“Um
dia estava trabalhando em casa e deitei no chão. Tenho às vezes uma
dor na coluna. Deitei no chão do escritório. Tinha feito muita
coisa naquele dia. De repente, vi uma formiguinha descendo depressa a
parede branca do escritório. Olhando para ela, fiquei tão abismado.
Eu sabia fazer tanta coisa, mas não sabia quem botou o desejo do
açúcar no coração da formiga. Aí, a literatura não dá conta.
Os pequenos gestos da natureza me encabulam muito. Sei que a palavra
não dá conta. Mesmo sabendo que é a palavra que organiza o caos.
No Gênesis, Ele veio e disse: Faça-se
a luz!.
E a luz se fez. Foi a palavra que organizou o caos. Você vai ao
psicanalista porque está em desordem e acredita que a palavra irá
te organizar. A palavra cura. De repente essa palavra não dá conta
de dizer muita coisa. Ao mesmo tempo a palavra desestabiliza. A
palavra é uma coisa muito pesada. Nossa Senhora ficou grávida da
palavra do anjo. O anjo chegou, disse que ela seria mãe e ela
acreditou. A palavra tem esse poder transformador.”
Bartolomeu
Campos de Queirós
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