domingo, 11 de março de 2018

O importuno

Brasil 2 x 0 Bulgária - Copa do Mundo de 1966

Que negócio é esse? Ninguém me atende?
A muito custo, atenderam; isto é, confessaram que não podiam atender, por causa do jogo com a Bulgária.
Mas que é que eu tenho com o jogo com a Bulgária, façam-me o favor? E os senhores por acaso foram escalados para jogar?
O chefe da seção aproximou-se, apaziguador:
Desculpe, cavalheiro. Queira voltar na quinta-feira, 14. Quinta-feira não haverá jogo, estaremos mais tranquilos.
Mas prometeram que meu papel ficaria pronto hoje sem falta.
Foi um lapso do funcionário que lhe prometeu tal coisa. Ele não se lembrou da Bulgária. O Brasil lutando com a Bulgária, o senhor quer que o nosso pessoal tenha cabeça fria para informar papéis?
Perdão, o jogo vai ser logo mais, às quinze horas. É meio-dia, e já estão torcendo?
Ah, meu caro senhor, não critique nossos bravos companheiros, que fizeram o sacrifício de vir à repartição trabalhar quando podiam ficar em casa ou na rua, participando da emoção do povo…
Se vieram trabalhar, por que não trabalham?
Porque não podem, ouviu? Porque não podem. O senhor está ficando impertinente. Aliás, disse logo de saída que não tinha nada com o jogo com a Bulgária! O Brasil em guerra — porque é uma verdadeira guerra, como acentuam os jornais — nos campos da Europa, e o senhor, indiferente, alienado, perguntando por um vago papel, uma coisinha individual, insignificante, em face dos interesses da pátria!
Muito bem! Muito bem! — funcionários batiam palmas.
Mas, perdão, eu… eu…
Já sei que vai se desculpar. O momento não é para dissensões. O momento é de união nacional, cérebros e corações uníssonos. Vamos, cavalheiro, não perturbe a preparação espiritual dos meus colegas, que estão analisando a Seleção Búlgara e descobrindo meios de frustrar a marcação de Pelé. O senhor acha bem o 4-2-4 ou prefere o 4-3-3?
Bem, eu… eu…
Compreendo que não queira opinar. É muita responsabilidade. Eu aliás não forço opinião de ninguém. Esta algazarra que o senhor está vendo resulta da ampla liberdade de opinião com que se discute a formação do selecionado. Todos querem ajudar, por isso cada um tem sua ideia própria, que não se ajusta com a ideia do outro, mas o resultado é admirável. A unidade pela diversidade. Na hora da batalha, formamos a frente única.
Está certo, mas será que, voltando na quinta-feira, eu encontro o meu papel pronto mesmo?
Ah, o senhor é terrível, nem numa hora dessas esquece o seu papelzinho! Eu disse quinta-feira? Sim, certamente, pois é dia de folga no campeonato. Mas espere aí, com quatro jogos na quarta-feira, e o gasto de energia que isso determina, como é que eu posso garantir o seu papel para quinta-feira? Quer saber de uma coisa? Seja razoável, meu amigo, procure colaborar, procure ser bom brasileiro, volte em agosto, na segunda quinzena de agosto é melhor, depois de comemorarmos a conquista do Tri.
E… se não conquistarmos?
Não diga uma besteira dessas! Sai, azar! Vá-se embora, antes que eu perca a cabeça e…
Vozes indignadas:
Fora! Fora!
O servente sobe na cadeira e comanda o coro:
Bra-sil! Bra-sil! Bra-sil!
Está salva a honra da torcida, e o importuno retira-se precipitadamente.
Carlos Drummond de Andrade, in 70 historinhas

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