A
primeira vez que vi uma mulher tinha onze anos e me surpreendi
subitamente tão desarmado que desabei em lágrimas. Eu vivia num
ermo habitado apenas por cinco homens. Meu pai dera um nome ao
lugarejo. Simplesmente chamado assim: “Jesusalém”. Aquela era a
terra onde Jesus haveria de se descrucificar. E pronto, final.
Meu
velho, Silvestre Vitalício, nos explicara que o mundo terminara e
nós éramos os últimos sobreviventes. Depois do horizonte,
figuravam apenas territórios sem vida que ele vagamente designava
por “Lado-de-Lá”. Em poucas palavras, o inteiro planeta se
resumia assim: despido de gente, sem estradas e sem pegada de bicho.
Nessas longínquas paragens, até as almas penadas já se haviam
extinto.
Em
contrapartida, em Jesusalém, não havia senão vivos.
Desconhecedores do que fosse saudade ou esperança, mas gente
vivente. Ali existíamos tão sós que nem doença sofríamos e eu
acreditava que éramos imortais. À nossa volta, apenas os bichos e
as plantas morriam. E, nas estiagens, desfalecia de mentira o nosso
rio sem nome, um riacho que corria nas traseiras do acampamento.
A
humanidade era eu, meu pai, meu irmão Ntunzi e Zacaria Kalash, nosso
serviçal que, conforme verão, nem presença tinha. E mais nenhum
ninguém. Ou quase nenhum. Para dizer a verdade, esqueci-me de dois
semi-habitantes: a jumenta Jezibela, tão humana que afogava os
devaneios sexuais de meu velho pai. E também não referi o meu Tio
Aproximado. Esse parente vale uma menção: porque ele não vivia
conosco no acampamento. Morava junto ao portão de entrada da
coutada, para além da permissível distância, e apenas nos visitava
de quando em quando. Entre nós e a sua cabana ficava a lonjura de
horas e feras.
Para
nós, os miúdos, a chegada de Aproximado era razão de festa maior,
uma sacudidela na nossa árida monotonia. O Tio trazia mantimentos,
roupas, bens de necessidade. Meu pai, nervoso, saía ao encontro do
camião onde se amontoavam as encomendas. Interceptava o visitante
antes que o veículo invadisse a vedação que circundava o casario.
Nessa cerca, Aproximado era forçado a lavar-se para não trazer
contaminações da cidade. Lavava-se com terra e com água, fizesse
frio ou fizesse noite. Depois do banho, Silvestre desbagageava o
camião, apressando as entregas, abreviando as despedidas. Num
volátil instante, mais breve que um bater de asas, ante o nosso
olhar angustiado, Aproximado voltava a extinguir-se para além do
horizonte.
— Ele
não é um irmão direto — justificava Silvestre. — Não
quero muita conversa, esse homem não conhece os nossos costumes.
Essa
humanidadezita, unida como os cinco dedos, estava afinal dividida:
meu pai, o Tio e Zacaria tinham pele escura; eu e Ntunzi éramos
igualmente negros, mas de pele mais clara.
— Somos
de outra raça? — perguntei um dia. Meu pai respondeu:
—
Ninguém é de uma raça. As raças
— disse ele — são fardas que vestimos.
Talvez
Silvestre tivesse razão. Mas eu aprendi, tarde demais, que essa
farda se cola, às vezes, à alma dos homens.
— Vem
de sua mãe, Dordalma, essa claridade da pele. Alminha era um
bocadinho mulata — esclareceu o Tio.
Mia
Couto, in Antes de nascer o mundo
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