domingo, 11 de março de 2018

Conceito popular da ofensa física

A época em que morei no Tirol, bairro de Natal, coincide com a fervorosa inicial das pesquisas de Etnografia e Folclore.
Lembro dois mestres nessa Ciência do Popular, inesgotáveis de reminiscências e de notícias saborosas. João Monteiro, cearense do Aracati, falecido em junho de 1935, guarda municipal, antigo furriel do Batalhão de Segurança, encarregado de uma propriedade de meu Pai, colaborou no meu Contos tradicionais do Brasil, e várias estórias estão assinaladas com seu nome. O outro era Seu Nô, Francisco Teixeira, vigia de gado, depois soldado do Esquadrão de Cavalaria. Esse narrou uma proeza do Lobisomem, versão brasileira da confidência de Níceros, em Petrônio (Satyricon, LXII), e que incluí na Geografia dos mitos brasileiros, devidamente autenticada. Ambos conheciam o sertão - velho e a cidade do outro tempo, costumes, figuras, regras do bem-viver, um vasto e vivo direito consuetudinário sedutor. Como eram homens do povo, tinham autoridade de falar em nome do inconsciente coletivo, como dizia Jung, atualizando o imemorial e legitimando o primeiro arquétipo.
Sabiam apenas assinar o nome nos recibos e da hora eminente da decisão eleitoral. Podiam dizer como Sancho Panza: “Yo no sé leer ni escribir, puesto que sé firmar”.
Um motivo de minhas indagações era o complexo do Código Penal Popular, as noções tradicionais sobre a responsabilidade criminal e as modalidades essenciais da culpa.
Foram, João Monteiro e Seu Nô, mestres seguros e leais porque a ciência era consciência para eles.
Para ambos, o homicídio era o mais defensável e natural. O ferimento grave ou leve não existia no plano diferencial físico, e sim moral. Entre uma facada no estômago e uma bofetada na cara, de mão aberta, estalante, não podia haver comparação e sentido de equilíbrio. A bofetada era positivamente um crime real, danoso, indisfarçável e de importância muitíssimo mais ampla que a punhalada.
Repetiam ditados antiquíssimos do julgamento anônimo: “Bofetada, mão na espada!”, “Bofetão, sangue no chão!”, “Bofetada, mão cortada!”, “Mão na venta, não se aguenta!”.
Os dicionários não registram a sinonímia vulgar desses golpes. Bofete, bofetada, bofetão, tapa, tabefe e tapona são sinônimos. No Norte, tapa é feminino e no Sul, masculino. Todos de mão aberta e com intenção humilhante, castigo aviltador, desmoralizante, com significação popular superior a um tiro, porque esse não diminui o moral.
A Moral liga-se aos preceitos religiosos. O Moral aos direitos sociais, dignidade, brio, compostura, vergonha pessoal.
O murro é que é de mão fechada. Soco. Punhada. É sinônimo de tapa quando aplicado nos olhos ou no queixo, silenciando o falador. Tapa-olho. Tapa-queixo.
O francês usa também a tape, de taper, boucher; coup donné avec la main, provocador dos duelos antigos. Victor Hugo fala numa ama cuja mão était un magasin de tapes.
O murro é um valor inferior à tapona na face, notadamente. Murro, tabefe, tapa valem conforme o sítio em que foram aplicados. São todos superiores aos ferimentos pelas armas. Levam um símbolo mais próximo do agressor. Uma arma é um prolongamento da pessoa mais intrinsecamente material. A mão e o pé traduzem o próprio e completo indivíduo atuante. A mão e o pé não são instrumentos. Constituem a mesma criatura total. Uma navalhada no rosto não terá a mesma importância da tapona sonora, deixando o vergão acintoso. Os ferimentos pelas armas são moralmente inferiores.
Esse orgulho popular pela face, valendo vergonha, dignidade, pundonor, determinou modificação europeia nas penas deformantes da fisionomia. Na Espanha, as Partidas (ley 6, tit. 31, partida 7) aboliram-nas, porque la cara del hombre hizo Deus a su semejanza. João Monteiro dizia, gravemente: “A cara do homem é sagrada!”. Quando Júlio César mandava, na manhã de Farsália, que seus soldados ferissem no rosto os elegantes partidários de Pompeu, teria razões de efeito mágico na mutilação da face inimiga, com o seu Miles , faciem feri , cruel.
Para Seu Nô e João Monteiro a desfeita verdadeira era mão na cara ou abanar as ventas. A primeira caracterizava a afronta e a segunda o desafio insuportável. Era o chamar a terreiro. Apelo à lide. A tolerância rasgava a carta da masculinidade. É o motivo dramático do Cid de Corneille, erguido nesses fundamentos psicológicos.
As ventas, nariz, são partes nobres. Intocáveis como a barba. No nhengatu, ti, tin, vale nariz, focinho, e também vergonha. lnti parecô será tim? Não tendes nariz, não tendes vergonha? Clássico, para o povo, o não ter vergonha nas ventas. Ouvir desaforos nas ventas. Meter o dedo na venta de alguém é a suprema injúria, humilhante. “Se ele repetir o que disse, meto-lhe o dedo nas ventas!”. É ainda frase comum, especialmente no Sul do País. O pontapé vale a desonra. Desmoralização absoluta. Notadamente se foi dado nas nádegas. Nivelado aos cães. Nenhuma outra manifestação agressiva se equipara à brutalidade de sua significação. “Apanhar de pé!”, a humilhação sem par. “Dou-lhe de pé!”, não há pior ameaça para um homem. Quem dá de pé volta deitado! Volta na horizontal, posto na rede fúnebre de transportar cadáver, abatido na represália inevitável e obrigatória. Pontapé é pra cachorro. Os escravos reclamavam. Feria sua alma. Nosso Senhor tudo sofreu, mas não teve pontapés. Nem aos animais deve ser aplicado. Era a única repreensão sertaneja aos modos dos meninos da fazenda:
Deixe de ser bruto ! Dando no bicho com o pé !…
Luís da Câmara Cascudo, in Coisas que o povo diz

Nenhum comentário:

Postar um comentário