segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas – Parte 1



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A estrada segue sempre em frente, serpenteando… paramos para descansar e almoçar, conversamos fiado e nos acomodamos para enfrentar a longa etapa seguinte. A fadiga da tarde contrabalança o entusiasmo do primeiro dia, e seguimos num ritmo constante, nem rápido nem devagar.
Pegamos de lado um vento de sudoeste. A cada rajada, a moto se inclina como que por si mesma na direção contrária para se opor ao efeito do vento. Tenho tido uma sensação peculiar a respeito desta estrada, uma certa apreensão, como se estivéssemos sendo observados ou seguidos. Mas à nossa frente não há veículo algum e pelo retrovisor só vejo John e Sylvia, muito atrás de nós.
Não estamos ainda nas Dakotas, mas os campos extensos mostram que estamos chegando perto. Alguns deles estão azuis com as flores do linho, que se agitam em longas ondas como a superfície do oceano. O terreno é mais movimentado do que antes e agora as elevações de terra dominam toda a paisagem, com exceção do céu, que aqui parece mais largo. As casas de fazenda, bem longe, são tão pequenas que mal conseguimos vê-las. O terreno está começando a se abrir.
O final das Planícies Centrais e o começo das Grandes Planícies não são demarcados por uma linha divisória rígida. É uma mudança gradual que pega você de surpresa, como se, partindo num veleiro de um porto de mar agitado, você percebesse de repente que as ondulações do mar ficaram mais largas e profundas e, voltando-se para trás, não visse mais a terra. Há menos árvores aqui, e de repente me dou conta de que elas não são naturais da região. Foram trazidas para cá e plantadas em fileiras ao redor das casas e entre os campos para diminuir a força do vento. Mas, onde não foram plantadas, não se vê a macega dos bosques nem árvores novas – só a relva, às vezes com algumas ervas daninhas e flores silvestres, mas quase toda de gramíneas. São pastagens. Entramos nas pradarias.
Tenho a sensação de que nenhum de nós compreende perfeitamente como será passar quatro dias nestas pradarias em pleno mês de julho. As lembranças de viagens de carro por esta região são imagens de um terreno plano e vazio até onde a vista alcança, de um tédio e uma monotonia extremos em que as horas se sucedem e não se chega a lugar algum; e você se pergunta até onde a estrada pode prosseguir sem nenhuma curva, sem nenhuma mudança na paisagem, que se estende interminável até o horizonte.
John tinha medo de que Sylvia não conseguisse aguentar o desconforto da viagem e quis que ela fosse de avião até Billings, em Montana, mas tanto Sylvia quanto eu o convencemos a desistir da idéia. Eu disse que o desconforto físico só afeta a pessoa quando seu estado de espírito está mal. Quando isso acontece, ela se apega à coisa que lhe causa desconforto e lhe põe a culpa. Porém, quando o estado de espírito está bem, o desconforto físico não tem grande importância. E, quando eu pensava no humor e nos sentimentos de Sylvia, não imaginava que pudesse se queixar.
Além disso, quem chega às Montanhas Rochosas de avião as contempla num determinado tipo de contexto, como uma bela paisagem. Mas quem chega depois de dias e dias de viagem através das pradarias as vê de outra maneira, como uma meta, uma terra prometida. Se John, Chris e eu chegássemos com esse sentimento e Sylvia as visse como “legais” e “bonitas”, haveria mais desarmonia entre nós do que a desarmonia causada pelo calor e pela monotonia das Dakotas. De qualquer modo, também estou pensando em mim, pois gosto de conversar com ela.
