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A estrada segue sempre em frente,
serpenteando… paramos para descansar e almoçar, conversamos fiado
e nos acomodamos para enfrentar a longa etapa seguinte. A fadiga da
tarde contrabalança o entusiasmo do primeiro dia, e seguimos num
ritmo constante, nem rápido nem devagar.
Pegamos de lado um vento de sudoeste.
A cada rajada, a moto se inclina como que por si mesma na direção
contrária para se opor ao efeito do vento. Tenho tido uma sensação
peculiar a respeito desta estrada, uma certa apreensão, como se
estivéssemos sendo observados ou seguidos. Mas à nossa frente não
há veículo algum e pelo retrovisor só vejo John e Sylvia, muito
atrás de nós.
Não estamos ainda nas Dakotas, mas os
campos extensos mostram que estamos chegando perto. Alguns deles
estão azuis com as flores do linho, que se agitam em longas ondas
como a superfície do oceano. O terreno é mais movimentado do que
antes e agora as elevações de terra dominam toda a paisagem, com
exceção do céu, que aqui parece mais largo. As casas de fazenda,
bem longe, são tão pequenas que mal conseguimos vê-las. O terreno
está começando a se abrir.
O final das Planícies Centrais e o
começo das Grandes Planícies não são demarcados por uma linha
divisória rígida. É uma mudança gradual que pega você de
surpresa, como se, partindo num veleiro de um porto de mar agitado,
você percebesse de repente que as ondulações do mar ficaram mais
largas e profundas e, voltando-se para trás, não visse mais a
terra. Há menos árvores aqui, e de repente me dou conta de que elas
não são naturais da região. Foram trazidas para cá e plantadas em
fileiras ao redor das casas e entre os campos para diminuir a força
do vento. Mas, onde não foram plantadas, não se vê a macega dos
bosques nem árvores novas – só a relva, às vezes com algumas
ervas daninhas e flores silvestres, mas quase toda de gramíneas. São
pastagens. Entramos nas pradarias.
Tenho a sensação de que nenhum de
nós compreende perfeitamente como será passar quatro dias nestas
pradarias em pleno mês de julho. As lembranças de viagens de carro
por esta região são imagens de um terreno plano e vazio até onde a
vista alcança, de um tédio e uma monotonia extremos em que as horas
se sucedem e não se chega a lugar algum; e você se pergunta até
onde a estrada pode prosseguir sem nenhuma curva, sem nenhuma mudança
na paisagem, que se estende interminável até o horizonte.
John tinha medo de que Sylvia não
conseguisse aguentar o desconforto da viagem e quis que ela fosse de
avião até Billings, em Montana, mas tanto Sylvia quanto eu o
convencemos a desistir da idéia. Eu disse que o desconforto físico
só afeta a pessoa quando seu estado de espírito está mal. Quando
isso acontece, ela se apega à coisa que lhe causa desconforto e lhe
põe a culpa. Porém, quando o estado de espírito está bem, o
desconforto físico não tem grande importância. E, quando eu
pensava no humor e nos sentimentos de Sylvia, não imaginava que
pudesse se queixar.
Além disso, quem chega às Montanhas
Rochosas de avião as contempla num determinado tipo de contexto,
como uma bela paisagem. Mas quem chega depois de dias e dias de
viagem através das pradarias as vê de outra maneira, como uma meta,
uma terra prometida. Se John, Chris e eu chegássemos com esse
sentimento e Sylvia as visse como “legais” e “bonitas”,
haveria mais desarmonia entre nós do que a desarmonia causada pelo
calor e pela monotonia das Dakotas. De qualquer modo, também estou
pensando em mim, pois gosto de conversar com ela.
Na minha mente, quando olho para estes
campos, digo a ela: “Viu?… Viu?” E acho que ela vê. Espero
que, com o tempo, ela passe a ver e a sentir um aspecto destas
pradarias sobre o qual já desisti de falar com os outros: uma coisa
que existe aqui porque aqui não existe mais nada, uma coisa que pode
ser percebida graças à ausência de outras coisas. Às vezes, a
monotonia e o tédio da vida na cidade parecem deixar Sylvia tão
deprimida que pensei que, talvez, no meio desta relva e deste vento
sem fim, ela consiga ver uma coisa que às vezes acontece quando
aceitamos a monotonia e o tédio. Essa coisa está aqui, mas não sei
com que nome chamá-la.
