Quando ele viu o dinheiro, eu disse:
“Não é dinheiro meu. Não me pertence.”
“De quem é, então?”
“É de Cora Tull. O dinheiro é de
Mrs. Tull. O dinheiro dos bolos que eu vendi.”
“Dez dólares por dois bolos?”
“Não toque nele. Não é meu.”
“Você não trouxe bolo nenhum. É
mentira. Eram as roupas de domingo que você trazia naquele
embrulho.”
“Não toque nele! Se tirar o
dinheiro, você é um ladrão.”
“Minha própria filha me acusa de
ser ladrão. Minha própria filha.”
“Pai. Pai.”
“Eu lhe dei de comer e lhe dei
abrigo. Eu lhe dei amor e assistência, e no entanto minha própria
filha, a filha de minha mulher morta, me chama de ladrão sobre o
túmulo da mãe.”
“Não e meu dinheiro, já disse. Se
fosse. Deus sabe que você poderia pegá-lo.”
“Onde arranjou dez dólares?”
“Pai. Pai.”
“Você não quer contar. Fez uma
coisa tão vergonhosa que não tem coragem de me contar?”
“Não é meu, já lhe disse. Será
que você não compreende que o dinheiro não é meu?”
“Eu não disse que não pretendia
devolver. E no entanto ela chama o próprio pai de ladrão.”
“Não posso dar, já disse. O
dinheiro não é meu. Deus é testemunha de que, se fosse meu, eu lhe
daria.”
“Não é que eu queira. Minha
própria filha, que eu alimento há dezessete anos, recusa-se a me
emprestar dez dólares.”
“Não é meu. Não posso.”
“De quem é, então?”
“Deram-me o dinheiro. Para comprar
uma coisa.”
“Para comprar o quê?”
“Pai. Pai.”
“É só um empréstimo. Deus sabe,
detesto que filhos de minha carne me reprovem. Mas eu lhes dei o que
era meu sem hesitar. Dei contente, sem hesitar. E agora me negam.
Addie, que sorte a sua ter morrido, Addie.”
“Pai. Pai.”
“Deus sabe”.
Ele pegou o dinheiro e saiu.
William Faulkner, em Enquanto Agonizo

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