aquela
que veio me ver, ninguém acredita, é minha filha. Ficou torta assim
e destrambelhada por causa do filho. Ou neto, agora não sei direito
se o rapaz era meu neto ou tataraneto ou o quê. Ao passo que o tempo
futuro se estreita, as pessoas mais novas têm de se amontoar de
qualquer jeito num canto da minha cabeça. Já para o passado tenho
um salão cada vez mais espaçoso, onde cabem com folga meus pais,
avós, primos distantes e colegas da faculdade que eu já tinha
esquecido, com seus respectivos salões cheios de parentes e
contraparentes e penetras com suas amantes, mais as reminiscências
dessa gente toda, até o tempo de Napoleão. Veja só, neste momento
olho para você, que toda noite está comigo tão amorosa, e fico até
sem graça de perguntar seu nome de novo. Em compensação, recordo
cada fio da barba do meu avô, que só conheci de um retrato a óleo.
E do livrete que deve estar por aí na cômoda, ou lá em cima na
cabeceira da minha mãe, pergunte à arrumadeira. É um pequeno livro
com uma sequência de fotos quase idênticas, que em folheada ligeira
dão a ilusão de movimento, feito cinema. Retraíam meu avô a
caminhar em Londres, e em criança eu gostava de folhear as fotos de
trás para diante, para fazer o velho dar marcha a ré. É com essa
gente antiquada que sonho, quando você me põe para dormir. Eu por
mim sonhava com você em todas as cores, mas meus sonhos são que nem
cinema mudo, e os atores já morreram há tempos. Dia desses fui
buscar meus pais no parque dos brinquedos, porque no sonho eles eram
meus filhos. Fui chamá-los com a boa-nova de que meu avô
recém-nascido seria circuncidado, tinha virado judeu sem mais nem
menos. De Botafogo, o sonho cortou para a fazenda na raiz da serra,
onde encontramos meu avô de barba e suíças brancas, caminhando de
fraque diante do Parlamento Inglês. Ia num passo rápido e duro,
como de pernas mecânicas, dez metros para a frente, dez metros para
trás, igual ao livrete. Meu avô foi um figurão do Império,
grão-maçom e abolicionista radical, queria mandar todos os pretos
brasileiros de volta para a África, mas não deu certo. Seus
próprios escravos, depois de alforriados, escolheram permanecer nas
propriedades dele. Possuía cacauais na Bahia, cafezais em São
Paulo, fez fortuna, morreu no exílio e está enterrado no cemitério
familiar da fazenda na raiz da serra, com capela abençoada pelo
cardeal arcebispo do Rio de Janeiro. Seu ex-escravo mais chegado, o
Balbino, fiel como um cão, ficou sentado para sempre sobre a tumba
dele. Se você chamar um táxi, posso lhe mostrar a fazenda, a capela
e o mausoléu.
Chico
Buarque de Holanda, in Leite derramado
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