Brasil 2 x 0 Bulgária - Copa do Mundo de 1966
— Que
negócio é esse? Ninguém me atende?
A
muito custo, atenderam; isto é, confessaram que não podiam atender,
por causa do jogo com a Bulgária.
— Mas
que é que eu tenho com o jogo com a Bulgária, façam-me o favor? E
os senhores por acaso foram escalados para jogar?
O
chefe da seção aproximou-se, apaziguador:
—
Desculpe,
cavalheiro. Queira voltar na quinta-feira, 14. Quinta-feira não
haverá jogo, estaremos mais tranquilos.
— Mas
prometeram que meu papel ficaria pronto hoje sem falta.
— Foi
um lapso do funcionário que lhe prometeu tal coisa. Ele não se
lembrou da Bulgária. O Brasil lutando com a Bulgária, o senhor quer
que o nosso pessoal tenha cabeça fria para informar papéis?
—
Perdão,
o jogo vai ser logo mais, às quinze horas. É meio-dia, e já estão
torcendo?
— Ah,
meu caro senhor, não critique nossos bravos companheiros, que
fizeram o sacrifício de vir à repartição trabalhar quando podiam
ficar em casa ou na rua, participando da emoção do povo…
— Se
vieram trabalhar, por que não trabalham?
—
Porque
não podem, ouviu? Porque não podem. O senhor está ficando
impertinente. Aliás, disse logo de saída que não tinha nada com o
jogo com a Bulgária! O Brasil em guerra — porque é uma verdadeira
guerra, como acentuam os jornais — nos campos da Europa, e o
senhor, indiferente, alienado, perguntando por um vago papel, uma
coisinha individual, insignificante, em face dos interesses da
pátria!
— Muito
bem! Muito bem! — funcionários batiam palmas.
— Mas,
perdão, eu… eu…
— Já
sei que vai se desculpar. O momento não é para dissensões. O
momento é de união nacional, cérebros e corações uníssonos.
Vamos, cavalheiro, não perturbe a preparação espiritual dos meus
colegas, que estão analisando a Seleção Búlgara e descobrindo
meios de frustrar a marcação de Pelé. O senhor acha bem o 4-2-4 ou
prefere o 4-3-3?
— Bem,
eu… eu…
—
Compreendo
que não queira opinar. É muita responsabilidade.
Eu aliás não forço opinião de ninguém. Esta algazarra que o
senhor está vendo resulta da ampla liberdade de opinião com que se
discute a formação do selecionado. Todos querem ajudar, por isso
cada um tem sua ideia própria, que não se ajusta com a ideia do
outro, mas o resultado é admirável. A unidade pela diversidade. Na
hora da batalha, formamos a frente única.
— Está
certo, mas será que, voltando na quinta-feira, eu encontro o meu
papel pronto mesmo?
— Ah,
o senhor é terrível, nem numa hora dessas esquece o seu papelzinho!
Eu disse quinta-feira? Sim, certamente, pois é dia de folga no
campeonato. Mas espere aí, com quatro jogos na quarta-feira, e o
gasto de energia que isso determina, como é que eu posso garantir o
seu papel para quinta-feira? Quer saber de uma coisa? Seja razoável,
meu amigo, procure colaborar, procure ser bom brasileiro, volte em
agosto, na segunda quinzena de agosto é melhor, depois de
comemorarmos a conquista do Tri.
— E…
se não conquistarmos?
— Não
diga uma besteira dessas! Sai, azar! Vá-se embora, antes que eu
perca a cabeça e…
Vozes
indignadas:
— Fora!
Fora!
O
servente sobe na cadeira e comanda o coro:
—
Bra-sil!
Bra-sil! Bra-sil!
Está
salva a honra da torcida, e o importuno retira-se precipitadamente.
Carlos
Drummond de Andrade, in
70 historinhas
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