Ainda
o dia andava à procura do céu, vinha eu em vagaroso carro que mais
a mim me conduzia. De repente, um homem atravessou a calçada,
desavultado vulto avulso. Uma garrafa o empunhava. E ele, todo súbito
e poentio, se embateu frentalmente na viatura. Saltou pelos ares, se
aplacando lá mais adiante, onde se iniciava o passeio. Saí do susto
para inspeccionar sua sobrevivência.
Me
debrucei sobre o restante dele, seu rolado enrodilhado. Não havia
sangue nem quebradura de osso. O maltrapalhado estava a salvo, salvo
erro. Todavia, me meteu pena: suas vestes eram a sujidade. Havia
quase nenhuma roupa em seu sarro. Mesmo o corpo era o que menos lhe
pesava. Os olhos estavam parados, na grade do rosto. Me pareciam
pedir, o quê nem sei.
De
inesperado, o vagabundo se ergueu e apressou umas passadas para
encalçar o longe. Se entrecruzou com sua sombra, assustado de haver
escuro e luz. Em muito zig e pouco zag ele acabou por se devolver ao
chão. Voltei a acudir, cheio dessa culpa que não cabe na razão.
Apanhei o vulto, desarranjado, sem estrutura. Pareceu tontolinho,
sempre agarrado ao arregalado gargalo. Me deitou olhos muito
espantados e pediu desculpa por incómodos. Apalpou o lugar onde se
deitava, e disse:
— Um
de nós está morrendo.
Entreolhei-me
a mim e ao restante mundo. Ele se precisou:
— Estou
falando da terra, parece ela está moribundando.
Lhe
disse que o levaria dali para um sítio que fosse dele. Ajudei-lhe a
entrar no meu carro. Ele recusou com terminância:
— Não
entro em coisa que serve para levar morto.
Amparei
o desandrajoso. Se sustentou em meu ombro e me foi levando pelo
passeio sombrio, através dessa desvastidão onde o negro escurece a
preto.
— Agora
o senhor me entorne aqui...
—
Aqui?”
Esfregando-se
no pescoço como se as mãos fossem de outrem, acrescentou:
— Aqui,
sim. Quero acordar com dormência de lua. Dali ele passou a esbanjar
conversa. Quem sabe o homem desjejuava palavra?
E
dizia sem aparência nenhuma:
— Bem
hajam as folhas, minha cama!”
E
explicava-se enquanto alisava as folhagens mortas: quando se deitava
lhe doía a curva da terra, a costela quebrada do próprio universo.
Assim deitadinho, todo simetrado com o planeta, um subterrâneo rio
falava com suas veias.
— Até
foi bom me aleijar um bocado. Ri-se? Nem sabe como é bom haver um
chão para a gente ter onde cair.
E
nos trocamos nessa conversa com vontade de ser corpo, encosto,
adormecimento. Ficámos a ver as luzinhas da cidade, lá em baixo, a
lembrar que o homem sofre de incurável medo de ser noite. O país
daquele homem seria a noite. Meu território era o dia, com sua
luminesciência tanta que serve mais é para deixarmos de ver.
E
pensei: o primeiro alimento é a luz. Nos invade logo quando
nascemos. Depois, a luminosidade, com suas infinitas cascatas, nos
fica a engordar a alma. Em mim, pelo menos, a primeira saudade é da
luz. Direi, então: me falta a minha luz natal? Quem sabe a alma
deste homem, sempre ninhado no escuro, emagrecera assim a olhos
não-vistos? O homem é bicho diurno. O dia é bicho humano?
Me
foi descendo, espesso, o sono. Avancei despedida não sem retirar do
bolso algumas notas que estendi em direcção ao desastrado:
— Deixo
o senhor com algum dinheiro. Quem sabe lhe virão, mais tarde, as
dores do acidente?”
Para
meu espanto ele recusou. Sem veemência, sem nenhum ênfase. Era
recusa verdadeira.
— Posso
pedir uma qualquer coisa?
— Peça.
— Me
dê um pouco mais da sua acompanhia. Só isso: acompanhia.
Ainda
hesitei, inesperando aquele pedido. O homem nem me fitava, estivesse
envergonhado. E assim, de cabeça baixa, insistiu:
— É
que, sabe, eu não tenho ninguém. Antes ainda tinha quem me
dispensasse migalha de conversa. Mas, agora, já nem. E me dá um
medo de me sozinhar por esses aís.
Quase
que falava para dentro, eu devia baixar orelha para o entender.
Assim, cabismudo, prosseguiu:
— Sabe
o que faço? Vou dizer... mas o senhor me prometa que não zanga...
—
Prometo.
— O
que eu faço, agora, é me deixar atropelar. É. Ser embatido num
resvalo de quase nada. Indemnização que peço é só esta:
companhia de uma noite.
Fiquei
quieto sem me achar conveniência. Nem gesto nem palavra me
defendiam. O atropelado centrou esforço em se erguer, mão sobre o
joelho. Já de pé me segurou o cotovelo:
— Pode
ir, à vontade. - nem imagina como senhor me faz bem, me bater e,
depois, me falar. Agora já nem sinto dor nem dentro nem fora. Anda
fiz menção de ficar, perdido entre garganta e coração. Mas o
andrajoso levantou o braço, em serena sentença:
— Vá,
meu amigo, vá na sua vida.
Regressei
ao carro. Arranquei-me dali, devagar. Olhei no espelho para retrover
o vagabundo. Me lembrei então que nem o nome dele eu anotara. Lhe
chamo agora: o homem da rua. Seu nome ficará assim, inominável,
simplesmente: homem da rua. Lembrando este tempo em que deixou de
haver a rua do homem.
Mia
Couto, in Contos do Nascer da Terra
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