Na minha mente, quando olho para estes campos, digo a ela: “Viu?… Viu?” E acho que ela vê. Espero que, com o tempo, ela passe a ver e a sentir um aspecto destas pradarias sobre o qual já desisti de falar com os outros: uma coisa que existe aqui porque aqui não existe mais nada, uma coisa que pode ser percebida graças à ausência de outras coisas. Às vezes, a monotonia e o tédio da vida na cidade parecem deixar Sylvia tão deprimida que pensei que, talvez, no meio desta relva e deste vento sem fim, ela consiga ver uma coisa que às vezes acontece quando aceitamos a monotonia e o tédio. Essa coisa está aqui, mas não sei com que nome chamá-la.
Agora mesmo, no horizonte, vejo algo que, segundo me parece, os outros não veem. Muito longe, a sudoeste – só pode ser avistado do alto desta colina –, o céu tem uma linha escura na parte de baixo. Tempestade chegando. Talvez seja isso que tem me perturbado. Eu mantive a mente fechada de propósito, mas sabia desde o começo que, com esta umidade e este vento, era muito provável que viesse uma tempestade. É uma pena topar com uma no primeiro dia, mas, como eu disse, numa motocicleta você está dentro da paisagem, não é um simples espectador passivo; e as tempestades, em definitivo, fazem parte da paisagem.
Quando se trata de uma nuvem isolada, você pode tentar contorná-la, mas não é o caso desta aqui. Aquela longa tira negra, sem nenhuma nuvem cirro à frente, é uma frente fria. As frentes frias são violentas e, quando vêm do sudoeste, são mais violentas ainda. Frequentemente contêm tornados. Quando chegam, o melhor é se proteger e deixá-las passar. Não duram muito, e o ar frio que vem por trás é bom para andar de moto.
As frentes quentes são as piores. Podem durar dias. Lembro que, alguns anos atrás, eu e Chris viajamos para o Canadá. Vencemos cerca de duzentos quilômetros e fomos pegos por uma frente quente de cuja presença já estávamos mais do que cientes, mas que não compreendíamos. A experiência toda foi bem tola e triste.
Viajávamos com uma motocicletinha de seis cavalos e meio, com bagagem demais e bom senso de menos. A máquina, mesmo acelerada ao máximo, não passava dos setenta quilômetros por hora contra um vento moderado. Não era uma moto para viajar. Na primeira noite, chegamos a um lago em North Woods e acampamos entre tempestades que duraram a noite inteira. Esqueci-me de escavar uma vala em torno da barraca e, às duas da manhã, uma corrente de água entrou nela e encharcou os dois sacos de dormir. Na manhã seguinte, estávamos ensopados, deprimidos e sonolentos, mas pensei que, se fôssemos em frente, a chuva diminuiria depois de algum tempo. Nada disso. Às dez da manhã o céu estava tão escuro que todos os carros trafegavam com os faróis acesos. E foi então que caiu a chuva forte.
Estávamos usando os ponchos que tinham servido de barraca na noite anterior. Na moto, eles se abriam como velas ao vento e diminuíam nossa velocidade para cinquenta quilômetros por hora no máximo. A água na estrada chegou a cinco centímetros de profundidade. Raios caíam à nossa volta. Lembro-me da cara de uma mulher que nos encarou perplexa da janela de um carro que passava, pensando que diabos estávamos fazendo com uma motocicleta nesse tempo. Tenho certeza de que, se ela me fizesse essa pergunta, eu não saberia o que responder.
A velocidade da moto diminuiu para quarenta quilômetros por hora, depois trinta. Então ela começou a tossir, engasgar e pigarrear até que, mal conseguindo chegar a dez por hora, encontramos num bosque de reflorestamento um posto de gasolina velho e mal conservado no qual entramos.
Naquela época, eu, como John, ainda não me ocupara de aprender muitas coisas a respeito do conserto de motocicletas. Lembro-me que segurei o poncho sobre a cabeça para impedir que a chuva caísse sobre o tanque de gasolina e balancei a motocicleta entre as pernas. Ouvi a gasolina chacoalhar lá dentro. Examinei as velas, os contatos e o carburador e tentei dar a partida até ficar exausto.
