A
época em que morei no Tirol, bairro de Natal, coincide com a
fervorosa inicial das pesquisas de Etnografia e Folclore.
Lembro
dois mestres nessa Ciência do Popular, inesgotáveis de
reminiscências e de notícias saborosas. João Monteiro, cearense do
Aracati, falecido em junho de 1935, guarda municipal, antigo furriel
do Batalhão de Segurança, encarregado de uma propriedade de meu
Pai, colaborou no meu Contos tradicionais do Brasil, e várias
estórias estão assinaladas com seu nome. O outro era Seu Nô,
Francisco Teixeira, vigia de gado, depois soldado do Esquadrão de
Cavalaria. Esse narrou uma proeza do Lobisomem, versão brasileira da
confidência de Níceros, em Petrônio (Satyricon, LXII), e
que incluí na Geografia dos mitos brasileiros, devidamente
autenticada. Ambos conheciam o sertão - velho e a cidade do outro
tempo, costumes, figuras, regras do bem-viver, um vasto e vivo
direito consuetudinário sedutor. Como eram homens do povo, tinham
autoridade de falar em nome do inconsciente coletivo, como dizia
Jung, atualizando o imemorial e legitimando o primeiro arquétipo.
Sabiam
apenas assinar o nome nos recibos e da hora eminente da decisão
eleitoral. Podiam dizer como Sancho Panza: “Yo no sé leer ni
escribir, puesto que sé firmar”.
Um
motivo de minhas indagações era o complexo do Código Penal
Popular, as noções tradicionais sobre a responsabilidade
criminal e as modalidades essenciais da culpa.
Foram,
João Monteiro e Seu Nô, mestres seguros e leais porque a ciência
era consciência para eles.
Para
ambos, o homicídio era o mais defensável e natural. O ferimento
grave ou leve não existia no plano diferencial físico, e sim moral.
Entre uma facada no estômago e uma bofetada na cara, de mão aberta,
estalante, não podia haver comparação e sentido de equilíbrio. A
bofetada era positivamente um crime real, danoso, indisfarçável e
de importância muitíssimo mais ampla que a punhalada.
Repetiam
ditados antiquíssimos do julgamento anônimo: “Bofetada, mão na
espada!”, “Bofetão, sangue no chão!”, “Bofetada, mão
cortada!”, “Mão na venta, não se aguenta!”.
Os
dicionários não registram a sinonímia vulgar desses golpes.
Bofete, bofetada, bofetão, tapa, tabefe e tapona são sinônimos. No
Norte, tapa é feminino e no Sul, masculino. Todos de mão aberta e
com intenção humilhante, castigo aviltador, desmoralizante, com
significação popular superior a um tiro, porque esse não diminui
o moral.
A
Moral liga-se aos preceitos religiosos. O Moral aos direitos sociais,
dignidade, brio, compostura, vergonha pessoal.
O
murro é que é de mão fechada. Soco. Punhada. É sinônimo de tapa
quando aplicado nos olhos ou no queixo, silenciando o falador.
Tapa-olho. Tapa-queixo.
O
francês usa também a tape, de taper, boucher;
coup donné avec la main, provocador dos duelos antigos.
Victor Hugo fala numa ama cuja mão était un magasin de tapes.
O
murro é um valor inferior à tapona na face, notadamente. Murro,
tabefe, tapa valem conforme o sítio em que foram aplicados. São
todos superiores aos ferimentos pelas armas. Levam um símbolo mais
próximo do agressor. Uma arma é um prolongamento da pessoa mais
intrinsecamente material. A mão e o pé traduzem o próprio e
completo indivíduo atuante. A mão e o pé não são instrumentos.
Constituem a mesma criatura total. Uma navalhada no rosto não terá
a mesma importância da tapona sonora, deixando o vergão acintoso.
Os ferimentos pelas armas são moralmente inferiores.
Esse
orgulho popular pela face, valendo vergonha, dignidade, pundonor,
determinou modificação europeia nas penas deformantes da
fisionomia. Na Espanha, as Partidas (ley 6, tit. 31, partida
7) aboliram-nas, porque la cara del hombre hizo Deus a su
semejanza. João Monteiro dizia, gravemente: “A cara do homem é
sagrada!”. Quando Júlio César mandava, na manhã de Farsália,
que seus soldados ferissem no rosto os elegantes partidários de
Pompeu, teria razões de efeito mágico na mutilação da face
inimiga, com o seu Miles , faciem feri , cruel.
Para
Seu Nô e João Monteiro a desfeita verdadeira era mão na
cara ou abanar as ventas. A primeira caracterizava a
afronta e a segunda o desafio insuportável. Era o chamar a
terreiro. Apelo à lide. A tolerância rasgava a carta da
masculinidade. É o motivo dramático do Cid de Corneille,
erguido nesses fundamentos psicológicos.
As
ventas, nariz, são partes nobres. Intocáveis como a barba.
No nhengatu, ti, tin, vale nariz, focinho, e também vergonha.
lnti parecô será tim? Não tendes nariz, não tendes
vergonha? Clássico, para o povo, o não ter vergonha nas ventas.
Ouvir desaforos nas ventas. Meter o dedo na venta de
alguém é a suprema injúria, humilhante. “Se ele repetir o que
disse, meto-lhe o dedo nas ventas!”. É ainda frase comum,
especialmente no Sul do País. O pontapé vale a desonra.
Desmoralização absoluta. Notadamente se foi dado nas nádegas.
Nivelado aos cães. Nenhuma outra manifestação agressiva se
equipara à brutalidade de sua significação. “Apanhar de pé!”,
a humilhação sem par. “Dou-lhe de pé!”, não há pior ameaça
para um homem. Quem dá de pé volta deitado! Volta na
horizontal, posto na rede fúnebre de transportar cadáver, abatido
na represália inevitável e obrigatória. Pontapé é pra
cachorro. Os escravos reclamavam. Feria sua alma. Nosso Senhor
tudo sofreu, mas não teve pontapés. Nem aos animais deve ser
aplicado. Era a única repreensão sertaneja aos modos dos meninos da
fazenda:
– Deixe
de ser bruto ! Dando no bicho com o pé !…
Luís
da Câmara Cascudo, in
Coisas que o povo diz
Nenhum comentário:
Postar um comentário