terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

o dia em que joguei pela janela uma grana preta

e, eu disse, você pode pegar seus ricos tios e tias e avós e pais

e todo aquele petróleo escroto deles
e seus sete lagos
e seus selvagens perus
e búfalos
e o estado inteiro do Texas,
quer dizer, seus fuzilamentos de corvo
se seus calçadões de sábado à noite,
e sua biblioteca de meia-tigela
e seus vereadores corruptos
e seus artistas veadinhos –
você pode pegar tudo isso
e o seu jornal semanal
e os seus famosos tornados
e as suas enchentes imundas
e todos os seus gatos uivantes
e a sua assinatura da Time,
e enfiar lá, bebê,
enfiar lá.
posso empunhar de novo a picareta e o machado (acho)

e posso descolar
25 pratas por uma luta de 4 assaltos (talvez);
claro, estou com 38
mas um pouco de tintura pode tirar o grisalho
do meu cabelo;
e ainda consigo escrever poemas (às vezes),
não se esqueça disso, e mesmo que
não rendam nada,
é melhor do que esperar por mortes e petróleo,
e atirar em perus selvagens,
e esperar que o mundo
comece.
tá bom, vagabundo, ela disse,
cai fora.
o quê?, eu disse

cai fora. você teve o seu último

acesso de fúria.
cansei dos seus malditos acessos de fúria:
você está sempre agindo como um
personagem
de uma peça de O’Neill.
mas eu sou diferente, bebê,

não consigo
evitar.
você é diferente, tá bom!

meu Deus, quanta diferença!
não bata
a porta
quando sair.
mas, bebê, eu amo o seu dinheiro!
você nunca me disse

que me ama!
o que você quer

um mentiroso ou um
amante?
você não é nenhum dos dois! fora, vagabundo,

fora!…
mas bebê!

volte pro O’Neill!

fui até a porta,
fechei-a sem barulho e fui embora,
pensando: tudo que elas querem
é um índio de madeira
que diga sim e não
e fique parado acima do fogo e
não infernize demais;
mas você já está ficando
velho, garoto;
da próxima vez não abra
tanto
o jogo.

Charles Bukowski, em Sobre o amor

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