91.
Uma vista breve de campo, por cima de
um muro dos arredores, liberta-me mais completamente do que uma
viagem inteira libertaria outro. Todo ponto de visão é um ápice de
uma pirâmide invertida, cuja base é indeterminável.
Houve tempo em que me irritavam
aquelas coisas que hoje me fazem sorrir. E uma delas, que quase todos
os dias me Lembram, é a insistência com que os homens quotidianos e
ativos na vida sorriem dos poetas e dos artistas. Nem sempre o fazem,
como creem os pensadores dos jornais, com um ar de superioridade.
Muitas vezes o fazem com carinho. Mas é sempre como quem acarinha
uma criança, alguém alheio à certeza e à exatidão da vida.
Isto irritava-me antigamente, porque
supunha, como os ingénuos, e eu era ingénuo, que esse sorriso dado
às preocupações de sonhar e dizer era um eflúvio de uma sensação
íntima de superioridade. E somente um estalido de diferença. E se
antigamente eu considerava esse sorriso como um insulto, porque
implicasse uma superioridade, hoje considero-o como uma dúvida
inconsciente; como os homens adultos muitas vezes reconhecem nas
crianças uma agudeza de espírito superior à própria, assim nos
reconhecem, a nós que sonhamos e o dizemos, uma qualquer coisa
diferente de que eles desconfiam como estranha. Quero crer que,
muitas vezes, os mais inteligentes deles entre- vejam a nossa
superioridade; e então sorriem superiormente, para esconder que a
entreveem.
Mas essa nossa superioridade não
consiste naquilo que tantos sonhadores têm considerado como a
superioridade própria. O sonhador não é superior ao homem ativo
porque o sonho seja superior à realidade. A superioridade do
sonhador consiste em que sonhar é muito mais prático que viver, e
em que o sonhador extrai da vida um prazer muito mais vasto e muito
mais variado do que o homem de ação. Em melhores e mais diretas
palavras, o sonhador é que é o homem de ação.
Sendo a vida essencialmente um estado
mental, e tudo, quanto fazemos ou pensamos, válido para nós na
proporção em que o pensamos válido, depende de nós a valorização.
O sonhador é um emissor de notas, e as notas que emite correm na
cidade do seu espírito do mesmo modo que as da realidade. Que me
importa que o papel-moeda da minha alma nunca seja convertível em
ouro, se não há ouro nunca na alquimia factícia da vida?
Depois de todos nós vem o dilúvio,
mas é só depois de todos nós.
Melhores, e mais felizes, os que,
reconhecendo a ficção de tudo, fazem o romance antes que ele lhes
seja feito, e, como Maquiavel, vestem os trajes da corte para
escrever bem em segredo.
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego
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