Estou muito afastado dos processos
educacionais. O homem é o único animal que pode ser educado. Todos
os outros animais podem ser adestrados. Educar pressupõe deixar o
outro ser dono do seu próprio destino. A educação se faz pela
liberdade. Liberdade que você dá ao outro para que ele escolha o
seu destino.
Vejo que os processos de educação, o que chamamos de escola, não deixam de ser processos de adestramento. Não é uma educação plena, é um processo de adestramento. É uma criança sujeita ao desejo do professor. E é o professor sujeito ao desejo do poder político. Então, a criança é sem autonomia. Ela deveria ser o senhor da coisa. No entanto, é o objeto.
A escola não forma o leitor de literatura. A escola só ensina. Isso é da própria história da educação brasileira, quando nos anos 1960 o MEC-USAID (Série de acordos produzidos, nos anos 1960, entre o Ministério da Educação brasileiro (MEC) e a United States Agency for International Development (USAID). Visavam estabelecer convênios de assistência técnica e cooperação financeira à educação brasileira. Inseriam-se num contexto histórico fortemente marcado pela concepção de educação como pressuposto do desenvolvimento econômico.) chega ao Brasil e traz os métodos americanos para a escola brasileira.
No golpe militar de 64, Jarbas Passarinho oficializa a reforma da educação e começa a dizer que a escola só pode ensinar aquilo que pode ser medido, só o que é mensurável. Tira-se todo ensino afetivo da escola, pois a afetividade não é mensurável. Você pode medir muitas crianças, mas não pode medir qual delas é a mais feliz. A escola brasileira, da década de 1960 para cá, ficou unicamente tentando ensinar só o que é mensurável. Entrou no regime da economia, dos números.
Há coisas na educação que não podem ser mensuráveis, são intuitivas, estão no campo da percepção, do afeto. Isso foi tudo jogado fora.
De 1964 para cá, De 1964 para cá, quando os americanos começaram a dar as normas para a educação brasileira, não se pode falar de honestidade porque não é mensurável; não se pode falar de fraternidade e amor, pois não são mensuráveis. Quando o professor entra na sala de aula, tem que esquecer a vida dele do lado de fora. Ali dentro, ele não tem vida própria, é um facilitador da aprendizagem. Fomos trazendo isso até os dias de hoje e perdemos.
A literatura, como não é mensurável, perde totalmente o sentido. É muito interessante porque quando começa a ditadura, a literatura se torna muito importante. Todas as escolas liam uma história considerada literatura. Era uma história de um passarinho que estava preso em uma gaiola e todo o dia de manhã a criança levantava, trocava o alpiste, a aguinha e o passarinho cantava, cantava. Um dia, o menino esqueceu a porta aberta e o passarinho voou e foi para cima de uma árvore. Aí, cai uma chuva forte e ele precisa se esconder em uma calha do telhado, vem um gato e avança. Ele corre para o esgoto e vem um rato. Até que o passarinho não aguenta essa liberdade e volta para a gaiola, fecha a portinha e continua cantando muito feliz. É isso que a ditadura quis falar que era literatura. Isso circulou no Brasil de cabo a rabo. Era a grande obra literária.
Bartolomeu
Campos de Queirós,
in Palestra no Teatro do Paiol, Curitiba – PR
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