O mar existindo com este navio imenso,
coitado de quem não viu
e só soube de mar de rosas e rio de
enchente parecendo um mar.
O navio apita, dentro dele é grande,
dividido em cômodos,
tem espaço pra cozinha, piscina, sala
de visita,
até capela tem com seu capelão!
OHAH!
Tão diverso de anzolinho de piaba e
água doce
esta água estendendo-se até dormir
de cansaço
e virar país estrangeiro.
Coitados de pai e mãe que morreram
sem ver.
Dizem que estrela-do-mar, quando está
viva, é um bicho,
depois de seca é que vira enfeite de
parede. Tem navio
que cabe essa rua toda de gente.
Eu dou as costas pro mar,
afogada em despeito choro um rio de
lágrimas.
Já li ‘mar de sargaços’; seja o
que for, é belo.
Qualquer homem é estrangeiro,
comparado a outro homem
que nunca viu sua terra.
Não quero viajar mais. Tenho gravuras
do mar e mais
o que me foi dado com pequeno quintal
e distraiu meus avós
e foi causa de celebração e motins,
juramentos solenes
acompanhados de viola e rostos graves.
Um doou um rim; outro, um lote,
outro me deu o enxoval pra estudar no
ginásio
e sofreu até morrer da doença
terrível,
sem um ai de sua boca que agravasse o
Senhor.
Pecados graves, medo, inocências
incríveis cometeram,
espraiaram satisfações por causa da
chuva, das galinhas chocando,
por causa das passagens do livro
prometendo alegria:
“A figura deste mundo passa, olho
humano jamais viu o que espera os eleitos...”
Não quero saber do mar. No fundo da
mina, em minas,
também tem frestas de luz.
Queria ser dramática e não sou.
Isto me fez sofrer até agora.
É um córrego, um veio d’água,
um estro pequeno, o meu.
Se o crítico tiver razão,
nunca terei estátua.
Valha-me, pai,
num mar de vaidades não me deixe
morrer,
pela vida, entrego os versos todos;
na perna erisipelada
porei compressas quentes.
A noite inteira, se for preciso.
Adélia Prado, em O Coração Disparado
Nenhum comentário:
Postar um comentário