terça-feira, 6 de setembro de 2016

Como os homens são maus!

A sua biblioteca a esse respeito era completa e valiosa. Possuía verdadeiros “incunábulos”, se assim se pode dizer, da química moderna. No original ou em tradução, lá havia preciosidades. De Lavoisier, encontravam-se quase todas as memórias, além do seu extraordinário e sagacíssimo Traité Élém entaire de Chimie, présenté dans un ordre et d'après les découvertes modernes.
O velho lente, no dizer do filho, não podia pegar nesse respeitável livro que não fosse tomado de uma grande emoção.
Veja só meu filho, como os homens são maus! Lavoisier publicou esta maravilhosa obra no início da Revolução, a qual ele sinceramente aplaudiu... Ela o mandou para o cadafalso — sabe você por quê?
Não, papai.
Porque Lavoisier tinha sido uma espécie de coletor ou cousa parecida no tempo do rei. Ele o foi, meu filho, para ter dinheiro com que custeasse as suas experiências. Veja você como são as cousas e como é preciso ser mais do que homem para bem servir aos homens...
Lima Barreto, in A biblioteca (conto)

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