Diz-se gato amarrado ou amarrar
o gato quando alguém está embriagado. “Amarrou um gato
horroroso... Anda sempre de gato amarrado!”.
No velho bom tempo, aí pela metade do
século XIX, durante os Oiteiros na cidade do Natal, num duelo de
improviso poético sob o mote tota pulcra es Maria, Francisco
Gomes da Silva defendia o pai que fora encontrado com o gato
amarrado. Na linguagem da época foi assim a décima:
Estou-vos muito obrigado
Em falar-me de meu pai;
Pois Jajana quando cai,
Vós ficais bem agastado.
Isto de gato amarrado
Não deve ser zombaria,
Muita gente já bebia
Como ele já bebeu,
E gloso por prazer meu:
Tota pulcra es Maria!
A frase gato amarrado refere-se
mais claramente ao andar oscilante do ébrio, o para-lá-e-para-cá,
balanceado, o clássico cercar frango dos nossos antepassados.
A frase é de origem náutica, da
navegação a vela, e nos veio de Portugal. Lá não se dizia gato
amarrado ou amarrar o gato mas tomar a gata ou
larga a gata. Gata é uma vela de cima da mezena. Com a gata
caçada ou ferrada, isto é, enrolada, amarrada, o navio oscila mais,
dançando na onda. Com a gata solta, opondo uma superfície maior ao
vento, o barco corrigia um tanto o balanço.
No dicionário de Frei Domingos Vieira,
lê-se: “larga a gata, frase popular; diz-se a um bêbado
que vai cambaleando, como se solta a gata a navio que joga muito de
bombordo a estibordo para ir mais firme e direito”.
Pereira da Costa, no Vocabulário
pernambucano, registra: “Amarrar o gato.
Tomar uma carraspana e ficar aos tombos, cambaleando, como fica
jogando navio em marcha que tem a gata amarrada, isto é, a
vela de cima da mezena, solta, a qual, enfunada, diminui
consideravelmente o seu jogo, vindo daí a origem da locução”.
Com a gata amarrada o navio
balança e diminui com a gata desferrada, solta. A substituição de
gata por gato é brasileira.
Solte-se o gato…
Luís da Câmara Cascudo, in
Coisas que o povo diz
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