Entramos no edifício do posto, que também era bar e restaurante, e comemos um bife semicarbonizado. Então, saí e tentei de novo. Chris ficava me fazendo perguntas que começaram a me deixar com raiva, pois ele não percebia o quanto a situação era séria. Por fim, percebi que nada daquilo adiantava, desisti e minha raiva passou. Com todo o cuidado, expliquei-lhe que estava tudo acabado. Não iríamos a lugar algum de motocicleta naquelas férias. Chris me sugeriu algumas soluções, como a de verificar se havia gasolina no tanque, o que eu já tinha feito, ou encontrar um mecânico. Mas não havia mecânicos por ali. Só os pinheiros de reflorestamento, os arbustos e a chuva.
Sentei-me na grama ao lado dele, no acostamento da estrada, derrotado, olhando para as árvores e arbustos. Respondi pacientemente a todas as suas perguntas, que com o tempo foram rareando. Então, Chris finalmente compreendeu que nossa viagem de motocicleta tinha acabado e começou a chorar. Acho que, na época, ele tinha oito anos.
Voltamos para casa de carona, alugamos um reboque, o amarramos no carro e fomos buscar a moto. Nós a trouxemos de volta à nossa cidade e partimos em viagem de novo, dessa vez de carro. Mas não era a mesma coisa. Na realidade, não nos divertimos muito.
Duas semanas depois do fim das férias, certa noite, depois do trabalho, tirei o carburador da moto para tentar descobrir qual era o problema, mas mesmo assim não consegui encontrar nada. Para limpar a graxa antes de colocá-lo de volta, abri a torneirinha debaixo do tanque para tirar um pouco de gasolina. Não saiu nada. O tanque estava completamente vazio. Na hora não consegui acreditar e ainda não consigo.
Já me recriminei mentalmente mais de cem vezes por essa estupidez e acho que, na verdade, nunca vou conseguir realmente me perdoar por isso. É claro que o barulho que ouvi quando balancei a moto foi o da gasolina no tanque de reserva, que não cheguei a abrir. Se não fiz uma verificação mais cuidadosa, foi porque parti do pressuposto de que a chuva causara o problema do motor. Na época, eu não sabia o quanto essas conclusões precipitadas podem ser tolas. Agora estamos com uma máquina de vinte e oito cavalos e levo muito a sério a sua manutenção.
De repente, John me ultrapassa levantando e abaixando a mão, fazendo sinal para parar. Diminuímos a velocidade e procuramos um local por onde passar da pista ao acostamento de cascalho. A beirada do concreto é abrupta, o cascalho está solto e não gosto nem um pouco dessa manobra.
Chris pergunta:
Para que estamos parando?
Acho que passamos a nossa saída ali atrás – diz John.
Olho para trás e não vejo nada. – Não vi placa nenhuma – digo.
John balança a cabeça. – Grande como a porta de um celeiro.
Verdade?
Ele e Sylvia fazem que sim com a cabeça.
Ele se inclina, estuda meu mapa, aponta para a saída e, mais adiante, para um viaduto sobre a autoestrada. – Veja só, já passamos por esta autoestrada – ele diz. E tem toda razão. Fico envergonhado.
Voltamos ou vamos em frente? – pergunto.
Ele pensa um pouco. – Bom, acho que na verdade não temos motivo nenhum para voltar. Tudo bem. Vamos em frente. De um jeito ou de outro chegaremos lá.
E agora, seguindo-os de perto, penso: por que fiz aquilo? Mal notei a autoestrada. E agora mesmo esqueci-me de avisá-los da tempestade. A situação está um pouco preocupante.
A massa de nuvens tempestuosas está maior agora, mas não se aproxima tão rápido quanto eu esperava. Isso não é bom. Quando a tempestade chega depressa, também vai embora depressa. Quando chega devagar, como esta, você pode ter de passar bastante tempo parado.

Robert M. Pirsig, em Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas – Uma Investigação Sobre os Valores

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