Agora mesmo, no horizonte, vejo algo
que, segundo me parece, os outros não veem. Muito longe, a sudoeste
– só pode ser avistado do alto desta colina –, o céu tem uma
linha escura na parte de baixo. Tempestade chegando. Talvez seja isso
que tem me perturbado. Eu mantive a mente fechada de propósito, mas
sabia desde o começo que, com esta umidade e este vento, era muito
provável que viesse uma tempestade. É uma pena topar com uma no
primeiro dia, mas, como eu disse, numa motocicleta você está dentro
da paisagem, não é um simples espectador passivo; e as tempestades,
em definitivo, fazem parte da paisagem.
Quando se trata de uma nuvem isolada,
você pode tentar contorná-la, mas não é o caso desta aqui. Aquela
longa tira negra, sem nenhuma nuvem cirro à frente, é uma frente
fria. As frentes frias são violentas e, quando vêm do sudoeste, são
mais violentas ainda. Frequentemente contêm tornados. Quando chegam,
o melhor é se proteger e deixá-las passar. Não duram muito, e o ar
frio que vem por trás é bom para andar de moto.
As frentes quentes são as piores.
Podem durar dias. Lembro que, alguns anos atrás, eu e Chris viajamos
para o Canadá. Vencemos cerca de duzentos quilômetros e fomos pegos
por uma frente quente de cuja presença já estávamos mais do que
cientes, mas que não compreendíamos. A experiência toda foi bem
tola e triste.
Viajávamos com uma motocicletinha de
seis cavalos e meio, com bagagem demais e bom senso de menos. A
máquina, mesmo acelerada ao máximo, não passava dos setenta
quilômetros por hora contra um vento moderado. Não era uma moto
para viajar. Na primeira noite, chegamos a um lago em North Woods e
acampamos entre tempestades que duraram a noite inteira. Esqueci-me
de escavar uma vala em torno da barraca e, às duas da manhã, uma
corrente de água entrou nela e encharcou os dois sacos de dormir. Na
manhã seguinte, estávamos ensopados, deprimidos e sonolentos, mas
pensei que, se fôssemos em frente, a chuva diminuiria depois de
algum tempo. Nada disso. Às dez da manhã o céu estava tão escuro
que todos os carros trafegavam com os faróis acesos. E foi então
que caiu a chuva forte.
Estávamos usando os ponchos que
tinham servido de barraca na noite anterior. Na moto, eles se abriam
como velas ao vento e diminuíam nossa velocidade para cinquenta
quilômetros por hora no máximo. A água na estrada chegou a cinco
centímetros de profundidade. Raios caíam à nossa volta. Lembro-me
da cara de uma mulher que nos encarou perplexa da janela de um carro
que passava, pensando que diabos estávamos fazendo com uma
motocicleta nesse tempo. Tenho certeza de que, se ela me fizesse essa
pergunta, eu não saberia o que responder.
A velocidade da moto diminuiu para
quarenta quilômetros por hora, depois trinta. Então ela começou a
tossir, engasgar e pigarrear até que, mal conseguindo chegar a dez
por hora, encontramos num bosque de reflorestamento um posto de
gasolina velho e mal conservado no qual entramos.
Naquela época, eu, como John, ainda
não me ocupara de aprender muitas coisas a respeito do conserto de
motocicletas. Lembro-me que segurei o poncho sobre a cabeça para
impedir que a chuva caísse sobre o tanque de gasolina e balancei a
motocicleta entre as pernas. Ouvi a gasolina chacoalhar lá dentro.
Examinei as velas, os contatos e o carburador e tentei dar a partida
até ficar exausto.
Entramos no edifício do posto, que
também era bar e restaurante, e comemos um bife semicarbonizado.
