Mona Lisa (1503), de Leonardo da Vinci
Libertar-se
da ordem e de suas inseparáveis extravagâncias. Como dói a certeza
das coisas incertas; como machuca a validade das coisas inválidas;
como entedia a urgência do que não nos interessa; como fere
(corpo-alma, verbo-palavra) a utilidade do que é inútil; como mente
a lógica fundante das questões periféricas; como são porosas as
pessoas que se dizem essenciais; como reluzem aqueles que, ocos por
dentro, desfilam suas mediocridades a torto e a direito; como são
insignificantes os amores que se bastam a si mesmos; como são vazios
os credos que dinamitam a solidão alheia; como é desértica a fé
que se reduz ao tilintar das moedas; como é vã a pressa dos
impacientes e a indulgência dos lerdos. Libertar-se dos cataclismos
da ordem com suas flechas certeiras e suas extravagantes desculpas –
mire, veja, repare, é tudo para o seu bem. Cruz credo! Arrenegue a
bondade exasperante dos certinhos, a orientação miraculosa das
bem-intencionadas criaturas plantonistas de alguma ordem. Poder a
quem serve, servo servil de olhar medroso. Como é doloroso o poder
que se locupleta em infinitas trapaças e, de soslaio, medra penosas
condições ao povo; como é ridícula (coitada das cartas)
a
imprestabilidade do público a serviço do privado: a cumplicidade
dos néscios e a boçalidade dos poderosos fazem a festa aqui e
alhures, o resto que se dane ou se preferir entre noutra história.
Da ordem e pela desordem do olhar, o caos delineia, em timbre
impróprio, o seu caminho em linha torta, feito verso, poesia que se
entrega sem pudores a um continuum poético
de reiteradas reentrâncias, a despeito da mera ordem do dizer,
segue.
R.
Leontino Filho,
in
As
ruas arejadas do verbo impuro
Nenhum comentário:
Postar um comentário