os exilados voluntários ou forçados da América Central; guatemaltecos, salvadorenhos, hondurenhos. Tudo isto enchia o México de um interesse multinacional e às vezes minha casa, velha quinta do bairro de San Angel, palpitava como se ali estivesse o coração do mundo.
Com Soustelle, que era então socialista de esquerda e que anos mais tarde daria tanto o que fazer ao presidente De Gaulle como chefe político dos golpistas da Argélia, sucedeu-me algo que devo relatar:
Chegara o ano de 1941. Os nazistas sitiavam Leningrado e adentravam-se no território soviético. As raposas militaristas japonesas, comprometidas no eixo Berlim-Roma-Tóquio, corriam o perigo de que a Alemanha ganhasse a guerra e ficassem elas sem sua parte nos despojos de guerra. Diversos rumores circulavam pelo mundo. Assinalava-se a hora zero em que o imenso poderio japonês se desencadearia no Extremo Oriente. Enquanto isso, uma missão de paz japonesa fazia reverências em Washington ao governo norte-americano. Não havia dúvida que os japoneses atacariam logo e de surpresa já que a “guerra-relâmpago” era a moda sangrenta da época.
Devo contar, para que minha história seja compreendida, que uma velha linha nipônica de vapores unia o Japão ao Chile. Viajei mais de uma vez nesses navios e conhecia-os muito bem. Detinham-se em nossos portos e seus capitães dedicavam-se a comprar ferro velho e a tirar fotografias. Aportavam em todo o litoral chileno, peruano e equatoriano e seguiam até o porto mexicano de Manzanillo, de onde enfiavam a proa até Yokohama, atravessando o Pacifico.
Pois bem, um dia, sendo eu ainda cônsul-geral do Chile no México, recebi a visita de sete japoneses que pediam às pressas um visto para o Chile. Vinham do litoral norte-americano, de São Francisco, de Los Angeles e de outros portos. Seus rostos denotavam certa inquietude. Estavam bem vestidos e com os documentos em ordem. Tinham aparência de engenheiros ou industriais executivos.
Perguntei-lhes, naturalmente, por que queriam partir para o Chile no primeiro avião já que eram recém-chegados. Responderam que queriam tomar um barco japonês no porto chileno de Tocopilla, porto salitreiro do Norte do Chile. Respondi-lhes que para tal não necessitavam viajar para o Chile, no outro extremo do continente, posto que esses mesmos navios japoneses encostavam no porto mexicano de Manzanillo. aonde podiam ir a pé se quisessem e chegariam a tempo.
Entreolharam-se e sorriram confusos. Falaram entre si em seu idioma. Consultaram o secretário da embaixada japonesa que os acompanhava.
Este resolveu ser franco comigo, dizendo:
Olhe, colega, acontece que este navio mudou seu itinerário e não encostará mais em Manzanillo. É, pois, no porto chileno onde devem tomá-lo estes especialistas ilustres.
Rapidamente passou por minha cabeça a visão confusa de acharme diante de algo muito importante. Pedi-lhes seus passaportes, suas fotografias, seus documentos de trabalho nos Estados Unidos, etc. e em seguida disse-lhes que voltassem no dia seguinte.
Não estavam de acordo. Necessitavam do visto imediatamente e pagariam qualquer preço por ele.
Como o que eu procurava era ganhar tempo, mostrei a eles que não estava em minhas atribuições dar vistos de maneira instantânea e que falaríamos no dia seguinte.
Fiquei sozinho.
Pouco a pouco foi se definindo o enigma em minha cabeça. Por que a fuga precipitada da América do Norte e a extrema urgência do visto? E o barco japonês, pela primeira vez em trinta anos, desviava sua rota? O que queria isto dizer?
Em minha cabeça fez-se a luz. Tratava-se de um grupo importante e bem informado, com toda certeza da espionagem japonesa, que escapava dos Estados Unidos ante a iminência de algo grave por acontecer. E isto não podia ser outra coisa senão a participação do Japão na guerra. Os japoneses de minha história estavam a par do segredo.
A conclusão a que cheguei produziu em mim um nervosismo extremo. Que podia fazer?
Dos representantes das nações aliadas no México não conhecia nem ingleses nem norte-americanos. Só estava em relação direta com aqueles que tinham sido credenciados oficialmente como delegados do General De Gaulle e com acesso ao governo mexicano.
Comuniquei-me com eles imediatamente. Expliquei-lhes a situação. Tínhamos na mão os nomes e os dados desses japoneses. Se os franceses se decidissem a intervir eles seriam apanhados. Argumentei entusiasmado e depois impaciente ante a impassibilidade dos representantes gaullistas.
Jovens diplomatas – disse. – Encham-se de glória e descubram o segredo destes agentes nipônicos. De minha parte não lhes darei o visto. Mas os senhores devem tomar uma resolução imediata.
Este chove-não-molha durou dois dias mais. Soustelle não se interessou pelo assunto. Não quiseram fazer nada. E eu, simples cônsul chileno, não podia ir mais além. Diante da minha negativa em conceder-lhes visto, os japoneses proveram-se rapidamente de passaportes diplomáticos, recorreram à embaixada do Chile, e chegaram a tempo para embarcar em Tocopilla.
Uma semana depois o mundo despertava com o anúncio do bombardeio de Pearl Harbor.
Pablo Neruda, in Confesso que vivi

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