Então, saí e tentei de novo. Chris ficava me fazendo perguntas que
começaram a me deixar com raiva, pois ele não percebia o quanto a
situação era séria. Por fim, percebi que nada daquilo adiantava,
desisti e minha raiva passou. Com todo o cuidado, expliquei-lhe que
estava tudo acabado. Não iríamos a lugar algum de motocicleta
naquelas férias. Chris me sugeriu algumas soluções, como a de
verificar se havia gasolina no tanque, o que eu já tinha feito, ou
encontrar um mecânico. Mas não havia mecânicos por ali. Só os
pinheiros de reflorestamento, os arbustos e a chuva.
Sentei-me na grama ao lado dele, no
acostamento da estrada, derrotado, olhando para as árvores e
arbustos. Respondi pacientemente a todas as suas perguntas, que com o
tempo foram rareando. Então, Chris finalmente compreendeu que nossa
viagem de motocicleta tinha acabado e começou a chorar. Acho que, na
época, ele tinha oito anos.
Voltamos para casa de carona, alugamos
um reboque, o amarramos no carro e fomos buscar a moto. Nós a
trouxemos de volta à nossa cidade e partimos em viagem de novo,
dessa vez de carro. Mas não era a mesma coisa. Na realidade, não
nos divertimos muito.
Duas semanas depois do fim das férias,
certa noite, depois do trabalho, tirei o carburador da moto para
tentar descobrir qual era o problema, mas mesmo assim não consegui
encontrar nada. Para limpar a graxa antes de colocá-lo de volta,
abri a torneirinha debaixo do tanque para tirar um pouco de gasolina.
Não saiu nada. O tanque estava completamente vazio. Na hora não
consegui acreditar e ainda não consigo.
Já me recriminei mentalmente mais de
cem vezes por essa estupidez e acho que, na verdade, nunca vou
conseguir realmente me perdoar por isso. É claro que o barulho que
ouvi quando balancei a moto foi o da gasolina no tanque de reserva,
que não cheguei a abrir. Se não fiz uma verificação mais
cuidadosa, foi porque parti do pressuposto de que a chuva causara o
problema do motor. Na época, eu não sabia o quanto essas conclusões
precipitadas podem ser tolas. Agora estamos com uma máquina de vinte
e oito cavalos e levo muito a sério a sua manutenção.
De repente, John me ultrapassa
levantando e abaixando a mão, fazendo sinal para parar. Diminuímos
a velocidade e procuramos um local por onde passar da pista ao
acostamento de cascalho. A beirada do concreto é abrupta, o cascalho
está solto e não gosto nem um pouco dessa manobra.
Chris pergunta:
– Para que estamos parando?
– Acho que passamos a nossa saída
ali atrás – diz John.
Olho para trás e não vejo nada. –
Não vi placa nenhuma – digo.
John balança a cabeça. – Grande
como a porta de um celeiro.
– Verdade?
Ele e Sylvia fazem que sim com a
cabeça.
Ele se inclina, estuda meu mapa,
aponta para a saída e, mais adiante, para um viaduto sobre a
autoestrada. – Veja só, já passamos por esta autoestrada – ele
diz. E tem toda razão. Fico envergonhado.
– Voltamos ou vamos em frente? –
pergunto.
Ele pensa um pouco. – Bom, acho que
na verdade não temos motivo nenhum para voltar. Tudo bem. Vamos em
frente. De um jeito ou de outro chegaremos lá.
E agora, seguindo-os de perto, penso:
por que fiz aquilo? Mal notei a autoestrada. E agora mesmo esqueci-me
de avisá-los da tempestade. A situação está um pouco preocupante.
A massa de nuvens tempestuosas está
maior agora, mas não se aproxima tão rápido quanto eu esperava.
Isso não é bom. Quando a tempestade chega depressa, também vai
embora depressa. Quando chega devagar, como esta, você pode ter de
passar bastante tempo parado.
Robert M. Pirsig, em Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas – Uma Investigação Sobre os Valores

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