segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Salsinha 2


Perfurei um veio de ressentimentos quando me pronunciei contra a salsinha. Muito mais gente do que se imaginava é contra a salsinha, e só não tinha se manifestado antes pela falta de um pioneiro que desse o primeiro grito. Não sei se por acaso ou determinismo histórico — quem sabe como nascem os líderes? — me vejo à frente de uma rebelião cuja hora, aparentemente, chegou.
Não reivindicamos o fim da salsinha. O movimento é novo e ainda não se fragmentou em alas, mas não me alinharei com nenhuma facção radical que pregue a erradicação da salsinha. Sou pelo gradualismo. A salsinha é uma tradição milenar, e todos sabemos como as velhas ordens custam a morrer. E há quem goste, por alguma razão. O que queremos, já, é o direito de escolher. Nosso lema é: não está escrito em lugar algum que um prato só pode ir para a mesa depois de espalharem salsinha por cima de tudo! O lema talvez precise ser melhorado, mas a ideia é esta. Contra a ditadura do supérfluo ver de!
O sentimento anti-salsinha é forte. Uma leitora escreveu para dizer que aprendeu o nome de salsinha em várias línguas — espanhol (perejil), francês (persil), alemão (petersile), inglês (parsley), tcheco (petergel) e russo (petruchka, claro) — só para poder recusá-la em todas. Outros leitores querem aderir ao movimento mas pedem para saber se “salsinha” é só salsa picada ou um nome genérico para tudo que num prato é puro adorno, como o enfeite no palito do club sanduíche. No meu conceito amplo, “salsinha” inclui até o cravo no doce de coco, que só está ali para a gente morder sem querer.
Os defensores da salsinha dizem que ela existe para bonito, o que só confirma nossa posição: o enfeite não serve para nada e rouba espaço da comida. Mas na cozinha mais preocupada com estética do mundo, a japonesa, é raro se ver salsinha. Você encontra pássaros diáfanos feitos de nabo ou pagodes de gengibre na beira dos pratos, é verdade, mas aí não é mais salsinha. Aí é filosofia.
Luís Fernando Veríssimo, in A mesa voadora

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