domingo, 8 de fevereiro de 2026

Dewey Dell



Quando ele viu o dinheiro, eu disse: “Não é dinheiro meu. Não me pertence.”
De quem é, então?”
É de Cora Tull. O dinheiro é de Mrs. Tull. O dinheiro dos bolos que eu vendi.”
Dez dólares por dois bolos?”
Não toque nele. Não é meu.”
Você não trouxe bolo nenhum. É mentira. Eram as roupas de domingo que você trazia naquele embrulho.”
Não toque nele! Se tirar o dinheiro, você é um ladrão.”
Minha própria filha me acusa de ser ladrão. Minha própria filha.”
Pai. Pai.”
Eu lhe dei de comer e lhe dei abrigo. Eu lhe dei amor e assistência, e no entanto minha própria filha, a filha de minha mulher morta, me chama de ladrão sobre o túmulo da mãe.”
Não e meu dinheiro, já disse. Se fosse. Deus sabe que você poderia pegá-lo.”
Onde arranjou dez dólares?”
Pai. Pai.”
Você não quer contar. Fez uma coisa tão vergonhosa que não tem coragem de me contar?”
Não é meu, já lhe disse. Será que você não compreende que o dinheiro não é meu?”
Eu não disse que não pretendia devolver. E no entanto ela chama o próprio pai de ladrão.”
Não posso dar, já disse. O dinheiro não é meu. Deus é testemunha de que, se fosse meu, eu lhe daria.”
Não é que eu queira. Minha própria filha, que eu alimento há dezessete anos, recusa-se a me emprestar dez dólares.”
Não é meu. Não posso.”
De quem é, então?”
Deram-me o dinheiro. Para comprar uma coisa.”
Para comprar o quê?”
Pai. Pai.”
É só um empréstimo. Deus sabe, detesto que filhos de minha carne me reprovem. Mas eu lhes dei o que era meu sem hesitar. Dei contente, sem hesitar. E agora me negam. Addie, que sorte a sua ter morrido, Addie.”
Pai. Pai.”
Deus sabe”.
Ele pegou o dinheiro e saiu.

William Faulkner, em Enquanto Agonizo

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