Martinho da Vila (1969)
A
vida do cidadão comum, o brasileiro simples que trabalha, se esforça para criar
seus filhos, colocá-los numa boa escola, pagar suas contas em dia, esta cada
vez mais difícil, não apenas pelo flagelo do desemprego mas também pela
descrença generalizada de que o que importa é a desonestidade, ou seja, o ganho
fácil e sem escrúpulos. Esse desencanto que abala a estima de nosso povo vem chancelado
pelos poderes executivo e legislativo que nos últimos anos avalizaram a
corrupção e a permissividade aos maus costumes, e, como o judiciário não cumpre
seu papel como deveria devido a sua assumida lentidão, temos então, um quadro
desolador onde o cidadão se vê completamente desprotegido e sem voz para reivindicar
democraticamente uma mudança de postura, pois, quem deveria salvaguardar os
direitos e valores morais da nação simplesmente ignoram esse principio, daí se
instalando o caos e a desesperança.
Chego
à conclusão de que o Brasil parece o país do já foi, ou seja, quase se tornou
uma grande nação, tivemos historicamente momentos brilhantes, outros nem tanto,
mas pelo menos nos orgulhávamos do país que construíamos, e esse sentimento de
nostalgia que em grande parte toma conta da população é a demonstração
inequívoca dessa constatação. Perdemos o bonde da história e a sociedade
adoeceu de tal modo que nos da a impressão de estar morrendo e levando consigo
toda a nossa esperança em ver um país mais ético, menos violento, com
autoridades que se respeitem, e um elevado padrão moral.
É
triste constatarmos a gangrena do nosso tecido social, contudo, a esperança tem
que continuar como instrumento de redenção de um povo que precisa regenerar-se
e seguir adiante com altivez, caso contrário as consequências serão piores do
que as que temos hoje, e num quadro desse não me arrisco a nenhum prognóstico
por que será devastador. O que será de nossos filhos e netos? Fazemos a nossa
parte dando-lhes todas as condições necessárias para um bom proceder e
procuramos incutir-lhes valores de respeito, cidadania, a fim de tornarem-se
pessoas de bem, porém são eles cercados, a todo momento, por padrões de
comportamento e exemplos que caminham no sentido diametralmente oposto,
obrigando-os, portanto, a terem que redobrar a vigilância a fim de se tornarem
futuramente os protagonistas de nossa assepsia social. A missão é grande, mas,
necessária e permanente.
Muito
bem! O texto esta num tom de desabafo porque ele se faz necessário, mas, também
pelo fato de querer demonstrar, que quando se quer, se consegue transformar uma
sociedade, tendo como espelho positivo o exemplo que certas pessoas dão ao
longo de suas vidas, sabendo enfrentar com dignidade todas as dificuldades que
se pôs à prova em seu caminho, conseguindo sair vencedoras, fazendo de sua
biografia um modelo de humildade, talento, respeito ao próximo e as suas
tradições, contribuindo para a sua felicidade, dos seus e de todos que se
espelham no seu exemplo, estabelecendo um efeito multiplicador que só traz
benefícios para a nossa sociedade. Esse é o verdadeiro cidadão, o brasileiro
vitorioso, seja na carreira que abraçou e o tornou famoso, ou no anonimato, mas
que contribui sobremaneira para que possamos ser cada vez mais felizes.
Esse
brasileiro típico, lutador e guerreiro, no campo da música popular moderna tem
um nome: o carioca, nascido em 12 de fevereiro de 1938, Martinho José Ferreira,
ou Martinho da Vila, para o Brasil e o mundo. Compositor e poeta de grande
talento, já aos quinze anos fazia seu primeiro samba de terreiro, Piquenique,
para a escola de samba Aprendizes da Boca do Mato e em 1957 aos dezenove anos
inicia uma surpreendente produção de 12 sambas enredo para a escola. Serviu
ainda ao exército, fez um curso de contabilidade, mas seguiu mesmo a vocação de
sambista. Participou de festivais tornando-se mais conhecido do grande público.
O crescente respeito ao seu talento o levou a gravar o primeiro disco na RCA
Victor em 1969 tendo seu nome no título. O resultado foi um dos maiores
fenômenos de popularidade já registrados por um compositor de samba, e seguramente
o primeiro sambista a se tornar recordista em venda de discos. Desse modo, da
noite para o dia, o Brasil ficou sabendo quem era o notável compositor carioca
e Martinho da Vila elevou o samba a um patamar de respeitabilidade que já vinha
crescendo mas que se consolidou com o seu sucesso.
Neste
LP de estreia ele nos brinda com canções que se tornaram referências
permanentes no clássico repertório do samba, a exemplo de Carnaval de ilusões;
Quatro séculos de modas e costumes; O pequeno burguês; Iaiá do cais dourado;
Casa de bamba; Quem é do mar não enjoa; Tom maior e Pra que dinheiro. É difícil
acreditar que num único disco existam tantos sucessos, e que após trinta e sete
de lançados eles continuem sendo cantados pelo povo, e não somente pelos seus contemporâneos,
mas também pela nova geração. Trata-se, portanto, de um disco histórico e
fundamental para a compreensão do processo de aceitação e maturação do samba
como patrimônio de nossa nacionalidade.
Com seu jeito manso meio preguiçoso de
cantar, Martinho da Vila impôs seu estilo, renovando o samba enredo, dando
forma e estrutura ao partido alto, demonstrando sua devoção pelos cantos
africanos e promovendo ao longo de sua trajetória uma verdadeira cruzada em
defesa da arte negra do Brasil, tudo isso sem perder a sua naturalidade, o
espírito de camaradagem que lhe é peculiar, mantendo a tradição do samba,
tornando-se referência e sendo reverenciado por tantos quanto enxergam nele, o
brasileiro que deu certo, o brasileiro que devemos ser.
Luiz
Américo Lisboa Junior,
in www.luizamerico.com.br
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